O último livro de Truman Capote

Autor

Leo Gilson Ribeiro

Resumo
Diário de Notícias, 1959/10/25.

A par de uma literatura monumental, integrada por autores como Faulkner Melville, entre outros, que deram à América uma dimensão artística universal, os Estados Unidos dispõem atualmente de uma literatura menor, sumamente interessante. Entre os cultores desse gênero miniaturesco, em que se espelham aspectos mais especificamente americanos dessa cultura, destaca-se Truman Capote. Durante vários anos celebrado como o enfant terrible, o adolescente de extraordinário talento, que deslumbrou os leitores da sua novela de estreia: Other Voices, Other Rooms, em seu último livro, publicado em 1958, Truman Capote denota ter superado sua atitude de desafio à sociedade e de dandy intelectual, que o tornavam quase um Oscar Wilde moderno. Em Breakfast at Tiffany's, ele descobriu maneiras mais sutis de “chocar os burgueses” e adquiriu um domínio do estilo que se pode classificar com justiça, de virtuosístico.

Provindo do Sul dos Estados Unidos, Capote retoma a tradição de Mark Twain e junta a sua voz ao contraponto formado por William Faulkner, o tom grave e trágico do Sul, e Tennessee Williams, a sua expressão dramática. No seu primeiro livro, toda a poesia do Mississipi, a ternura da raça negra, a Indolência da paisagem a decadência da sociedade feudal contrastavam com o tema escabroso, tratado com grande agudeza psicológica e um raro dom de lirismo.

Depois de 1951, porém, o jovem autor partiu para a Europa, após breve temporada em Nova York. Suas viagens pelo continente europeu o conduziram inclusive à União Soviética. É, porém, o seu contato com a civilização mediterrânea principalmente com a Itália que traz à sua narrativa um novo conteúdo intelectual, um maior equilíbrio emocional, um enriquecimento da sua temática e uma grande segurança de estilo.

Breakfast at Tiffany's, estilisticamente admirável, portanto, contém diálogos ágeis, de um humour contagiante e, sobretudo, esse livro expressa plenamente a mensagem profunda latente na produção anterior do novelista, A história de Holly Golightly, de uma comicidade irresistível, constitui ao mesmo tempo uma tragédia sintomática da nossa época, desenrolada no bairro boêmio e artístico de Greenwich Village, na babilónica Nova York. Ao entrevê-la pela primeira vez, o escritor, ainda no início da sua carreira, “pensou que se tratasse de um modelo de fotógrafos ou de uma jovem atriz”. Depois a về “num nightclub elegante, cercada de admiradores, penteando indolentemente o cabelo. Uma noite, Holly dança, circundada por chauffeurs de táxi, em plena rua, com soldados australianos de passagem para a Europa, durante a guerra”. É saborosa a descrição da moça completamente livre, que tocava guitarra, secando os cabelos ao sol, e que morava com um gato feio e sem nome num apartamento onde reina sempre a mais caótica desordem:

“Ela vivia num quarto atravancado por caixotes, espalhados por toda a parte, sem cadeiras, com malas por abrir, jogadas pelos cantos. Aquele recinto era como que uma passagem efémera por aquela casa de tijolos escuros. Holly explicava que enquanto não encontrasse uma casa sua, não se importava com a confusão...”.

Uma análise rápida do conteúdo da sua cesta de papéis revela que ela lia de preferência prospectos de viagem e horóscopos, fumava um cigarro esotérico, sobrevivia numa base dietética de queijo cottage e torradas melba e que o seu cabelo multicor não era produto exclusivo da mãe natureza. As dezenas de cartas que recebia de soldados no front eram cortadas em tiras verticais, que lhe serviam de marcador de livros, com fragmentos de frases recortadas, como: "lembre-se", "tenho saudades de você ", "chuva... por favor escreva...", às vezes também: "Va para o inferno" e "solidão ", "amor".

Em meio ao caos em que vive, Holly sente-se deprimida frequentemente pelas “crises vermelhas” (the mean red) e o seu ideal, a sua solução para esse estado de angústia constituem tema central do livro e lhe dão e título:

- “Já tentei aspirina, já fumei até marijuana, mas só me fazia rir. O que me faz bem mesma é tomar um táxi e ir a Tiffany's (uma joalheria elegante de Nova York). O silêncio e a aparência orgulhosa daquele lugar me acalmam logo, nada de muito mal pode lhe acontecer ali, com aqueles homens usando ternos bonitos e aquele cheiro maravilhoso de carteira de crocodilo prata... Se algum dia, na vida real, eu encontrasse um lugar que me fizesse sentir como me sinto em Tiffany's, eu ficaria ali para sempre e armaria ali o meu lar...”.

Este desejo profundo de estabelecer-se num local que corresponda às suas exigências espirituais é sintomático da geração atual e expressa, sem dúvida, uma ansiedade sentida pelo próprio autor. O fato de uma joalheria refinada, que dispõe de um próprio e luxuoso restaurante - ela deseja justamente fazer o seu breakfast em Tiffany's - é de profunda significação. Holly busca um mundo de requinte estético porque, como já provaram cabalmente Proust e Henry James, para o artista o lado estético contém em si a manifestação de uma exigência espiritual, concretizada na busca de uma aparência de Beleza. Platão já identificara o Belo à Verdade, Keats confirmara que

“... A Verdade é a Beleza e Beleza, Verdade...” e Emily Dickinson ecoara a mesma convicção:

“... Morri pela Beleza...

E eu pela Verdade... ambas são uma só coisa...”.

Tiffany's, além de simbolizar também a segurança material, representa a sua possibilidade de fuga à vida miserável que levara antes de escapar do Texas para Nova York. E num mundo sem choques, numa estrutura estável, que ela, figura romântica, na acepção melhor desse termo, ignora a realidade e busca as suas dimensões verdadeiras.

Há um personagem ainda neste livro um jovem diplomata brasileiro, que torna essa novela curta ainda mais interessante para o leitor brasileiro, por determinar uma série de diálogos divertidíssimos sobre “... essa coisa inútil para um homem, querer ser presidente do Brasil... um país de jungles, de chuva, onde todos usam capacetes contra o sol...”

Depois de peripécias tragicômicas, que determinam a intervenção da polícia e nova fuga de Holly, primeiro para o Brasil e depois para a Argentina essa novela termina de maneira reticente, o autor dispensa a sua personagem pelos vários quadrantes da terra, em eterna demanda de um absoluto que ela provavelmente não encontrará nunca.

A franqueza ousada dos temas abordados - tráfico de entorpecentes, homossexualismo, solidão - mesclam-se a uma concepção do mundo tipicamente anglo-saxônica, que permite a recriação, pela imaginação e pelo humour, de um mundo tão maravilhosamente ilógico como o de Alice no País das Maravilhas. Por outro lado, a crítica sincera dos mores da sociedade constitui a expressão de uma sensibilidade contemporânea, extremamente sincera e liberta de tabus e conceitos vitorianos e moralizantes, integrando-se no ciclo ocidental de novelas que focalizam a angústia inerente à condição humana, esse livro cria uma variação americana da temática de Malraux, de Sartre e de Camus.

O emparedamento do homem moderno, isolado em metrópoles gigantescas, solitário em meio às “multidões solitárias”, como as chamou um crítico americano, é uma das manifestações dessa angústia asfixiante e aparentemente insolúvel.

Essa nova fase literária na carreira artística de Truman Capote autoriza-nos a esperar grandes realizações futuras desse jovem escritor, tão animadora é a promessa da sua última obra.

Reuso

Citação

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Por favor, cite este trabalho como:
Gilson Ribeiro, Leo. 2024. “O último livro de Truman Capote .” In A Literatura Norte-Americana, edited by Fernando Rey Puente, vol. 13. Textos Reunidos de Leo Gilson Ribeiro. Diário de Notícias. https://doi.org/10.5281/zenodo.8368806.