O pai do medo (resenha do livro Histórias Extraordinárias de E. A. Poe)
No início do século passado, um crítico inglês indagava, sarcástico, a seus leitores se jamais leram um livro ou peça teatral dos Estados Unidos. Mais tarde, os grandes poetas da França (Valéry. Mallarmé) confirmavam o fascínio que um contista e poeta americano, Edgar Allan Poe, despertara em Baudelaire, o grande renovador da poesia europeia. Esgotadas durante vários anos, Histórias Extraordinárias do famoso poeta de "O Corvo", agora reeditadas, dão à nova geração um oportuno reencontro com o predecessor da literatura de horror. Porque o horror é o clima constante destes contos que confinam no pesadelo: em "O Poço e o Pêndulo", uma gigantesca roda metálica de bordas cortantes aproxima-se de um prisioneiro amarrado. Em "Os Crimes da Rua Morgue", a рolícia encontra um mistério insondável: duas mulheres violentamente mutiladas dentro de uma casa fechada por dentro. Estas histórias sinistras de navios tripulados por mortos, de mulheres catalépticas enterradas vivas e que emergem do túmulo sangrentas e clamando por vingança, refletem os quarenta anos da vida breve do fundador da literatura americana, uma carreira dizimada pelo álcool, pelas drogas e pela miséria. Este primeiro Edgar "autor maldito" que precede outros "malditos" na Europa Baudelaire, Verlaine, Rimbaud desde sua primeira aparição pública substitui a realidade pela fantasia desenfreada.
Num dia de 1844, os exemplares do jornal The New York Sun são arrebatados por milhares de leitores, espantados com a manchete sensacional: aeronautas tripulando um balão atravessaram o Atlântico em três dias de voo. Seria a mentira jornalística mais sensacional até que em 1938 o cineasta Orson Welles anunciasse pelo rádio a invasão de Nova York por naves de Marte tripuladas, causando pânico geral.
Oscilando entre o fantástico e a depressão mórbida próxima da loucura, Edgar Allan Poe comprova o teorema genético de que ninguém escapa à sua hereditariedade, Filho de atores mambembes, nascido em 1809, em Boston, o pequeno Edgar dificilmente poderia fugir às taras que dizimaram sua família - o pai alcoólatra, a mãe e o irmão tuberculosos, a irmã idiota e epiléptica, ele mesmo sujeito a crises de delirium tremens.
Órfão aos dois anos de idade, brincando na câmara mortuária da mãe há pouco abandonada pelo marido na mais extrema penúria, Edgar presencia o incêndio do teatro em que sua mãe representara pela última vez. Sensível, assistindo desde cedo às declamações da mãe no palco, precocemente ele se deixa fascinar "pelo ritmo da palavra e pela musicalidade da voz humana", como relatará mais tarde. Adotado por ricos comerciantes da Virgínia, a família Allan (cujo sobrenome adiciona ao de seu pai), Poe é uma criança prodígio: aos seis anos já escreve dramas, representa e declama em festas familiares. Mimado pelos pais adotivos e sem seguir nenhum estudo metódico, o pequeno Edgar é um déspota cujas vontades são obedecidas como leis. Irritadiço, distante dos companheiros de brinquedos infantis, segue a família Allan durante uma permanência de quatro anos na Inglaterra. Interno num colégio escocês de rígida disciplina, recebe suas primeiras impressões de horror: a paisagem sombria da Escócia, as cidades e casas velhas – a primeira inspiração para seus ambientes soturnos em que se desenrolam tragédias como em "A Queda de Mansão de Usher".
Ao voltar aos Estados Unidos, em 1820, e adolescente elegante, musculoso e rico desperta a inveja de seus colegas como campeão de boxe, natação equitação e esgrima, consagrando-se ao mesmo tempo como excelente versejador em latim. Arrogante, exilado de seu grupo, ele cultiva um amor mórbido por tudo o que é secreto e formula sua teoria da perversidade (a tendência para nos regozijarmos com o Mal que possamos causar a outrem e que é nossa herança do Demônio). Sua vida é uma montanha russa de glória e fracasso em carreiras tão diferentes quanto a militar (distingue-se na Academia de West Point até ser expulso por indisciplina e embriaguez contumaz) e a jornalística (dá vida nova a meia dúzia de jornais e revistas, aumentando suas tiragens de setecentos a 15.000 exemplares, como a Southern Literary Messenger, até ser vencido pelo alcoolismo). Aristocrático, exótico (veste-se invariavelmente de preto e às vezes usa a roupa de frente para trás), considera a democracia “uma ilusão de ótica” e a ideia da “igualdade universal” um conceito bizarro, quase uma heresia. Nacionalista ardente, luta durante treze anos para que os escritores americanos sejam publicados pelos editores do seu país, só interessados em autores ingleses. Quando e novelista britânico Charles Dickens vai visitá-lo, passa horas expondo-lhe seu projeto para criação do direito autoral até então inexistente. É o primeiro a perceber que o jornalismo introduziu um ritmo diferente na leitura, fundindo o conto com a concisão jornalística de um Ernest Hemingway. Este homem que aos 38 anos de idade não adormece sem que sua tia lhe segure a mão e que detesta a escuridão e a noite, consulta os jornais em busca de notícias sobre crimes perfeitos - como o de Mary Rogers, que transformará em "A Morte de Marie Rogêt" - ou sobre inventos científicos como o autômato que jogava xadrez com perfeição. Temendo a loucura e a morte, cultiva, no entanto, o medo como "fonte de gozo supremo, paroxismo da alma". Alcoólatra, discursa em ligas de temperança contra o alcoolismo. Adulado por mulheres ricas e que "adoram literatura", prefere casar-se com uma prima-irmã pobre, Virgínia Clemm, que morre tuberculosa - a amada morta cantada em "Annabel Lee", "O Corvo" e outros poemas. Predecessor dos mestres do romance policial, Conan Doyle, Agatha Christie, o demonismo destas suas Histórias empalideceu para o século que conheceu Hiroshima, Dachau e a reimpressão das obras de Sade. Mas sua posição de pioneiro da ficção científica de um Ray Bradbury ou de uma literatura fantástica (Kafka, Borges, Arreola) garantem sua perenidade como arauto de toda a literatura moderna.
Reuso
Citação
@incollection{gilson_ribeiro2023,
author = {Gilson Ribeiro, Leo},
editor = {Rey Puente, Fernando},
title = {O pai do medo (resenha do livro *Histórias Extraordinárias*
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booktitle = {A Literatura Norte-Americana},
series = {Textos Reunidos de Leo Gilson Ribeiro},
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doi = {10.5281/zenodo.8368806},
langid = {pt-BR},
abstract = {Veja, 1970/07/29.}
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