Patriotas e traidores, Mark Twain
Fulminante como uma manchete de jornal, um livro do hilariante Mark Twain e suas obras localizadas no sul dos Estados Unidos, como as célebres As Aventuras de Tom Sawyer e As Aventuras de Huckleberry Finn, surge agora, um século depois, mostrando sua faceta mais profunda e de indômita rebelião: Patriotas e Traidores. Pacientemente, o professor Jim Zwick, da universidade de Syracuse. consultou durante dez anos os artigos contra o crescente imperialismo. É um livro atualíssimo e de maciça revolta contra o governo e sua rapinagem hoje mundial.
Essas quase quinhentas páginas impressas agora pela Editora Fundação Perseu Abramo, organizadas pela professora Maria Silvia Betti, não são apenas surpreendentes por vencer a censura pesada nos escritos, como também confirmam a tese de que os grandes livros, chamados justamente de clássicos, não envelhecem nunca e sim sacodem o leitor ao adquirir um retrato mais completo do escritor. Patriotas e Traidores refere-se, é lógico, à época de militância isto é, denuncia a tomada de Estados mexicanos incorporados à força - os norte-americanos chamam esse roubo de centenas de quilómetros de acordo que permitiu a "cessão" da Califórnia, do Texas, Colorado e os Estados saudados como "nosso avanço rumo ao oceano Pacífico". A "anexação" de Porto Rico e gradualmente a chegada até o Havaí, o que irritava muitos, a ponto de impedir durante longos anos que aquele distante arquipélago ingressasse no Congresso, em Washington, alarmando outros com a "invasão" de havaianos de cor no território destinado somente aos brancos.
Já a águia, emblema dos EUA, capturava terras e mercados alheios sob o porrete do presidente Theodore Roosevelt, sua maneira de dialogar com nações pobres. Ao porrete estava enlaçada uma cenoura e, como o lobo contra os argumentos dos carneiros, dar porretadas ao interlocutor quando ele não abrisse mão de seus direitos como nação. Twain "descobriu" que o Tratado de Paris não era uma arma contra os tiranelhos locais, mas sim uma vil e desumana subjugação, em 1898, sob o pretexto de "liberar" Cuba e as Filipinas, que durante trezentos anos estiveram sob o domínio da Espanha.
A inquietação da "Liga Anti-imperialismo" a que o escritor aderira abarcava também outras potências e outras pilhagens obscenas: os dirigentes alemães venceram a Baía de Kiao Chow, na China, e sequioso pelo butim o próprio czar da Rússia ordenou a ocupação da distante Manchúria e a Inglaterra iniciara a guerra na África do Sul contra os bôeres. Não se menciona o "tratado" em Berlim, em 1878, que "dividia" as fatias do bolo, permitindo que as terras do continente africano caíssem na mão das potências europeias mais famintas. Era como juntar um núcleo de reis, presidentes e o absolutismo imperante na Rússia czarista. Mas não só no Velho Mundo ele atuava, calorosamente. Mesmo os direitos civis, o voto feminino, a segregação dos ex-escravos eram tópicos que ele abordava tanto em suas palestras pelo país como em seus contundentes e hilariantes artigos de jornais havia muito desaparecidos.
O comissário de paz, Whitelaw Reid, chegou ao ápice da crença alucinada de que os brancos tinham o direito às terras recém-conquistadas, ao proclamar que era indispensável "resistir à doutrina insana que pressupõe que o governo deriva seus poderes e legitimidade do consentimento dos governados"! Em seu ensaio dedicado àqueles que "viviam na treva" despertou ódios e inimizades, pois Mark Twain jamais deixaria de ironizar a ideia de que a "civilização" seria sempre como uma bênção. É gritante a semelhança entre as justificativas do execrando presidente atual dos EUA, George W. Bush, para "prevenir" contra a disseminação de armas químicas, biológicas ou a construção de um poderio atômico, até hoje nunca descoberto. Da mesma maneira que Bush júnior determinou que as bibliotecárias deveriam fornecer dados sobre qualquer pessoa que pedisse livros "perigosos" e enviassem o nome e endereço do "suspeito" diretamente à CIA. Os que se revoltavam contra a invasão da privacidade arguiam que os EUA foram uma nação que surgira combatendo um imperialismo inglês. Logo, porém, um poderoso armamento caiu nas mãos do presidente Theodore Roosevelt. Em um livro intitulado A Influência do Poder Marítimo sobre a História, afirmava o autor capitão Alfred T. Mahan: às nações com fronteiras marítimas, o fortalecimento substancial da Armada. Aí, as ocupações se tornam corriqueiras na expansão do mais forte contra o mais fraco: surge o canal no Panamá, que queria "libertar-se" da Colômbia e seria uma prerrogativa a mais deixá-lo sob o controle dos Estados Unidos décadas a fio. Incansável, Twain se junta à Liga de Amigos Norte-Americanos em prol da Liberdade Russa. Jocosamente, ao presidir uma arrecadação de dinheiro para apoiar a Revolução Russa, ele suspira: "Alguns de nós podem viver para ver o dia abençoado em que czares e grão-duques serão tão escassos como acredito que sejam no céu. Eufórica, grande parte da população norte-americana traça planos grandiosos para subjugar a África, a América Latina e o Oriente Médio árabe. O "sistema que dá privilégios quase que totais aos vencedores propaga a tese de por que nos limitarmos à conquista? Para alguns mais alvoroçados, não bastaria se apoderar do México: por que não tomar a Espanha inteira também, além das Filipinas? Já em 1823, o lema "A América para os Americanos" foi postulado nos termos da Doutrina Monroe. Com isso, o poder estadunidense impediria que os europeus avançassem. sôfregos, sobre um território que era inteiramente americano. Havia algumas ilhas tomadas pelos ingleses, como a Jamaica, ou Guadalupe, pela França. Os enclaves europeus na América do Sul abarcaram territórios imensos, como as três Guianas: a Francesa, que hoje em dia serve para o lançamento de mísseis; a antiga Guiana Inglesa, hoje Guiana, um país pobre, que sobrevive com a lavagem de dinheiro e ocultamente como paraíso fiscal: e a antiga Guiana Holandesa, hoje Suriname, território "anexado pela Holanda e logo abandonado à sua sorte. Em outros pontos, igualmente a doutrina do Bush atual já estava contida no adendo à Doutrina Monroe pelo presidente Theodore Roosevelt: nada de colónias europeias nas Américas, caso contrário o método do porrete aparecerá com leis ou tratados que impeçam que os EUA jamais aceitem em "seus" territórios qualquer ingerência, adiantando-se a esta pela direta intervenção externa. A grandeza crescente do novo império é saudada com uma onda de júbilo e falsas propostas: para tomar o oeste e levar a civilização às tribos de indígenas massacradas, numa versão aterior an Holocausto instituído por Adolf Hitler ou "civilizar" os negros escravizados.
De onde deriva essa criminosa teoria do "destino manifesto"? Da crença formulada pelo escritor Kipling na Índia: o destino manifesto das ações brancas, que ao conquistarem nações inteiras o fazem a fim de arcar com a carga pesada, ou a cruz comercial, de "civilizar" todos os povos tachados de "primitivos". Michael Parenti, autor norte-americano, observava incontinenti que, com a mudança tecnológica de hoje, é fácil dominar mercados alheios sem deslocar tantas tropas para se defrontar com o povo autóctone rude. Hoje, o capital financeiro de Washington nutre-se da exploração de países do Terceiro Mundo: assim, os lucros fabulosos substituem as armadas e outras forças nacionais. Saíram vencedoras as gigantescas corporações não só dos Estados Unidos, como também as do Japão e da Europa, com a Alemanha à frente.
Ao terminar o século XIX e entrar no XX, Mark Twain, com seu sarcasmo e sua inteligência destemida, escreve:
"A Procissão Estupenda
O Século XX: Uma figura loura, jovem, bêbada e imoral, levada nos braços de Satã. Uma bandeira com o lema: 'Agarre o que puder, guarde o que agarrar'.
Guarda de Honra: Monarcas, presidentes, chefes políticos, ladrões, condenados, todos vestidos a caráter e trazendo os símbolos de sua profissão.
Cristandade: Uma matrona imponente vestida em túnicas encharcadas de sangue. Sobre a cabeça, uma coroa dourada de espinhos: empaladas nos espinhos, as cabeças sangrentas de patriotas - bôeres, boxers, filipinos, numa das mãos uma funda, na outra a Bíblia, aberta no texto, saindo do bolso uma garrafa com o rótulo: 'Trazemos a vós as bênçãos da civilização.
Colar: algemas e um pé de cabra.
Seguidores: de um lado, a Matança; de outro, a Hipocrisia.
Bandeira: com o lema 'Ama os bens de teu próximo como a ti mesmo'.
Insígnia: a bandeira negra.
Guarda de Honra: Missionários e soldados alemães, franceses, russos carregados de saques.
E assim por diante, com uma seção dedicada a cada nação na Terra, encabeçada pela bandeira negra, cada uma trazendo símbolos horríveis, instrumentos de tortura, prisioneiros mutilados, corações partidos, jangadas cobertas de cadáveres sangrentos. E, para fechar, bandeiras com as inscrições:
'Todos os homens brancos nascem livres e iguais',
'Cristo morreu para salvar os homens'.
'Cristo morreu para libertar os homens'.
Reuso
Citação
@incollection{gilson_ribeiro2023,
author = {Gilson Ribeiro, Leo},
editor = {Rey Puente, Fernando},
title = {Patriotas e traidores, Mark Twain},
booktitle = {A Literatura Norte-Americana},
series = {Textos Reunidos de Leo Gilson Ribeiro},
volume = {13},
date = {2024},
url = {https://www.leogilsonribeiro.com.br/volume-13/05-mark-twain/01-patriotas-e-traidores-mark-twain.html},
doi = {10.5281/zenodo.8368806},
langid = {pt-BR},
abstract = {Caros Amigos nº 77, 2003/08.}
}