Nabokov
A frase maliciosa de Nabokov aplica-se integralmente a seu tradutor - empregamos o termo porque não há outro que designe melhor a passagem de um texto para outro idioma - brasileiro: "Não se pode esperar que compreenda um autor quem nem sequer sabe pronunciar seu nome De fato, Vladimir Nabokov é um homem e um artista cercado por dificuldades de todos os lados, irrepetível na história da literatura mundial.
Seu nome, inicialmente, já é complicado: russo transferido para Berlim e depois naturalizado norte-americano, seu nome sofre deformações frequentes, desde a acentuação: Nábokov Nabókov? Nabokóv? Para seu primeiro nome, ele deleita-se em proclamar aos que sabem inglês, portanto capazes de compreender seu narcisismo e a ironia dirigida contra si mesmo que a definição contém: “Vladeemir, as in "redeemer" (Vladimir e redentor rimam em inglês, alusão jocosa à sua posição de redentor espiritual da literatura moderna).
As brincadeiras vaidosas de Nabokov não estão, porém, longe da verdade. Ele não está distante de ser o "redentor da literatura em língua inglesa depois que morrеu seu maior cultor, Faulkner. E esta é apenas uma das singulares peculiaridades do autor de Lolita: é russo o maior escritor em inglês vivo.
Literariamente, o fenômeno Vladimir Nabokov integra a rara galeria de radicais inovadores do estilo do século XX. Partindo do pioneirismo de James Joyce, ele é da mesma linhagem de estilistas difíceis, geniais, de Proust com seus circunlóquios e frases admiravelmente complexas, matizadas, labirínticas. É companheiro de armas de Guimarães Rosa, a desbravar o sertão interior da alma humana através das veredas abertas na Linguagem. É aparentado com Carlo Emilio Gadda, que na Itália subverte fecundamente a literatura italiana, escrevendo obras-primas em dialeto popular milanês ou romano. A comparação com Shakespeare o supremo estilista por excelência não é, portanto, tão descabelada, revela ao contrário o fundador longínquo e excelso desta Árvore Genealógica que reúne países da Europa e da América, como as ramificações de uma Nobreza espiritual entre a Irlanda e Minas Gerais, Milão e Paris. Moscou e os Estados Unidos.
Politicamente. Nabokov é um símbolo dos milhares de "displaced people", os refugiados que atulham as barracas mantidas pela ONU: os palestinos expulsos de Israel, os ibos violentamente integrados na nação nigeriana, os cubanos fugidos da Cuba de Fidel Castro para Miami, na Flórida, os alemães que “votaram com os pés” abandonando a zona comunista da Alemanha antes do esparadrapo do Muro de Berlim tapar o tumor supurado que divide as duas Alemanhas. Mas ele é um refugiado intrinsecamente diferente, como o poeta Rafael Alberti exilado da Espanha de Franco ou as centenas de exilados russos disseminados por Paris e Nova York como porteiros de restaurantes, motoristas de táxi e governantes. Ele é um refugiado aristocrático e sobretudo um refugiado intelectual da Nova Opressão com que Stalin substituiu à Velha Opressão dos Tzares. Por pouco não integra os 6 milhões de mortos dos campos de concentração stalinistas, companheiro de cela de Alexander Soljenitsyn ou os seis milhões de massacrados dos campos de con.centração nazistas.
Além de todos esses valores simbólicos que ele encarna, Nabokov é um dos supremos novelistas eróticos de toda a história da literatura, desde Safo. Equidistante das descrições científicas de relações sexuais de um D. H. Lawrence, que tenta provar através de uma Lady Chatterley e de seu amante o vitalismo do Sexo como fonte de humanidade, energia animal e espiritual ineludível para uma plateia puritanamente pudica do tempo da Rainha Vitória, Nabokov nada tem a ver tampouco com a atmosfera quase clínica em que se desenrola o coito nas novelas sensacionalistas e monótonas de um Henry Miller, sensual banal colhido pela camisa-de-força do hipócrita puritanismo norte-americano. Sem a bestialidade patológica de um Marquês de Sade nem o demonismo erótico de um Baudelaire, como se define então o erotismo nabokovlano? Como, aproximadamente, mas com infinitas doses superiores de requinte, o de um Diderot. É o erotismo de meras alusões, tão abissal quanto os outros, mas genialmente orquestrado com a delicadeza musical e colorida de uma suíte de Debussy.
Girando-se o múltiplo caleidoscópio chamado Nabokov, seus elementos componentes o transformam num colecionador exímio de borboletas e orquídeas, num trocadilhista poliglota, num magnífico ator que assume várias personalidades fictícias ao mesmo tempo, colocando-se no papel de um russo emigrado, de um professor apaixonado, de um adolescente fogoso, de maravilhosas meninas que desabrocham para Eros: Lolita e agora esta magnífica Ada tão metamorfoseada na tradução quase quanto a transfiguração de Jesus Cristo no Monte Tabor a que ele jocosamente alude no início do romance.
Enxadrista famoso, o emigré russo arma para seus leitores charadas tão difíceis quanto os lances de uma grande partida. Seus personagens são a Torre, o Cavalo, o Rei, a Rainha, os enigmas e os trocadilhos são as posições que o autor coloca perante o leitor, esfinges múltiplas que ele deverá decifrar. São referências às vezes sumamente obscuras a passagens da literatura. Ou termos de línguas eslavas já mortas que ele ressuscita, infundindo-lhes cor num texto moderno que as revivifica por momentos. São perguntas filosóficas transcendentes que se referem à natureza da Arte, ao sentido mais profundo da efêmera vida humana, a interpretação da História dos povos e dos indivíduos e à sua morte.
Desenrolando-se entre a América rural e a Rússia bucólica de meados de 1800, Ada é, sob um dos aspectos somente, uma história de amor precoce e semi-incestuoso, entre Van Veen de 14 anos e sua semi-irmã Ada Veen, de 12, num castelo campestre pertencente à sua família. Muito mais tarde, quando envelhecem, Van e Ada evocam seu amor juvenil, comentando-o com correções quanto a épocas, frases, circunstâncias refrescadas pela memória.
Uma comparação com Proust
Um aspecto importante de Nabokov não foi ainda ressaltado. Mais do que qualquer outro autor, ele se aproxima de Marcel Proust, criador de Em Busca do Tempo Perdido. Como Proust, Nabokov tem o fascínio das palavras, da Arte, do Amor, do Tempo conservado vivo somente pela sua evocação através da Memória, essa guardiã da própria consciência individual. Igualmente inquietante, imprevisível e efervescente como seus textos, Nabokov detesta os críticos literários que transformam os personagens em "símbolos" ou "mensagens" sociais, políticas, religiosas ou qualquer outra, sente repugnância pelos rótulos do jargão crítico como "tendências literárias". Seu horror a Freud e ao Comunismo que considera os dois grandes flagelos da humanidade contemporânea, agora que o Nazismo foi (temporariamente?) vencido na II Guerra Mundial também é parte integrante de sua mente e alvo preferido de sua sátira impiedosa. Escreve como epígrafe em alguns de seus livros: "o grupo vienense (os psicólogos), não está convidado", pois detesta as interpretações psicológicas,
Seu sarcasmo é igualmente devastador contra escritores vivos ou mortos: Maupassant e Jean Cocteau têm seus escritos redigidos por uma governante francesa meio idiota, alusão literária chistosa engastada nos meandros literário-filosóficos de Ada. Sobre Henry Miller já decretou, fulminante como um Júpiter do alto do Olimpo literário: "Detesto tudo da vida americana que ele representa". Nem mesmo o respeitável contista argentino Jorge Luis Borges escapa: "A princípio, minha mulher e eu sentimo-nos como se estivéssemos num umbral, mas depois constatamos que não havia uma casa por detrás dele?"
Sobre a memória, a passagem do tempo e a precariedade da vida humana:
"O berço balança sobre um abismo e o bom senso nos diz que nossa existência é apenas um lampejo fulgurante entre duas eternidades de escuridão. A Natureza espera que um homem adulto aceite esses dois vácuos negros, antes e depois, tão estoicamente quanto aceita as extraordinárias visões intermediárias. Rebelo-me contra este estado de coisas. Sinto ímpetos de levar minha rebelião para fora e fazer greve contra a Natureza".
Com sua prosa permeada de poesia, ele define a poesia como "os mistérios do irracional percebidos por meio de palavras racionais. A verdadeira poesia desse tipo provoca não o riso ou lágrimas, mas um sorriso radiante de satisfação, um ronronar deliciado de beatitude - e um escritor pode orgulhar-se de si mesmo se conseguir fazer seus leitores, ou mais precisamente alguns de seus leitores, sorrir e ronronar dessa maneira." Aristocrático na origem, de uma complexidade aristocrática quase proibitiva e indecifrável na literatura, Nabokov não permanecerá somente - pelo menos no original em inglês e nos livros escritos originalmente em russo - como um dos supremos escritores não só deste século e de todos os séculos. Como simbolismo apropriado, a vida proporcionou-lhe outra forma de imortalidade: é a variedade de borboleta que ele descobriu, aparentada com a rara e belíssima espécie das borboletas azuis, a Lycaeldes melissa samuelis Nabokov. Ela permanecerá emblemática da transformação do homem no artista, repetindo a trajetória de beleza efêmera de suas heroínas Ada ou Lolita, eternizadas em seus livros, o Tempo capturado pela Palavra, como na profunda percepção de Marcel Proust em A Busca do Tempo Perdido e, mais tarde, e para sempre, reencontrado.
A má tradução
São o estilo e o espírito de Nabokov, o mais requintado escritor da língua inglesa que se perdem na tradução de Pinheiro de Lemos (Editora Distribuidora Record) para o romance Ada. O leitor que comparar o original com sua caricatural transplantação brasileira, verá que o romance acabou soterrado sob os erros de interpretação, de bom gosto ou de falta de conhecimento em vários campos. Um cálculo otimista de seis incorreções por página leva a um total de 2.500 erros em 50 páginas. Aqui, apresentamos apenas alguns deles.
Logo na página 11. um trecho do original foi omitido:
Anna Arkadievietch Karenina, transfigurada para o inglês por R. G. Stonelower, 1880". Mount Tabor Ltd.
Trata-se de uma brincadeira típica de Nabokov: com sua malícia, ele aplica o verbo transfigurar (mudar a forma ou aparência de alguém ou alguma coisa) раra indicar a desfiguração do original pelo fictício tradutor inglês. E completa citando Monte Tabor (na Palestina, onde se deu a Transfiguração de Jesus) como casa editora.
Os erros de tradução são mais frequentes:
"where not only French, but Macedonian and Bavarian settlers enjoy a halcion climate under our Star and Stripes" em português passou como: "onze colonos não apenas franceses, mas também macedônios e bávaros gozam de completa felicidade sob nossa bandeira das Listras e Estrelas".
Mas, "halcion climate", significa "clima alciôneo, sereno, agradável"; é uma das muitas referências eruditas de Nabokov, pois o termo deriva da mitologia clássica da Grécia, segundo a qual o pássaro Alcione fazia seu ninho no mar durante o inverno e assim pacificava as águas, Há uma ironia evidente na referência a esse clima alciôneo da América do século passado, unido à frase ufanista "under our Stars and Stripes", que poderia corresponder ao nosso "lábaro estrelado". Mas este sentido é perdido na tradução.
Não é apenas na erudição de Nabokov que o tradutor se perde. Mais adiante, ele comete um erro na tradução das palavras:
"He also liked middle-aged puns", ficou como "Gostava também de anedotas de meia-idade". A palavra pum não significa anedota, mas trocadilho. Neste trecho, Nabokov atribui ao personagem uma paixão sua, conhecida de todos os seus leitores: a de fazer jogos de palavras em várias línguas. Mas esta noção é perdida na tradução brasileira.
Em alguns momentos é a construção das frases que perde sua elegância, como no seguinte trecho:
"Un aerocabe from Marina (frowarded with a whoke week’s delay via his Manhattan office which had filed it away through a new girl’s oversight in a dove hole marked RE AMOR". Tradução brasileira: "um telegrama de Marina (encaminhado com uma semana de atraso pelo seu escritório de Manhattan que o havia arquivado erradamente em virtude do engano de uma nova empregada).
Aqui, foi omitido todo o trecho "in a dove hole marked RE AMOR", (em tradução aproximada "num escaninho rotulado Referên-cia: AMOR"), que indica a ironia de Nabokov pelo costume das empresas em arquivar tudo, inclusive o amor, em pastas de arquivo impassíveis diante dos sentimentos humanos.
Faltou ao tradutor um - também melhor conhecimento das coisas dos Estados Unidos, como no trecho abaixo:
"is by the same hand - possibly belonging to a very sick Chinese boy who came all the way from Barkley College", na tradução brasileira: "é feito pela mesma mão, talvez de um chinesinho muito doente que veio bem de longe, da Universidade de Berkeley".
Além de "chinesinho" ser mais precisamente "menino ou menininho chinês" no original, não existe a Universidade de Berkeley, mas a Universidade da Califórnia, criada em 1855 na cidade de Berkeley.
No capítulo 25, os conhecimentos de botânica que Nabokov demonstra em uma passagem acabaram cortados:
"On a Sunny September morning, with the trees still gree, but the asters and fleabanes already taking over…". Na tradução da Record: Numa manhã de setembro cheia de sol, com as árvores ainda verdes, mas já com certas plantas invernais apossando-se..."
O genérico e preguiçoso "certas plantas invernais" são na realidade "ásteres e pulicárias ou ervas da manhã", especificações tão no gosto de Nabokov, que é profundo conhecedor da flora de vários países.
Em outra parte, um erro de tradução de palavra transforma a interpretação da frase em português:
"Accursed? Accursed? It was the newly described, fantastically rare vanessian, Nynphalis danaus Nab...": na tradução, "apontou para um inseto qualquer que pousara no tronco. (Um inseto qualquer? Qualquer? a nova vanessiana Nynphalis danaus, Nab...")
Ada apontou, na verdade. para um "maldito" inseto que pousara num choupo ou faia. "Maldito", em nenhuma língua indo-europeia corresponde a "qualquer". Mas, fora isso, Ada sendo uma entomóloga precoce, seu espanto pelo "maldito" é muito mais forte do que por um inseto "qualquer".
Há também passagens estilisticamente desastrosas, como esta em que Nabokov, num crescendo de tensão emocional, diz:
"She kissed him all over the face, she kissed his hands, then again his lips, his eyelids, his soft black hair. He kissed her ankles, her kness, her soft black hair", que em português foi traduzido como "Ela lhe beijou todo o rosto, as mãos, de novo os lábios, as pálpebras. Ele lhe beijou os tornozelos, os joelhos, os sedosos cabelos pretos".
Mas, é justamente a reiteração que exprime no original a ansiedade dos amantes quando se despedem que poderia ser assim traduzida: "Ela lhe beijou todo o rosto, ela beijou-lhe as mãos, depois novamente os lábios dele, as pálpebras, seu cabelo negro e macio. Ele lhe beijou os tornozelos dela, os joelhos dela, o cabelo negro e macio dela".
A beleza rítmica do original perde-se outras vezes, como nesta frase:
"Tomorrow you'll come here with your green net", said Van bitterly, "my but-terfly", na tradução de Pinheiro de Lemos: "Amanhã você virá aqui com sua rede verde, minha borboleta - disse Van, amargamente".
Todo o suspense da interpolação original "disse Van, amargamente", interrompendo a frase, para em seguida retomá-la, completando-a com "minha borbo-leta", desaparece. E ele é tanto mais forte quando se pensa em seu valor simbólico, pois o amante de Ada pressente que ela não lhe será fiel, como uma borboleta poética volteando em torno de outros amores.
Vítima de nosso subdesenvolvimento editorial, melhor é esquecer esta tradução e esperar para o futuro, quando o Brasil for um país que cresça em 9% ao ano em cultura e instrução, uma tradução digna de Ada, alguma coisa como o magistral trabalho de Antônio Houaiss para o Ulysses de Joyce.
Reuso
Citação
@incollection{gilson_ribeiro2023,
author = {Gilson Ribeiro, Leo},
editor = {Rey Puente, Fernando},
title = {Nabokov},
booktitle = {A Literatura Norte-Americana},
series = {Textos Reunidos de Leo Gilson Ribeiro},
volume = {13},
date = {2024},
url = {https://www.leogilsonribeiro.com.br/volume-13/13-nabokov/00-nabokov.html},
doi = {10.5281/zenodo.8368806},
langid = {pt-BR},
abstract = {Jornal da Tarde, 1970/07/18.}
}