Memórias do futuro
Naquele ano de 1980, um Jovem casal tem um filho que nasce em quarta dimensão. O bebê é uma pirâmide azul, com mãos e braços azuis que parecem cobras e três olhos em cada extremidade.
Durante a Depressão econômica de 1920, retirantes descobrem no Texas uma galinha que bota ovos com citações bíblicas gravadas na casca: "Descansem em paz. A prosperidade está próxima".
Um Lincoln mecânico, feito de borracha, metal e pele humana, morre alvejado num teatro por um homem chamado Booth, o óleo escorrendo das molas de seu crânio em pedaços.
Ray Bradburdy usa a imaginação como um computador. Simula situações tecnológicas do futuro e medita sobre suas reações na psique humana. É o mais filosófico de todos os escritores de ficção científica; o que mais se preocupa com o aspecto moral da ciência colonizadora do ser humano; o mais poético na sua evocação trágica e nostálgica da Terra, com todos os seus erros e sua grandeza.
Com a mudança dos climas terrestres e o consequente resfriamento da Terra, daqui a alguns séculos, a Inglaterra, a Suécia, a Noruega terão se transformado num bloco de gelo. As populações fogem: para a Bahia, para as Bahamas para a Califórnia. Menos um inglês, Henry, no conto "Henry, o Nono" que se recusa a tomar o último helicóptero a abandonar as Ilhas Britânicas. Ele ficará com os fantasmas de César, dos reis e rainhas, sobraçando a Bíblia, um volume de Shakespeare, outro de Dickens, montando guarda dos penhascos de Dover e percorrendo sozinho a Grå Bretanha desolada.
O progresso, indiferente a qualquer aspecto emocional do grupo humano, destrói toda uma cidade e traumatiza seus habitantes quando uma estrada eternamente percorrida por milhões de automóveis destroça aquele aglomerado ridículo de poucas casas, mas que significa a permanência e a saudade para seus indefesos habitantes, em "Sim a Gente se Encontra na Beira do Rio".
Em 2037, a guerra atômica eclode na Terra. Os colonos humanos que povoaram Marte são chamados de volta, menos Barton. Todos os telefones de Marte tilintam, chamando por ele: é sua própria voz que ele gravou quando era jovem e que agora se ri do seu abandono. Quando um Capitão Rockwell chega a bordo do Foguete Apolo 48, recém-vindo da Terra, o exilado não acredita. Pergunta pelo planeta adorado: quem é o Presidente dos Estados Unidos agora? Como vai Nova York? Seria uma miragem; Os telefones soam de novo, é inútil abater os postes e de cada receptor sai uma voz sarcástica que zomba do velho: ele canta "Feliz Aniversário" junto com a sua voz de moço e que lhe chega de milhões de anos-luz de distância, na história intitulada "Chamada Noturna, a cobrar".
Bradbury, com este A Cidade Perdida de Marte chega ao Brasil mutilado, sem várias histórias inexplicavelmente extirpadas do original.
Não é um Ray Bradbury inteiriço como nos contos admiráveis de The Illustrated Man ou S is for Space. Os momentos desta nova coleção oscilam entre o prodigioso e o medíocre, entre o voo lírico da Fantasia e o chão de uma mente esgotada e de inspiração curta. A balança, no entanto, pende para o assombroso.
O leitor brasileiro, ou de qualquer país infra desenvolvido tecnologicamente, esbarra com uma dificuldade às vezes insuperável para compreender a grandeza e a profundidade da ficção científica. Ela parece árida. Fala de mundos alienados de qualquer realidade humana imediata - a fome, a superpopulação, dos totalitarismos, a carestia da vida, o preço da gasolina e do pão.
De fato, de que serve ler contos que se passam literalmente no mundo da lua? o argumento política de todos os que desprezam essa literatura fantástica, de vocabulário científico, passada em Marte ou Júpiter, em eras futuras, quando os escritores, os editores e os leitores já terão há muito deixado de existir. Esse desinteresse pode se justificar em parte no caso de autores arrogantes de seu saber científico, como Arthur Clarke, autor do roteiro do filme 2.001 ou de Robert Henlein, ambos especializados em assuntos herméticos para o leigo.
Ray Bradbury é a antítese de todas estas acusações. É fundamentalmente um admirável escritor, um fino estilista que não confunde conhecimento técnico com literatura só para iniciados. Por isso os avanços dos computadores são, para ele, mera matéria-prima para extrapolar sua influência no comportamento dos homens: o coração imutável diante do ambiente que se modifica.
A Cidade Perdida de Marte pode servir de acesso ao leitor para seu mundo fascinante. "A Criança de Amanhã" é um exemplo da magia de uma inteligência sensível debruçada sobre o laboratório em que os homens são cada vez mais cobaias impotentes diante do Cientista, novo Soberano da Coletividade. O bebê que nasce sob a forma de uma pirâmide azul é produto de uma medicina monstruosa: a mesma que propõe a mutação dos genes de indivíduos ou a lobotomização dos agressivos e que encara o bípede como uma extensão de seu campo de pesquisas. O recém-nascido é o resultado de uma pane nas máquinas de nascimento. Um curto-circuito e em vez de uma criança aparece uma pirâmide gelatinosa e azul, que vê o Pai, a Mãe, todos os humanos tridimensionais como formas hexagonais e formas baças, de cor branca ou cinzenta. Quando sua cor é de um azul firme e brilhante, o bebê-pirâmide está com saúde, se o colorido desbota, está com algum problema de saúde. E seu nome é Pi.
A solução "científica" é os pais desesperados concordarem em passar pelos mesmos fracassos da máquina e adquirirem a dimensão geométrica do filho dotado de "mãos" em formas de fios que se agarram às superfícies como plantas trepadeiras. A solução é transformarem-se, para o cientista surpreso e indiferente, em um Ovoide Branco e um Retângulo Branco. Como não aceitar aquela felicidade inesperada ditada pelo instinto materno: ver seu filho como ele é e amá-lo mesmo que para isso tenha que sacrificar sua forma humana?
Mas é o conto longo que no original dá o título à coletânea "I Sing the Body Eletric!" "Eu Canto o Corpo Elétrico!"), extraído de um dos poemas de Walt Whitman, que mostra até que ponto a ficção científica pode ser profunda e atemporal, além de minunciosamente bela na sua armação vocabular.
A frase inicial contém o gérmen do impacto, como se Ray Bradbury imitasse o conselho dado aos estreantes no jornalismo: capte a atenção do leitor logo na primeira frase, senão ele se desinteressa e vira a página. A primeira frase é quase sempre paradoxal, subverte a lógica, fisga o leitor irresistivelmente, como aqui: "A vovó"! Lembro-me do seu nascimento".
Aproximando-se do escritor mexicano Juan José Arreola em seus contos fantásticos enfeixados em Confabulário Total, Bradbury, este Balzac do mundo da automação, da cibernética, dos foguetes espaciais, cria um robô sensível. Inspira-se no Pinóquio de Collodi e dá, a crianças que perderam a mãe, uma avó mecânica, perfeita, produzida pelos industriais bondosos da Fábrica Fantoccini E uma proposta alucinante e de extraordinária força inventiva:
"Para vocês, que se preocupam com amas-secas desatentas, babás com quem não se pode deixar garrafas de bebida, e tios e tias de boas intensões, aperfeiçoamos a primeira Avó Elétrica do gênero humanoide, minicircuitos carregáveis, CA-CC, Mark V.
O Brinquedo mais do que um Brinquedo, Avó Elétrica Fantoccini é construída com a precisão amorosa, para proporcionar a precisão inacreditável de amor a seus filhos. A criança à vontade com as realidades do mundo e com as realidades ainda maiores da imaginação, eis o objetivo dessa avó.
Ela foi computadorizada para ensinar em doze línguas simultaneamente, é capaz de passar de uma língua à outra em milésimos de segundo sem parar, e tem o conhecimento completo das histórias religiosas, artísticas políticas do mundo, implantadas em sua colmeia principal".
Milagre maior: ao contato das necessidades de afeto de seres humanos órfãos de compreensão e de atenção, essa Avó deixada por um helicóptero à porta da casa das crianças que perderam a mãe recentemente é uma Avó que compartilha com os seres humanos do amor. Sabe fazer tortas de abricó e resolver problemas de álgebra. Ela é a máquina que vem desfazer todos os preconceitos humanos contra as máquinas. Ela incorpora os sentimentos que a circundam. O automóvel, por exemplo, tornou-se um assassino de vidas humanas porque os que o conduzem o contagiaram com sua ambição, seu desvario, seu egoísmo. Ela não. Criada para compensar os estragos das máquinas, ela dá amor: "O amor ela explica é talvez a capacidade de alguém nos restituir a nós mesmos, devolvendo-nos a nós mesmos só que um pouco melhores do que éramos antes." É uma máquina assombrosa, que lembra a visão religiosa de Dostoievsky: quem ama nos vê como Deus nos criou. Por isso ela dá atenção a todos os três órfãos indistintamente. E a milagrosa infecção amorosa da máquina, que ao contato com as crianças, torna-se amorosa ela também. Como no trecho admirável:
"Vovó e nós vivemos felizes para sempre, depois daquilo... Vovó nos chamando para brincar em grandes fontes de latim, espanhol e francês, em grandes jatos marítimos de poesia como Moby Dick a borrifar as profundezas com suas nascentes de Versalhes, de algum modo perdidas nas calmarias e encontradas nas tempestades; Vovó, um elemento constante, relógio, pêndulo, rosto para olhar ao meio-dia, ou em meio das noites de doença quando, cheios de febre, nós a víamos sempre dizendo palavras bondosas, a mão fresca refrigerando as testas quentes, a torneira, em seu dedo erguido, aberta para que o filete de água cristalina e fresca, das montanhas, viesse dessedentar nossas línguas. Por dez mil madrugadas, ela aparou nosso gramado, por dez mil noites vagou na casa, lembrando-se das moléculas de poesia que caíam nas horas paradas antes do amanhecer, ou ficava sentada, murmurando alguma lição que achava dever ensinar-nos, enquanto dormíamos bem acomodados".
As crianças tornadas adultas, a Avó Elétrica (chamada com o nome egípcio de Nefertiti, que significa a Bela chegou) está ameaçada de ir para o asilo, sucata onde outras avós eletrônicas fazem tricô e trocam experiências. A menos que as crianças, envelhecidas e solitárias, voltem a ser infantis e precisem do seu carinho para sobreviver.
Ray Bradbury já tinha escrito histórias que como um batiscafo tocam o solo abissal da alma humana. Como o conto em que os negros norte-americanos, banidos por um governo racista para Marte, recebem um astronauta branco que vem pedir-lhes que voltem para a Terra, para repovoar os Estados Unidos destroçados por uma catástrofe atómica.
Mas com "Eu Canto o Corpo Elétrico" ele atinge as dimensões de uma metamorfose inversamente kafkiana. Se o deserto afetivo tornara um homem de vida mecânica num inseto incômodo para a família, é o calor humano que, como na maravilhosa aventura simbólica de Pinóquio, se propaga às máquinas, animando-as de sensibilidade e mortalidade.
Com invenções literárias deste calibre, Bradbury não só adverte o homem sobre os perigos da máquina, capaz de expulsar o homem da sua posição de homo sapiens, substituído pela machina sapiens.
Dá aos cientistas e governantes uma perspectiva nova, entrevista por Aldous Huxley em Volta ao Admirável Mundo Novo: a da humanização dos engenhos criados pelo homem e que não devem servir para destruir nem permanecerem neutros. Devem preencher uma função que Kierkegaard previu para uma filosofia de solidariedade do homem para com o seu semelhante, depois do crepúsculo de todos os deuses, desde os caprichosos Imortais da Grécia antiga até o Cristo que pregou o amor ao próximo.
Se as ideologias, as religiões, o Estado faliram, só uma ciência contaminada pela angústia e pela carência de amor dos frágeis seres humanos mortais poderá irmanar o homem e suas metálicas invenções. Só então ao grito da solidão humana corresponderá o afago compreensivo de mãos de ferro e borracha, acalanto novo para a beleza e o desamparo de viver.
Reuso
Citação
@incollection{gilson_ribeiro2023,
author = {Gilson Ribeiro, Leo},
editor = {Rey Puente, Fernando},
title = {Memórias do futuro},
booktitle = {A Literatura Norte-Americana},
series = {Textos Reunidos de Leo Gilson Ribeiro},
volume = {13},
date = {2024},
url = {https://www.leogilsonribeiro.com.br/volume-13/20-ray-bradbury/01-memorias-do-futuro.html},
doi = {10.5281/zenodo.8368806},
langid = {pt-BR},
abstract = {Jornal da Tarde, 1975/07/05.}
}