Fitzgerald e o Mito Americano
Com Fitzgerald sucedeu algo semelhante ao que ocorrera a Mozart, cuja reputação artística restringiu-se, durante longo tempo, a uma imagem falsa, estereotipada, que o apresentava como um compositor “beilhante”, o expoente máximo do rococó elegante, of superficialidade mais desprovidas de qualquer transcendência. Só uma crítica mais sensível revelou, sob essa máscara, um Mozart profundamente trágico, nos acordes lancinantes da cena final do Don Giovanni e na melancolia indestrutível dos andantes de suas últimas sinfonias e concertos. Fitzgerald fora relegado a um plano secundário da literatura de seu país: um crítico da eminência de Howard Mumford Jones nem o menciona na antologia americana de quase duas mil páginas que organizara em 1947, Histórias da Literatura Americana omitem seu nome ou lhe dedicam dez ou vinte linhas apressadas de notas biográficas. Cria-se que todo Fitzgerald estivesse contido em seu primeiro livro, This Side of Paradise, em que ele traçara para seus contemporâneos e para os pósteros um retrato vivíssimo dos golden twenties, dos frenéticos 1920, do jazz, da proibição do alcoolismo, da gigantesca corrupção política da era de Harding e dos golpes financeiros que terminariam no crack da Bolsa de 1929. Sua passagem meteórica pelo cenário literário americano restringiu-se, portanto, ao mérito de ter cumprido sua missão efêmera de cronista da época de Rodolfo Valentino, das festas suntuosas, das excursões fabulosas pela Europa: um período de história e de caos generalizados. Atualmente, porém, um crítico de percepção aguda como Alfred Kazin restituiu à sua obra sua transcendência, descobrindo suas intenções ocultas por detrás de sua extraordinária magia de estilo, de seu domínio absoluto do vocabulário e do seu poder excepcional de evocação poética de personagens e de situações psicológicas. Emergia, assim, o mundo subterrâneo em que vivera Fitzgerald: infinitamente mais trágico, mais torturado e mais denso artisticamente até do que suspeitara a maioria de seus leitores.
Numa «Nota sobre Fitzgerald», que esconde sob esse título despretensioso uma das análises mais sucintas e lúcidas da personalidade de F. Scott Fitzgerald, John Dos Passos define os fatores que determinaram o colapso de toda a geração dos “sad young men” do após-guerra, de que ele é um dos mais típicos representantes.
Referindo-se aos dois “códigos morais”, um fictício, elevado e nobre e outro extremamente flexível e real, John Dos Passos afirma que durante dois séculos eles confundiram profundamente a espírito dos escritores americanos e reconhece que, após a ação liberadora de Dreiser - o iniciador da corrente realista com a sua Tragédia Americana -, o dilema se tornara diferente, mas continuara tão agudo quanto antes. Esse caráter duplo da sociedade americana - como de toda a Civilização Ocidental, aliás determinou a revolta da chamada “lost generation”, que se insurgia contra a hipocrisia e o materialismo das classes dirigentes, que tinham sacrificado a falsos ideais milhares de jovens imolados numa “guerra sórdida”, como a chamou Hemingway. Criou-se portanto a que Michel Mohrt denomina, com justiça, de uma literatura americana no exílio: Henry James “emigra” para a Inglaterra, Hemingway busca na Espanha uma vitalidade, uma honestidade de princípios e uma dignidade humana que julgara perdidas do outro lado do Atlântico. Outros artistas americanos refugiavam-se na Rive Gauche de Paris, à sombra do matriarcado artístico despótico de Gertrude Stein.
Esse mesmo choque entre o puritanismo ancestral da América dos “Pilgrim Fathers” a realidade americana, simbolizada pelo conforto, pelo bem-estar material e pela ignorância e materialismo grosseiro dos Babitts, desencadeia todas as formas de destruição do “mito americano” a que se entrega a literatura de protesto americana. Por meio dela os escritores expressam sua profunda decepção pela ausência, na vida real, dos elevados preceitos de moralidade que lhe foram inculcados na mente desde jovens. Essa denúncia da hipocrisia de toda uma civilização e de seus tabus: o sexo, a miscigenação, o preconceito racial e religioso, etc., fazem desmoronar a crença ardente e ingênua na superioridade intrínseca da “American Way of Living”, da maneira de viver americana, sobre as demais. Repetimos que essa avalanche de acusações e de rebelião caracteriza toda a literatura moderna do Ocidente a partir do Romantismo, manancial inegável de todas as revoltas contra uma realidade que pouco tem da visão idealizada que dela se possa ter.
John Dos Passos recordando a trajetória artística de Fitzgerald, faz menção ainda do comercialismo, que não poupa nem as atividades artísticas: para o jovem autor que ensaiava timidamente seus primeiros passos no campo da criação literária declara Dos Passos há “duas estradas” abertas. De um lado, a tentação balofa e grosseira do “big money”, da riqueza fácil e aviltante, derivada da prostituição intelectual: as novelas de mal velada pornografia que se vendem, como “best-sellers”, em tiragens de milhões de exemplares; de outro, a “torre de marfim”, o isolamento, a luta romântica por um ideal de pureza e de integridade moral e artística dos que se dedicam à criação solitária da verdadeira Literatura, sem compensações materiais e de incertíssimo futuro, à mercê da estupidez de editores cegados pela ganância e dos críticos insensíveis ou vendidos a pequenos grupos de “literatos” medíocres. E, com extraordinária acuidade, John Dos Passos sentencia: “Muito da própria vida de Fitzgerald transformou-se num inferno devido a este tipo de esquizofrenia, que redunda sempre numa paralisia da vontade de todas as funções da mente e do corpo”. É extraordinário que Fitzgerald, com outras palavras, tenha confirmado esse diagnóstico da enfermidade que minou a sua existência, fulminando-o nos quarenta e quatro anos de idade. Em The Crack Up, que é, sem dúvida, uma das confissões mais comoventes da época moderna, a par da carta escrita por Kafka a seu pai tirânico e insensível, o autor de Tender is the Night, The Great Gatsby nos dá uma visão pessoal de seu dilema insolúvel: a prova de fogo de uma inteligência superior declara Fitzgerald consiste na sua faculdade de conceber simultaneamente duas ideias opostas, e não perder sua capacidade de raciocínio: «devemos, por exemplo, poder compreender que tudo é inútil na vida e ao mesmo tempo lutarmos para mudar esse estado de coisas... equilibrar, de um lado, a sensação de inutilidade de nossos esforços e de outro a necessidade que sentimos de lutar, de combater, para que se opere uma transformação... a certeza da inevitabilidade de nosso fracasso e a nossa determinação inabalável de “vencer”.
Cremos que toda a vida caótica de F. Scott Fitzgerald possa ser compreendida sob esse ponto de vista, analisando à luz do signo fatídico do dualismo que se alastrou por todos os setores de sua vida interior e impregnou seu diálogo nervoso, torturado, frustrado, com o mundo externo. Não só a aspiração ideal, legítima, de criar um gigantesco mural literário da América entrava em choque com as suas tentativas hesitantes de vender seu talento aos magnatas de Hollywood, nos tycoons da Indústria cinematográfica e sua corte de adoradores do dólar, do prestígio, da glória efêmera da imagem na tela. Outra bifurcação de propósitos impedia-lhe encontrar uma linha una e reta a seguir, escolhendo entre e abandono do luxo e do refinamento e uma carreira anônima, obscura, de “futuro grande autor americano”. No entanto, o colapso a que ele se refere em suas anotações sumamente patéticas, que podemos considerar como seu testemunho espiritual, são de natureza mais radical. Como sucedeu a Henry James, com o qual Scott Fitzgerald tem numerosas afinidades, produziu-se um impasse entre a sus condenação moral de um mundo degenerado, desprovido de qualquer valor espiritual e o fascínio que esse mesmo mundo exercia magicamente sobre a sua sensibilidade de esteta refinado. Este desmoronamento de todos seus valores deriva-se em parte de sua identificação “com aqueles que constituíam o objeto de meu horror, de minha compaixão (Pasting It Together):”todas as histórias que me ocorriam tinham um quê de fatídico: as adoráveis criaturas jovens que povoavam minhas novelas arruinavam-se logo, as montanhas de diamantes de meus contos desfaziam-se em explosões fatais, minhas milionárias eram tão belas e tão malditas quanto as camponesas das novelas de Thomas Hardy”. Julgando-se irrealizado como escritor, frustrado em sua capacidade de manter-se no mesmo nível de sucesso retumbante, mas passageiro de sua primeira novela, acossado por credores, por desilusões amorosas, pelo desenlace trágico de seu casamento (sua mulher tivera de ser internada numa clínica elegante para dementes), Fitzgerald, pouco antes de morrer, procede a um balanço inclemente de sua vida, concluindo que seu deficit espiritual não lhe permitiria sobreviver como ser inteligente e ativo. “Depois de uma hora de debate com meu travesseiro, compreendi que durante dois anos, (os dois últimos, esclarecemos), minha vida se limitara a utilizar recursos de que eu não dispunha, que eu”hipotecara” a mim mesmo física e espiritualmente de maneira extrema... ao passo que outrora eu sentira o orgulho de ter uma direção a seguir e tivera confiança em minha robusta independência...”. A descrição dessa debacle é penetrada da mais profunda angústia e da mais patética miséria humana: “Reconheci que durante aqueles dois anos, a fim de conservar alguma coisa um silêncio interior, talvez, ou talvez não eu me despojara de todas as coisas que eu amara e que todos os meus atos, desde escovar os dentes pela manhã até jantar de noite com um amigo exigiam-me agora esforços constantes... Pela primeira vez compreendi claramente que até meu amor por aqueles que me eram mais íntimos se tornara meramente uma tentativa de amá-los... que minhas relações fortuitas com um editor, com um vendedor de tabaco, com o filho de um amigo nada mais eram do que reminiscências daquilo que eu sabia que deveria fazer. Durante aquele mesmo mês, irritei-me amargamente com coisas como o barulho de rádios, anúncios nas revistas... o silêncio sepulcral do campo... passei a detestar a ternura humana e a insurgir-me contra a rigidez e a impiedade humanas odiando a noite porque não conseguia dormir e detestando o dia porque ele me conduzia à noite, Eu dormia do lado em que está meu coração porque sabia que quanto mais cedo ele se cansasse, ainda que fosse pouco, dia a dia, mais cedo viria aquela hora bendita do pesadelo, que, como uma liberação me permitiria enfrentar melhor um novo dia”.
Como seu próprio personagem Gatsby, o mais entranhadamente americano de todos os protagonistas de tragédias modernas, Fitzgerald sucumbia, assim, vítima de uma miragem interior intransponível no plano real. Ele soçobrou, com toda a sua geração, arrastando consigo o mito magnífico de uma América criada pelos autores da Constituição, de uma América idealizada por Jefferson e por Franklin, uma nova Canaã, em que a justiça e o direito à felicidade passavam a ser prerrogativas essenciais do ser humano. Com Fitzgerald ruiu todo o sonho ideal de uma América utópica, elevada a uma nova dignidade humana por Lincoln, transformada no Paraíso dos “pobres e dos abandonados de outras terras” que a estátua da Liberdade acolhia de braços abertos no porto de Nova York. A obra de F. Scott Fitzgerald, um dos autores mais tipicamente americanos de todos os tempos, funde-se assim com o destino de seu próprio país, dilacerado entre uma visão romântica do mundo e uma realidade materialista e hipócrita. À medida que seus livros se difundem, trinta anos depois de sua morte, sua importância fundamental para a afirmação mundial da literatura yankee cresce constantemente. Hoje em dia já não será possível deixar de reconhecer, em obras como The Last Tycoon e Tender is the Night, o selo de uma genialidade prematuramente truncada, de uma evolução artística e espiritual paralisada pela morte mas que, em sua fragmentariedade, simboliza toda a grandeza de uma consciência, de suas lutas interiores, simbólicas do apogeu e do Novo Mundo, de sua glória e de sua angústia.
Reuso
Citação
@incollection{gilson_ribeiro2023,
author = {Gilson Ribeiro, Leo},
editor = {Rey Puente, Fernando},
title = {Fitzgerald e o Mito Americano},
booktitle = {A Literatura Norte-Americana},
series = {Textos Reunidos de Leo Gilson Ribeiro},
volume = {13},
date = {2024},
url = {https://www.leogilsonribeiro.com.br/volume-13/09-scott-fitzgerald/00-fitzgerald-e-o-mito-americano.html},
doi = {10.5281/zenodo.8368806},
langid = {pt-BR},
abstract = {Diário de Notícias, 1960/04/24.}
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