Emily Dickinson
Em ser conto magistral, “A Rose For Emily”, William Faulkner deu expressão literária a uma série de suposições que circundam a vida enigmática e voluntariamente opaca da maior poetisa americana, se não de toda a literatura escrita em inglês. Durante os últimos vinte cinco anos de sua vida, Emily Dickinson viveu isolada em sua mansão senhorial de Anherst, na Nova Inglaterra ancestral, vetusta e sóbria, como Proust, que, para a elaboração de sua monumental A La Recherche du Temps Perdu, se fizera prisioneiro de um quarto durante quinze anos. Faulkner adota a teoria avançada por alguns críticos, segundo a qual a “reclusão” de Emily Dickinson foi consequência de uma profunda desilusão amorosa. Outros Intérpretes da sua obra densa e extraordinária, porém, taxam essa tese de “romântica e inverídica”, reivindicando para “Emily” uma pureza interior tal que o seu retraimento significou meramente a fase da sua evolução espiritual, que exigia esse distanciamento do mundo. Muito do cosmos interior fascinante dessa rica sensibilidade, contudo, derivou-se de seu contato pessoal fugidio com os elementos da natureza que povoaram a sua singela vida diária.
A leitura de suas cartas elucida vários pontos de sua biografia espiritual, principalmente as que ela dirigiu a seu mentor intelectual, o crítico literário Higginson, a quem ela submetera vários de seus poemas para serem julgados. A sua correspondência revela-nos que se, por um lado, ela abandonara a glória vã e a pompa do mundo, ela obtivera, por outro a completa transmutação da realidade exterior em realidade poética e transcendente. Ela diz, ao referir-se a Ben Nicholson, morto muito jovem e que primeiro a encorajara no caminho da poesia no qual muitos querem ver o amado abstrato de que ela fala em alguns de seus poemas mais ardentes:
“Quando eu era ainda menina, tive um amigo que me ensinou a Imortalidade, mas ousando aproximar-se demais dela, ele nunca mais voltou. Depois da morte de meu tutor e durante vários anos, o dicionário foi a minha única companhia...” E ainda: “O senhor me indaga quem são meus companheiros: As montanhas e o pôr do sol e um cachorro quase do meu tamanho...” E como demonstram seus versos: as flores, o renovar-se das estações, e voo das abelhas e das borboletas:
“As borboletas de San Domingo,
Esvoaçando em torno à linha púrpura do horizonte,
Tem um sistema de estética
Bastante superior ao meu.”
Para ela
“Contemplar o céu no verão
É já poesia,
Embora os livros não o digam.
Os verdadeiros poemas fogem.”
Seu contato com a sua época e com a realidade ambiente é breve:
“Esta é a minha carta para o mundo,
Que nunca me escreveu –
As minhas são notícias simples da Natureza,
Contadas com tenra majestade.
Sua mensagem é confiada
Às mãos que não posso ver:
Por amor delas, gentis concidadãos,
Julgai-me com benevolência!”
Dois de seus poemas, entre outros, deram origem à suposta veemência de seu passado erótico:
“Micha vida já se encerrou duas vezes antes de seu término,
Mas resta saber ainda
Se a Imortalidade irá desvendar-me
Um terceiro acontecimento
Tão imenso, tão impossível de conceber
Como os dois que o precederam,
A despedida é tudo que conhecemos do céu
E tudo que precisamos conhecer do inferno.”
“Noites selvagens – noites selvagens!
Se eu estivesse contigo,
Elas seriam o nosso luxo!
Inúteis os ventos,
Para um coração atracado ne porto,
Inúteis a bússola
E Mapa-Mundi!
Navegar no Éden,
Ah - o mar!
Se eu pudesse ancorar - esta noite
Em ti!”
Como Emily Bronte e a poetisa alemã Annette von Dorste-Hülskoff, ela seria uma mulher ardente, que celebraria na poesia o eco de suas intensas relações amorosas. No entanto, ela própria, esclarecendo sus poesia, afirmava:
“Quando menciono a mim mesma em meus versos, não me refiro a mim pessoalmente, mas a um personagem fictício”. A sua participação da vida feria sido, portanto, indireta, como simples observadora do espetáculo diariamente renovado do milagre da vida:
“Viver é um êxtase para mim, a mera sensação de estar viva já me parece ser alegria suficiente”. À amiga Helen Hunt Jackson, que a acusava de injustiça “para com a sua geração” por não divulgar seus poemas, ela retrucou: “Como se pode fazer imprimir uma parte da própria alma?” E em seus versos sentenciara:
“A publicação é o leilão
Do espírito de um indivíduo”.
As peripécias incríveis que caracterizaram a publicação-póstuma de seus 600 e tantos poemas constituem uma verdadeira novela policial, cheia de “suspense” e - felizmente para a humanidade - coroada de um happy end que veio dar aos Estados Unidos a sua suprema e mais sublime expressão poética feminina. Ao sabor de intrigas, de conflitos materiais e de incidentes ridículos, a obra de Emily Dickinson vogou durante vários anos entre seus parentes, até ser publicada, em 1945, presumivelmente, na integra. É porém provável que, como muitas composições de Bach perdidas para sempre num internato na Suíça (por serem utilizadas para forrar es sapatos dos meninos quando chovia), vários dos seus poemas tenham desaparecido para sempre. Ela os escrevia nas costas de envelopes, ao lado de receitas de bolos, de contas da mercearia, em papel de embrulho e mais tarde os enviava aos amigos, desvencilhando-se deles com indiferença quanto a seu futuro destino. No entanto, ao serem publicados os que puderam ser salvos, a América, no desenterrar essa sua cultura perdida no século passado, sentiu e frisson galvanique baudelairiano, a sensação transfiguradora que acompanha a revelação de uma grandeza espiritual ignota. Ao lado de Walt Whitman, o forjador da pujante “rapsódia bárbara” do Novo Mundo, do esteticismo genial de Poe e Henry James, a Literatura Americana podia agora colocar ao lado de Herman Melville, o autor de Moby Dick, uma segunda personalidade artística de dimensões universais que explorara as regiões metafísicas da alma humana.
Na verdade, parece mais verdadeira a interpretação do testemunho poético de Emily Dickinson que nele vislumbrar uma concepção mística e panteísta da vida. Para ela, que considerava a morte “um diálogo” e cuja vida fora um longe monólogo interior, o êxtase, o estoicismo, a Natureza são meios de comunicação com o universo e seu sentido oculto. Allen Tate, analisando as fulgurações visionárias dessa poetisa, afirmou que ela “só podia ver, o seu mundo era uma única e total visão”. Como Blake e Teixeira de Pascoais, ela “vira o mundo num pequeno grão de areia” e vislumbrara no macrocosmo das “coisas pequenas”: animais, plantas, um raio de luz, a mudança da cor dos objetos determinada pelo ocaso, em tudo ela vira o símbolo, o vestígio de um macrocosmo misterioso e infinito. E como esclarece Mumford Jones: “Alguns de seus poemas parecem mensagens cifradas e fragmentarias (...) exigem uma imaginação alerta para sua compreensão”. Com insistência se repetem em seus versos as palavras Deus, êxtase, eternidade, morte, mar, amado, isto é: os elementos constantes da mística universal. Sem que se possa falar, como ressalta Alain Bosquet, de uma temática definida, mas sim de estabelecer, em seus versos, relações entre o mundo exterior e o mundo das ideias, essa mulher “inculta, desconhecida, criou, um a um, os mosaicos que, ao serem desvendados, revelaram aos pósteros um mural de extraordinário esplendor.
Essa protagonista solitária de «Lutas interiores, de vitórias que as nações não celebram, de quedas que os outros não veem”. Emily Dickinson destaca-se do meio restrito e medíocre do Massachussets de seu tempo, puritano e artisticamente sufocante, para erguer-se a regiões místicas, numa contemplação interior extremamente ativa, como as figuras hieráticas de Ravenna, imersas numa busca sobrenatural de um Deus perdido. Poucas vezes a lírica internacional terá ecoado acentos tão vibrantes de uma solidão sofrida heroicamente e conterá poucos autorretratos de uma alma revelada pela poesia que sejam patéticos em tão sumo grado. Para quem “morrera pela arte pela beleza”, identificando-as, como Platão, como dois aspectos da mesma realidade, “Este mundo não é conclusão: há uma continuação além, invisível, como a música, mas inegável como o som. Ela nos faz sinais e nos desconcerta: as filosofias a ignoram, a sagacidade se perde no labirinto de um enigma, Os sábios confundem-se ao tentar adivinhá-la e, para atingi-la, os homens desprezaram o tempo e conheceram a crurificação”.
Para ela, que afirmara “vivo no Possível, u'a mansão mais bela que a Prosa”, a sua passagem pela terra fora realmente um prenúncio da visão que tivera em vida:
“Nossa jornada avançara:
Nossos pés já quase trocavam
A estranha encruzilhada aberta
Na estrada do Ser,
Por outros chamada de eternidade.
Um tremor repentino agitou nossos passos,
Nossos pés relutantes marchavam.
Diante de nós se erguiam cidades,
Mas entre elas e nós a floresta dos mortos jazia.
E detrás estava bloqueada a passagem
A bandeira branca da Eternidade diante
E Deus em cada portal!”
Seria revelador estabelecer as relações, que nos parecem evidentes, entre a sua poesia e a metaphysical poetry inglesa, aliada ao conceptismo barroco espanhol, que advogavam, como Emily Dickinson, uma versificação dura, rude (harsh) a fim de liberar a ideia da forma e não come queriam os culteranistas - subordinar o conceito ao som. Como os poetas metafísicos ingleses, ela adota um tom corriqueiro, sem artificialismos nem pedantismos. A audácia e a originalidade das suas metáforas, que estabelecem ligações entre objetos e ideias extremamente diversas, são também caras a essa Escola, que associara a uma profunda sensualidade exaltações religiosas altíssimas, que culminaram com John Donne. Se no legado poético de Emily Dickinson não encontramos precisamente uma sensualidade exaltada, mostra-se evidente, contudo, a sua alegria de viver, o cultivo alternado do seu jardim e da poesia. É excepcional o fato de seu estro poético nunca descambar para o sentimentalismo, nem revelar qualquer traço de morbidez ou melancolia. Tendo precedido o simbolismo e o “imagismo” de vários decênios, é compreensível que a sus obra tenha causado tão imensa admiração às gerações mais recentes, sobre as quais perdura a sua influência marcante.
No mundo subterrâneo do seu silêncio e da sus solidão, esse ignota “solteirona” atingiu uma forma de imortalidade bastante diversa daquela pela qual ensaiavam seus versos e sua alma inquieta e com Emily Dickinson despontou uma das mais sublimes vozes da poesia feminina desde Safo até Edith Sitwell, Marianne Moore e Cecília Meireles.
Reuso
Citação
@incollection{gilson_ribeiro2023,
author = {Gilson Ribeiro, Leo},
editor = {Rey Puente, Fernando},
title = {Emily Dickinson},
booktitle = {A Literatura Norte-Americana},
series = {Textos Reunidos de Leo Gilson Ribeiro},
volume = {13},
date = {2024},
url = {https://www.leogilsonribeiro.com.br/volume-13/04-emily-dickinson/00-emily-dickinson.html},
doi = {10.5281/zenodo.8368806},
langid = {pt-BR},
abstract = {Diário de Notícias, 1960/03/13.}
}