A morte de Henry Miller. A importância de sua obra.

Autor

Leo Gilson Ribeiro

Resumo
Jornal da Tarde, 1980/06/08.

Como James Baldwin, Henry Miller inaugurou uma forma literária nova nos Estados Unidos. Enquanto Baldwin devassava o problema triplo de ser um escritor, um homem de cor e um homossexual na década de 60, Henry Miller se tornava um nome impronunciável nos lares bem-educados da burguesia norte-americana a partir dos anos 40. Seus livros eram lidos furtivamente e não se considerava de bom tom mencioná-los no decurso de uma conversação polida. Iconoclasta, Henry Miller se insurgia simultaneamente contra todos os ídolos sacrossantos do seu país, revelando a importância do sexo para uma sociedade que considerava o assunto. imencionável e ainda não refeita dos resultados massacrantes e surpreendentes do Relatório Kingsley, que punha a nu os tabus e a hipocrisia no terreno da libido. Mas não só o sexo - descrito de forma clínica, minuciosa, sem desdenhar os mais prosaicos pormenores – era uma das "bandeiras de libertação" como o próprio Miller intitulava sua consciente pregação contra os cânones morais vigentes. Era a própria sociedade de duas medidas, uma oculta, como que varrida sob o tapete, e outra "decente" e "bem comportada", "comme il faut". Seus livros denunciavam a massificação, a entrega da personalidade de cada indivíduo aos órgãos controladores da vida particular: o Estado, as Forças Armadas, o Fisco, o FBI, transformando cada pessoa em um amontoado de dados miniaturizados em um cartão perfurável da IBM.

Como individualista ferrenho, esse descendente de humildes imigrantes alemães, que transformaram o Mueller original em Miller atacava em outra frente de batalha, mesclando-se com mulheres orientais, mulatas, negras e estabelecendo comparações na maioria das vezes nada elogiosas para as mulheres brancas, que ele considerava "sem imaginação na cama e fúteis fora dela", estereotipando o orgasmo como um sentimento de culpa herdado dos puritanos fundadores da Nação, os Pilgrim Fathers protestantes.

Atacado de todos os lados - só mais tarde a crítica profunda reconheceria o mérito realmente literário de seus livros melhores e menos sensacionalistas como Black Spring, de 1936 - Henry Miller isolou-se dos EUA como tantos escritores norte-americanos que buscaram refúgio em Paris. A sombra desse exilio autoimposto numa Paris eroticamente livre, ele escreveria um de seus livros melhores, Tropic of Cancer, que ataca o machismo predominante na sociedade norte-americana do seu tempo e usa abundantemente palavras consideradas obscenas ou de "baixo calão" para descer a minúcias da cópula e mostrar a diferença entre os costumes franceses e a pudicícia yankee. Tropic of Cancer, como quase todos os romances de Henry Miller, é na realidade uma amálgama de anedotas e um livro mal veladamente autobiográfico, descrevendo sua pobreza como artista em Montparnasse e seus numerosos encontros amorosos, numa mistura alegre e debochada de humor norte-americano e de licenciosidade de uma literatura que produziria. Rabelais e Laclos, além de Jacques le Fataliste de Diderot, sem contar os extremos do Marquês de Sade. O autor auto expatriado começou a ser compreendido por grupos feministas, por ironia da sua trajetória literária, quando denunciou o "uso" que o homem faz da mulher como mero "objeto sexual" e se defendia das acusações de "baixo nível" afirmando que quando "se faz amor sem amor, só pelo sexo, que outras palavras senão as mais grosseiras podem refletir essa ausência de considerações e afeto para com a mulher?"

Inicialmente, a sua foi a vida de um pária, de um proscrito: as Universidades o ignoravam, o vetusto New York Times não o considerava digno de resenhas em seu suplemento literário e todo o Establishment tentava fingir que ele não existia. Seu livro divertido e com trechos surpreendentemente profundos, The Air-Conditioned Nightmare (de 1940), mostrava uma América nada convencional, cheia de preconceitos contra os católicos, os negros, os judeus, onde todos se empanturravam de empáfia numa sociedade nada igualitária, aquele "pesadelo" aliviado pelo ar refrigerado que ele definia como sendo a América desumana, cínica, do big business, da frigidez e da impotência sexuais, tudo canalizado para o "sucesso" do dinheiro e da riqueza.

Anárquico no fundo, o escritor, que deixou uma imagem superficial de mero libertino para os que não conhecem seus ótimos ensaios e sua correspondência com Lawrence Durrell, na realidade, se apoiava no pacifista Thoreau, um dos clássicos da desobediência civil norte-americana e mundial, insurgindo-se contra a manipulação da liberdade individual por uma sociedade sutilmente escravocrata, que substituíra o chicote e o pelourinho pelo computador, o serviço militar obrigatório, o poder do dinheiro e do suborno. Quando a poeira assentar sobre sua reputação escandalosa, será mais fácil reconhecer em sua fácil reconhecer em sua obra precursora todos os movimentos de contestação democrática contra o autoritarismo e o conformismo, sobrevindos depois com Jack Kerouac e os beatnicks, os hippies e a Nova Esquerda, com Bob Dylan e Joan Baez e o advento de revistas como Playboy, à qual ele uma vez confessou ser, sobretudo, a favor da liberdade plural de cada indivíduo de viver como quiser, sem intervenção do Estado nem de leis cerceadoras da liberdade individual.

Reuso

Citação

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Por favor, cite este trabalho como:
Gilson Ribeiro, Leo. 2024. “A morte de Henry Miller. A importância de sua obra. .” In A Literatura Norte-Americana, edited by Fernando Rey Puente, vol. 13. Textos Reunidos de Leo Gilson Ribeiro. Jornal da Tarde. https://doi.org/10.5281/zenodo.8368806.