Resenha do livro Papá Hemingway de A. E. Hotchner
Como a morte do presidente Kennedy, a morte de Hemingway desencadeou uma avalanche de livros dos mais sérios aos mais grotescos. Parecia que cada pessoa que cruzara com o grande escritor na mesma porta giratória se sentia autorizada a capitalizar esse encontro furtivo num "relato pessoal" rendoso e cheio de imaginação.
Papá Hemingway, ao contrário, não explora o filão comercial das biografias fantasiosas e apressadas. Seu autor, A. E. Hotchner, durante mais de 14 anos foi amigo íntimo do grande escritor, revelando, nesta fascinante e comovedora evocação, facetas íntimas e tocantes da sua personalidade. O retrato do novelista que ele traça distingue-se, portanto, logo de início, pela mescla rara de afeto e lucidez que o impregna, espelhando o homem na sua criação literária e mostrando as raízes desta na riqueza e variedade de sua personalidade inquieta, vibrante e generosa.
Desde o primeiro encontro, formal, na Havana que adorava, Hemingway o impressiona com a sua presença leonina, a exalar uma alegria de viver quase animal e a emitir uma simpatia e uma comunicabilidade "eletro cinéticas", como ele as classifica. Numa reconstrução cronológica, baseada em suas anotações metódicas, Hotchner faz reviver o período boêmio de Hemingway em Paris, quando esfomeado e desconhecido capturava pombos no Jardim de Luxemburgo para alimentar-se, enquanto no sórdido quarto de seu hotel barato voltavam seus manuscritos devolvidos pelas grandes revistas e editoras dos Estados Unidos. Depois, focaliza o Hemingway romântico, que conduz ambulâncias no front italiano durante a Primeira Guerra Mundial ou integra a Divisão Lincoln, composta de voluntários norte-americanos que combatem, na Guerra Civil da Espanha, ao lado do Exército Repubilcano. O Hemingway gourmet e conhecedor de vinhos finos franceses, que neutraliza seus prazeres sensoriais com um desprezo estoico pela morte, emulando em caçadas perigosas na África ou nas trincheiras das batalhas aquele viril desapego à vida que os toureiros seus amigos demonstram diariamente nas arenas inundadas de sol. E multas vezes com uma frase apenas, Hotchner adiciona outro mosaico a essa visão interior de um excepcional ser humano: o de um Hemingway supersticioso, que carrega amuletos e aposta religiosamente em loterias, a par de um Hemingway generoso e nobre, que dá alegremente dinheiro e conforto, casas e bolsas de estudos aos amigos necessitados que tem espalhados em todas as camadas sociais e em todas as latitudes do globo.
Mas, à medida que o livro avança, um outro aspecto da sua personalidade cresce até submergi-la por completo. Ao lado da sua alegria contagiante, explode a declaração inesperada da sua solidão em meio a tanta gente: "escrever, na melhor das hipóteses, é uma tarefa solitária". A sua inquietação criadora logo trai sintomas da angústia mórbida de alguém que lutasse contra os ponteiros do relógio, Inutilmente. As rixas com os produtores gananciosos e bovinos de Hollywood, a resistência à imbecilidade de redatores de revistas que alteravam ou reduziam o texto de suas matérias, a luta contra o assédio constante de entrevistadores importunos - tudo descamba logo para uma aguda mania de perseguição e para um progressivo isolamento do mundo: à casa de saúde “para esgotamento nervoso” sucedem-se os eletrochoques e por fim o disparo de sua espingarda de dois canos que ecoou pelos vales de Wood River, pondo fim à sua agonia final. Em certo momento de seus diálogos com o amigo, ele considerava a palavra "aposentadoria" a mais imunda e cruel do idioma. Ao contrário de Proust, quo "se aposentara" da vida para, enclausurado num quarto em Paris, evocar toda uma busca do tempo perdido, Hemingway construíra a sua obra literária paralelamente à sua vivência plena e quase desesperada de todos os prazeres e emoções que a vida lhe oferecia às mãos chelas. A saúde minada o impedia de uma participação física desses prazeres: seu corpo ficara tolhido em sua liberdade de movimento e de escolha. Para quem encarnara o ideal de Thomas Mann de forma tão concreta, unindo ao intelectual o atleta e dotando a literatura de músculos e nervos, essa barreira já era um obstáculo formidável. Mas o cerco à sua fortaleza interior não se deteve aí e penetrou até o âmago da sua própria razão de viver: a capacidade de criar, artisticamente. Se sua retina não conservava mais as imagens daquela festa móvel que foi Paris, sinônimo da sua felicidade e da sua plenitude, se suas mãos. não serviam mais para reproduzir, no teclado da máquina de escrever, o seu mundo mental em efervescência antes e obscurecido agora - então era melhor a morte, o golpe de misericórdia que ele próprio desfechara contra o resto de vida que lhe sobrava e que se queria íntegro na sua lucidez e na sua pujança.
Reuso
Citação
@incollection{gilson_ribeiro2023,
author = {Gilson Ribeiro, Leo},
editor = {Rey Puente, Fernando},
title = {Resenha do livro *Papá Hemingway* de A. E. Hotchner},
booktitle = {A Literatura Norte-Americana},
series = {Textos Reunidos de Leo Gilson Ribeiro},
volume = {13},
date = {2024},
url = {https://www.leogilsonribeiro.com.br/volume-13/12-ernest-hemingway/00-resenha-do-livro-papa-hemingway-de-a-e-hotchner.html},
doi = {10.5281/zenodo.8368806},
langid = {pt-BR},
abstract = {Jornal da Tarde, 1967/06/21.}
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