Mark Twain, segundo o professor Hamlin Hill

Autor

Leo Gilson Ribeiro

Resumo
Jornal da Tarde, 1985/01/02.

Brazil? Freneticamente o escritor norte-americano Mark Twain indagava no porto de Nova Orleans quando sairia o próximo navio para aquele país distante, que o tornaria rico em dois tempos. Para desapontamento daquele jornalista e ex-piloto de barcos no rio Mississipi, só daí a um ano ele poderia chegar às costas riquíssimas de cacau, um Eldorado ao qual bastava esticar a mão e colher os frutos da riqueza instantânea. O Brasil tinha sido outra mania daquele ex-candidato a explorador de minas que ficara exausto ao verificar que para obter ouro ou prata era preciso... cavar. O que francamente, exigia muito esforço!

Mark Twain (1835-1910), nascido com o nome do Samuel Langhorne Clemens, no entanto, tinha um pequeno trator que movia a sua obsessão pelo sucesso: uma pena fácil, um estilo hilariante, espalhafatoso, às vezes um tanto cru, que causava delícia entre os leitores middle brow (médios), mas erguia muitas sobrancelhas na Nova Inglaterra, muitas sensibilidades refinadas, acostumadas com o transcendentalismo de Emerson e de Hawthorne e – ó céus! - convencidas da superioridade "intrínseca" de qualquer autor ou obra que viesse ou estivesse na impecável Europa.

Autodidata, dispondo apenas de um enorme, transbordante talento a uma educação rudimentar. ele escrevia de forma popular, relatando sempre histórias impossíveis, engraçadas, mentirosas, que pregavam peças no leitor. Naquele tempo a América fora considerada pelo magnífico escritor Henry James um país rude, ignorante, bom para vacas e fazendeiros incultos, do qual fugira rápido rumo à culta e civilizada Londres. Na realidade, os Estados Unidos daquela época, no século passado, só tinham poucas livrarias e bibliotecas, e só nas grandes cidades. Nas imensas planícies rurais os únicos livros existentes eram a cartilha, um ou outro almanaque com conselhos agrícolas e, é claro, a Bíblia entronizada na sala de visitas.

Mas enquanto Henry James, com seus livros requintadíssimos e esplêndidos (The Portrait of a Lady, The Golden Bowl e outros) não chegava a vender dois mil exemplares, Mark Twain tornava-se o grande sucesso da América, o seu mais querido e fulminante humorista: O sistema de compra de suas obras por meio de assinaturas conseguia vender cem mil, 150 mil volumes, especialmente os relatos de viagens à Europa & à Terra Santa: Innocents Abroad Roughing It. Em grande parte eram uma vingança, não um acerto de contas do norte-americano comum com a Cultura com C maiúsculo da Velho Mundo. Mark Twain confessava que se cansava de ver tantas catedrais góticas e românicas no fundo eram todas iguais, quem viu uma viu todas. Comparava os mais belos lagos de Norte da tália com o Lago Tahoe e tinha a impertinência de achar este muito mais bonito. Horror entre os leitores da costa Leste cultos e entre os esnobes que queriam ser cultos; delírio de riso diante de tanta franca irreverência por parte dos que consideravam a Europa “um monte de velharias”. Um de seus ácidos e lapidares comentários sacudiu a América inteira: “Com os preços que os barqueiros da Galileia cobram, não me surpreende que Jesus tenha preferido andar sobre as suas águas”.

Seu primeiro herói literário, Tom Sawyer, é a glorificação de uma América ingênua, com aventuras aparentemente perigosas, mas no final inofensivas, porque as vítimas, como nos seriados de cinema norte-americano mais tarde, são salvas sempre no último minuto. Tom Sawyer recorda a infância e a pre-juventude com cores vivas, alegres, evoca o primeiro namoro, as virtudes e pacatez das cidades pequenas, da vida familiar com seus idílios inocentes. Era a América que o artista Norman Rockwell imortalizaria um século mais tarde nas capas da revista Saturday Evening Post.

À medida que sua carreira se expande e ele se muda do Sudoeste (uma mistura do Faroeste e do Sul) para a parte mais imbuída do refinamento europeu, a Nova Inglaterra, onde se estabelece na mansão suntuosa de sua mulher, que pertencia a uma das famílias mais ricas e vitorianamente “corretas” da região, Mark Twain começa a mudar. Não que seu estilo viril, recheado de lorotas e otimismo de um cowboy sem complicações intelectuais se altere. Nada de seu amor pela natureza e de sua celebração das virtudes pragmáticas norte-americanas perde seu vigor. São reflexões sombrias, amargas, que surgem pouco a pouco: premido pelas "boas maneiras" e pelo Estado cada vez mais avassalador e burocrático, o indivíduo não abdica involuntariamente de seus direitos? Se tudo já está previsto pela Previdência Social e pela Providência Divina, o que resta do instinto sadio de luta, de preservação da liberdade numa democracia mecânica como um relógio que nunca se adianta nem se atrasa?

Pior ainda: Mark Twain começa a desdenhar da civilização, que lhe parece uma nova forma de escravidão. Um romance que quase se pode considerar de ficção cientifica, coloca inventores yankees (norte-americanos do Norte dos Estados Unidos, em contraposição aos sulistas) a planejar, em plena corte do Rei Arthur, da Inglaterra medieval, engenhos cada vez mais mortíferos. A máquina veio para destruir. A máquina e a ciência são indiferentes à ética. Só contam o lucro, a carnificina, as "experiências". Uma frase que seus leitores jamais poderiam imaginar saída de sua boca causa arrepios e escândalo em seus milhares de admiradores repentinamente desamparados e perplexos. Adão foi o primeiro benfeitor da Humanidade, pois ele nos trouxe, a nós seres humanos, a morte. Seus livros são postos de lado, inacabados pelo autor.

Ou levam muitos anos para chegar ao fim. Para que, se tanto os seres bípedes quanto os quadrúpedes são meros títeres cujos cordéis são leis imutáveis e inexoráveis? Mark Twain, o que sempre trazia alegria de viver, o que sempre proporcionava uma sonora gargalhada com seus “causos”, agora causa espanto, ordena que seus livros, vários deles, sejam publicados postumamente, um deles até 500 anos depois da sua morte!

Se houve uma figura paradoxal em toda a literatura norte-americana até hoje, essa figura quase ficcional foi, sem dúvida, Mark Twain. Apesar de seu crescente niilismo quase tão tenebroso quanto o de Schopenhauer, ele continuava - algumas pessoas diriam esquizofrenicamente - a pronunciar mais de 200 conferências, a percorrer toda a América. O professor Hamlin Hill continua e chama a atenção para a crença que o obcecava: ele, Mark Twain, como na famosa história de Robert Louis Stevenson, continha dentro de si um médico ao lado de um monstro. Até aparecer a sua obra-prima, que é considerada quase que unanimemente a pedra fundamental sobre a qual assenta todo o edifício da literatura norte-americana em prosa: The Adventures of Huckleberry Finn. O que era aquilo? Um adolescente que foge de uma sociedade cheia de regras que o sufocam, analfabeto, semisselvagem, desce o rio Mississipi a bordo de sua tosca jangada, um negro, Jim, um escravo fugido, portanto nada mais que a “propriedade legal” de algum gentleman bronco como Huck, que adquirirá o preto fujão por bom preço?! E Huck prefere "ir para o inferno" do que negar a liberdade a si e a Jim? As bibliotecas públicas de Norte a Sul, de Leste a Oeste, tem ordens explícitas para banir esse "livro pernicioso" de suas prateleiras, não vá sua leitura envenenar as mentes daqueles que os lerem, Deus todo poderoso! Os críticos, em coro, craquejam que é um livro subversivo, horroroso, mal escrito, improvável, indigno de frequentar cátedras universitárias ou enfeitar casas decentes. Como pode tal monstro ter resistido a mais de 150 edições, com mais de 35 traduções, e despertada, neste século, um interesse que se avoluma a cada dia que passa?

Possivelmente a maior autoridade mundial em Mark Twain, o professor Hamlin Hill, da University of New Mexico, esteve em São Paulo esta semana, pregando um catecismo fácil de adotar quando se atenta para a sua eloquência. Qual reconhecimento feito já precocemente por Ernest Hemingway, quando lhe perguntaram na África qual e livro mais importante dos Estados Unidos. Sem hesitar, ele respondeu nada se escreveu igual a Huckleberry Finn.

Por que essa singularidade? Em sua brilhante palestra na Universidade de São Paulo, esse americano extremamente cordial e simpático explica: o rapazelho Huck é um símbolo de todas as céleres mudanças pelas quais a América passou em curto prazo de tempo: a dilaceração da Guerra de Secessão (que nos EUA se chama de Guerra Civil), o trauma da Revolução Industrial, a burocratização da vida, tornada automática e mecânica, regida por uma enxurrada de leis, policiada a cada instante, sem mais a liberdade daquela anárquica democracia rural de antigamente. Huck passa a ser um símbolo doloroso, comovente, da própria, miserável condição humana. Nada de embelezar a realidade com romances escapistas do tipo E o Vento Levou: o ser humano pode e costuma ser frequentemente cruel e mesquinho para com os seus semelhantes, muitas vezes sem nenhuma razão para isso. Huck indaga a todos nós, se podemos ainda, no mundo em que vivemos, encontrar um único indivíduo que seja livre, que possa resistir às tremendas e deformadoras pressões do meio ambiente e ele próprio responde, tragicamente: não.

Então, como muitas décadas mais tarde, no teatro do absurdo de Ionesco e de Beckett ou no cosmos alucinante de Kafka, a única conclusão que se pode tirar da existência humana, em seu ridículo desemparo, é o absurdo, é uma piada de mau gosto ou uma fraude? O heroísmo não existe e quando existe é inútil?

De forma alarmantemente crescente, Mark Twain passa a ser chamado, em San Francisco, de "o moralista", epíteto que aliás o agrada: “Meus leitores me tomaram o tempo toda por um humorista; bem, eu posso ser isso também, mas no fundo sou mesmo um pregador de sermões. Mark Twain um moralista? Mark Twain um radical? O horror da maioria e secreto encanto de pouceos reconhecia nele, mais e mais, uma ameaça à América" ou "à consciência da América". Pois ele não dera para denunciar que na California os chineses eram discriminados de forma selvagem pela população branca? Pior ainda: agora ele acusava a Inglaterra e sua própria pátria, os Estados Unidos, de "potências imperialistas"! Zombava da nanica Bélgica a dominar o imenso território do Congo e ainda ter a desfaçatez de batizá-lo de "Congo Belga"...: onde iríamos parar se este homem não calasse, não engolisse tantos impropérios delirantes? Ultimamente anunciara, alto e bom som, que para liquidar com o sistema totalitário czarista, na Rússia, seria capaz de jogar uma bomba de dinamite no próprio czar! E, Jesus!, não é que agora acusava todas as grandes potências brancas de se imiscuírem na chamada”Rebelião dos Boxers” da China, os europeus dominantes mercadejando no país indefeso o rendoso produto: o ópio?!

A conferência empolgante, erudita, mas sem pedantismo, do professor Hill já tinha liquidado, uma a uma, as perguntas que eu tinha a lhe fazer sobre seu tema predileto. Restou, porém, no Consulado Americano, esse diálogo:

Professor Hill, é verdade que a esposa de Mark Twain “bowdlerised” (isto é censurou com propósitos puritanos) várias partes da obra dele, eliminando palavras come "stench" (fedor)?

Em parte, sim. Liv, como ele a chamava, era sempre a sua primeira crítica, mas muitas vezes ele recusava as observações dela. Tanto ela quanto o escritor Dean Howells e as próprias filhas de Mark Twain faziam críticas, mas no fim ele é que decidia aceitá-las ou não. Afinal, a família de sua esposa era culta, imensamente rica...

Vinha de outra região cultural dos Estados Unidos, do Leste, não?

Exato, portanto, predominava um ponto de vista um tanto vitoriano, que prescreve o que é e o que não é "decente" e que ele aceitava, mas não a ponto de, como disse Van Wyck Brooke, ela ter destruído a literatura do marido...

No entanto, as filhas de Mark Twain afirmaram que páginas a páginas dos seus escritos foram jogadas fora...

Não acredito: ele apenas os guardou existem ainda. Agora o que creio é que nunca se consegue reformar uma pessoa vitoriana, pudica, como a mulher de Twain...

Além do que, existem "The Other Victorians" ("Os Outros Vitorianos", título de um livro famoso que documenta toda a parte subterrânea, suprimida da era vitoriana, com seus crimes sexuais como os de Jack, o Estripador e diários de depravações sexuais sadomasoquistas, além de outras revelações) ...

Sim, e em certo sentido Mark Twain foi um deles, escreveu páginas, entre aspas, escatológicas, pornográficas, circuladas só entre homens, seus amigos, mas que hoje em dia seriam consideradas até trabalho de amador, de iniciante...

Não há, porém, um conflito entre o Mark Twain inicial, em parte semelhante a Walt Whitman? De um lado ele quer celebrar a América e sua majestade, a amplitude e a liberdade do Oeste, a natureza americana, e de outro lado, depois, sobrevém o pessimismo, como que o desmoronamento do "sonho americano" por motivos políticos...

E econômicos, referentes à tecnologia e também porque - insisto com os meus alunos sobre este ponto - ele era um humorista, e não há pessoa mais pessimista, mais amarga, do que um humorista, como, afinal, todo escritor sério. Sim, porque se você passar o tempo todo rindo das fraquezas humanas, da estupidez humana, da parte frívola e inútil dos empreendimentos humanos, mais cedo ou mais tarde você é obrigado a se tornar um pessimista. O mesmo aconteceu com James Thurber, com Swift. Acredito que a atitude de rir dos defeitos humanos trai um pessimismo muito mais cínico do que o ponto de vista trágico que nos coloca diante de um modelo, produz uma catarse e nos adverte no sentido de não cometermos os mesmos erros, como o do orgulho desmedido, da maneira que sucede com os protagonistas de Shakespeare, por exemplo...

Mas Mark Twain se apresenta às vezes como seguidor do determinismo, depois como um agnóstico, em termos teológicos, um ateu...

Ou um deísta? Depende do dia... Depende de ele ter dormido bem na noite anterior, de ter recebido uma carta com polpudos pagamentos pelos direitos de suas obras, de ter tomado um "breakfast" suficiente ou, ao contrário, de ele ter recebido uma carta que o enfureceu, de ter passado a noite com insônia, de ter comido mal...

Quer dizer que Deus era uma questão de dispepsia?

Claro! Tudo coexistia: ele culpava Deus pelos horrores da vida, achava que os seres humanos é que tinham inventado um Deus, ao qual, para cúmulo, tínhamos ainda que agradecer pelas "bençãos" recebidas, quando na realidade imperavam a maldade, a infelicidade, as fraquezas humanas: à imagem de que deus então poderiam ter sido feitos os seres humanos?! Em outras ocasiões ele aderia a uma concepção mecanicista do mundo como Franklin e Paine, acreditando num deísmo racionalista, na teoria de que Deus é um grande relojoeiro, que determinou as leis sob as quais devemos viver. Já há, portanto, momentos em que Deus existe, mas está ausente da Sua criação, há momentos em que Mark Twain é também um deísta...

Podíamos então imaginar que com o advento da tecnologia, da máquina, Twain poderia ter previsto o aparecimento da bomba atómica, no final?

Sem dúvida, como aconteceu com Henry Adams, que a previu exatamente; de qualquer maneira os dois se defrontaram com o fato de que a máquina estava à solta e fora de qualquer controle humano... Esse era o aspecto maléfico da máquina como terror e não como benefício para a Humanidade. Mas, para sermos justos, havia igualmente outras ocasiões em que Mark Twain reconhecia que a segunda metade do século XIX era a mais milagrosa possível para as pessoas viverem, devido ao telefone, telégrafo, rádio e mais tarde, na final de sua vida, fonógrafo, o cinema e ele elogiou todas essas invenções. Todavia, ele intuía que aquele poder, aquela nova força constituía um novo perigo, pois afinal foi uma máquina que em 1824, o levou à bancarrota, ao investir 300.000 dólares numa máquina compositora que, no fim, não funcionou... Essa preocupação com a era da máquina e da Ciência só irromperia de forma mais marcante na sua criação final, como em A Connecticut Yankee in King Arthur's Court (Um Ianque de Connecticut na Corte do Rei Artur) quando todos os cientistas e inventores amaricanos se tornam criadores de máquinas de morte e destruição em vez de artefatos benéficos...

E como tantos autores e críticos se referem a ele, no final de contas, como a um "romântico"?

Mais uma vez, tudo dependia das circunstâncias daquele dia em questão, mas, de acordo com as definições do romantismo, certamente surgiram em seus textos incríveis coincidências, desvios inacreditáveis em seus enredos, muitos acontecimentos que não consideramos "realistas"...

Que fazem parte do que hoje se denomina de área da percepção extra-sensorial?

Exato: come Tom Sawyer reaparecendo na caverna de Huckleberry Finn, este estando exatamente no lugar e na hora em que essa aparição ia se dar, uma série de identidades misturadas, de gêmeos idênticos trocados, toda uma série de mutações e acontecimentos que na realidade fazem mais parte da área que se convencionou chamar de "romântica". Também o fato de, no início do livro, Huck assinar o nome apenas com um "x", pois era completamente analfabeto e no final conseguir assinar certo e por inteiro seu nome: são procedimentos inteiramente românticos. E depois, se pararmos para pensar, como, do ponto de vista puramente prático, Huckleberry Finn pôde escrever um livro tão deslumbrante, tão cheio de poesia? Temos de deixar de lado a nossa incredulidade, qualquer noção de lógica e racionalidade para apreciar intensamente a grandeza do relato, já que se trata de um autor, neste caso, romântico.

Temos de lhe permitir então uma licença poética?

Isso mesmo: Além de, no decurso da viagem rio abaixo, Huck aprender a escrever uma história tão maravilhosa, paralelamente ao Mark Twain romântico há também o Mark Twain naturalista, o realista e muitos outros mais...

Mas à medida que os anos passam, pode-se dizer que ele se torna cada vez mais pessimista e mesmo niilista?

Isso pode ser conferido em sua obra, que registra momentos de tristeza de natureza pessoal, de depressão, uma forma de desespero que só fazia crescer o que no final do século XIX passou a ser a maneira pela qual Mark Twain já se apresentava definitivamente ao seu público ledor. Ele se responsabiliza pelas mortes ocorridas em sua família ou por ter atirado supostamente em um soldado da União (do Norte dos EUA) durante a Guerra Civil, embora as pesquisas posteriores não apresentem prova alguma de sua culpa nesses casos

E isso de certa maneira o liga a Faulkner, à sua visão crescentemente desoladora do ser humano? Faulkner talvez se insira mais na tradição do Sul do Estados Unidos.

Mas (no final de seu romance The Sound and The Fury) ele afirma (com relação ao Sul e suas iniquidades raciais): "Mas não o odeio! Não o odeio!"...

E ao receber o Prêmio Nobel afirma que "o homem prevalecerá", sim, há essa mistura de otimismo e pessimismo.

Poderíamos então colocar Twain entre a rebelião inicial de Thoreau contra a sociedade codificada e sua volta à Natureza, de um lado, e de outro o painel angustiante que Faulkner pinta da miserável condição humana?

Acho que é precisamente onde ele se coloca. Inicialmente, há o otimismo, depois o pessimismo e por fim a resignação diante do que se constata.

Dois pontos não ficaram claros para mim, professor Hill, depois de ler Mark Twain: primeiro: ele estava muito envolvido com o tema da Guerra da Secessão? E, segundo: a escravidão o comovia? Afinal, Huckleberry Finn conduzia o negro, escravo fugido, Jim, na sua jangada e Jim era considerado apenas uma "propriedade" desgarrada.….

Em sua "Autobiografia" ele confessa que nem na sua infância nem na sua juventude jamais se preocupou realmente com esses problemas. Com o da escravidão menos ainda porque na região de onde ele provinha, o Sudoeste, a escravidão era um assunto que não se condenava, fazia parte da ordem natural das coisas... Do alto dos púlpitos os ministros de Deus proclamavam que era uma situação “sancionada pelas forças divinas”.

Come se propagava a teoria de que "os negros não têm alma”...

Na realidade, tudo tinha sua origem na Bíblia, no “Deep South”: voltava-se à história de Noé na ocasião em que Cam, filha de Noé, foi banido rumo ao Leste do Éden para ser o escravo negro de seus irmãos brancos. Devido a seu casamento com uma família abolicionista de Nova York, Mark Twain lentamente se despojou desses “ensinamentos” que recebera do Sul. Foi a influência da Nova Inglaterra, em Hartford, Estado de Connecticut, onde passou a morar. E diante das injustiças que via também durante o tempo de Reconstrução da Guerra de Secessão e da perseguição que se fazia ainda contra os que tinham sido libertados da escravidão.

E ele abandonou simultaneamente aquela ideia de que o Sul era cavalheiresco, refinado, e constituía uma sociedade aristocrática, em contraste com o igualitarismo do Norte?

Acho que ele nunca abandonou seu fascínio pela aristocracia: adorava ser recebido pelo Kaiser na Alemanha, pelo príncipe de Gales, quando foi à Inglaterra em 1907 receber seu diploma Universidade de Oxford. No final da vida, ele gostava que seus sócios o chamassem de “O Rei”. Acreditava mesmo que, se dispusessem de livre escolha, os povos tenderiam a uma forma de monarquia absolutista com toda a sua ostentação e pompa. Sem embargos, escreveu artigos contra o que chamavas doença “a doença de Walter Scott”: foi por ter escrito aqueles romances sobre galanteria e cavalheirismo heroico que Scott infeccionou a consciência do Sul, levando-o à Guerra de Secessão. Como também deprecou os linchamentos e inúmeras outras formas perversas que persistiram durante algum tempo no Sul.

Seria correto ver nele, com todas as suas contradições, o mesmo espírito idealista que presidiu à redação da Constituição dos Estados Unidos, com sua insistência nos direitos inalienáveis do indivíduo e na pursuit of happiness (“busca da felicidade”)?

Assim, ele representa e mesmo espírito exceto quando estava em seus momentos amargos. Mark Twain não deixou de discernir os limites intrínsecos da República Democrática. The Corious Republic of Gondour é uma obra em que ele propunha, sim, que todos tivessem direito ao voto, mas as pessoas de maiores meios ou de melhor nível de educação deveriam ter um número extra de votos. Ao mesmo tempo ele ridicularizava o sistema dos tribunais americanos com o júri, ironizava ao dizer que o presidente Theodore Roosevelt nada mais era do que Tom Sawyer adulto... Fazia pouco dos Rockefellers, de Carnegie e outros milionários e robber barons (ladrões de casaca), achava que a tônica devia ser sempre colocada sobre os indivíduos e não nas abstrações que se possam fazer a respeito de governos ou outros assuntos. Mark Twain se contradiz frequentemente, sempre mesmo, e foge de qualquer rótulo.

É inegável que quando se pensa em Walt Whitman e em Mark Twain se pensa nos fundadores de uma filosofia de vida norte-americana oposta à filosofia e à literatura, por exemplo, da Nova Inglaterra, que era em muitos casos pedante, copiava servilmente a Europa e considerava qualquer coisa que proviesse da Europa como superior, quase divino e obviamente superior a qualquer coisa dos Estados Unidos?

Sem dúvida.

Ou eles estavam falando também com a voz do homem comum da população americana em geral?

Sim, é a filosofia do homem comum, mas Whitman fracassou ao pensar que o homem comum pensava em versos brancos ou lia poesia, em 1857. Suas poesias eram inacessíveis aos fazendeiros, aos mecânicos, aos trabalhadores aos quais Whitman se dirigia. Não compreendiam o seu misticismo transcendentalista e consideravam a poesia, de qualquer maneira, uma forma de arte high brown (hermética, de nível altíssimo).

Além disso, na metade do século passado, havia pouquíssimas livrarias nos EUA e essas pessoas dificilmente chegavam a pôr a mão num livro em suas comunidades da América rural?

Ah, sem dúvida! Além disso, Whitman foi objeto de perseguições sérias, seus livros foram banidos das prateleiras das livrarias e das bibliotecas públicas das metrópoles.

Por causa de sus “Democratic Vistas” (em que ale se colocava ao lado do México e contra os Estados Unidos na questão da conquista de território mexicano)?

Não: por causa das insinuações sexuais contidas nos poemas de Whitman. Além disso, Whitman representasse os ideais democráticos d América, Mark Twain atingia camadas de público muito maiores, como excelente conferencista, ao passo que Whitman era tímido e péssimo conferencista. A maioria dos americanos vê com suspeita a poesia, não lê poesia e, com o que nos a apresentam como poesia moderna, não os culpo nem um pouco! (risos)

Mark Twain até a fim de sua vida surge como uma figura trágica, que dizia de si mesmo “os grandes autores são como o vinho, eu sou a água”?

Sim, mas acrescentava imediatamente: normalmente, as pessoas bebem é água!

Ele ajudou, como comentávamos, a desfazer os mitos de que tudo que a tradição europeia produziu é perfeito, sacrossanto?

Mark Twain sempre achou, com humor e irreverência, que a opinião que uma pessoa tem até a respeito das obras de um grande mestre com Miguel Ângelo é superior à tradição rígida que quer nos fazer crer em suas imposições. Ele foi um iconoclasta com veia cômica e foi o primeiro ugly american ("americano feio", referência a um livro de Graham Greene). Como a afirmação de que a música de Wagner é muito melhor do que soa. Mark Twain é a quintessência da América, ele é indispensável para se compreender essa Nação. Devido à confiança que tem nos instintos humanos, devido ao espírito democrático de acreditar que o indivíduo tem direito livremente a escolhas, devido à sua virtude do otimismo, devido a sua confiança em si mesmo, à sua própria inocência desarmada diante do mundo. Mark Twain é a corporificação do próprio Horatio Alger (o autor de imenso sucesso que exaltava as virtudes de cada um tentar se melhorar a si mesmo e atingir sucesso econômico), ele representa a mobilidade social, e tem também a sua parte filistina, o materialismo, a ostentação, o interesse pelo conforto a orgulho de ter uma esposa de origem aristocrática ao lado do orgulho de ter ganho muito com a venda de seus livros, até nas suas contradições ele é tipicamente americano: paradoxal como o próprio país que ele tão bem simboliza.

Reuso

Citação

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Por favor, cite este trabalho como:
Gilson Ribeiro, Leo. 2024. “Mark Twain, segundo o professor Hamlin Hill .” In A Literatura Norte-Americana, edited by Fernando Rey Puente, vol. 13. Textos Reunidos de Leo Gilson Ribeiro. Jornal da Tarde. https://doi.org/10.5281/zenodo.8368806.