Mundos incomunicáveis (resenha do livro Chá nas Montanhas)

Autor

Leo Gilson Ribeiro

Resumo
Veja, 1994/09/07.

A Europa e os EUA, sempre que se defrontaram com culturas que não são ocidentais, reagiram com autores que oscilaram do extremo do êxtase ao horror total diante do que lhes pareceu incompreensível, bárbaro e inferior. Se o inglês E. M. Forster exalta o calor humano dos hindus em Passagem para a Índia, o México do igualmente inglês Malcolm Lowry em seu livro À Sombra do Vulcão é uma cacofonia irracional de violência e crueldade devastadoras. O romancista e contista americano Paul Bowles, nascido em 1910, está equidistante da identificação e da repulsa, do juízo racista e do julgamento ético. Nas entrelinhas de seu mundo sombrio espreita a desesperança como inerradicável código genético da espécie humana.

Está chegando às livrarias Chá nas Montanhas (tradução de Rubens Figueiredo, Rocco, 263 páginas), uma ótima seleção de vinte dos 39 contos reunidos no original como Collected Stories. Nesse livro, o leitor poderá tomar contato com alguns dos temas obsessivos do autor de O Céu que Nos Protege, que os brasileiros já conheciam desde o filme do italiano Bernardo Bertolucci, lançado no Brasil em 1991. Ali surgiam, claras, como neste Chá nas Montanhas, as características soturnas desse compositor (Bowles estudou música com o refinado Aaron Copland e musicou duas peças do teatrólogo americano Tennessee Williams e um drama o poeta espanhol García Lorca) que há trinta anos passou a se dedicar apenas à ficção, em seu refúgio em Tânger, no Marrocos. Sua literatura espelha a inextirpável incompreensão entre o mundo ocidental branco, europeu, e as culturas árabe, latino-americana e africana. Para o mundo que não pertence ao hemisfério dos ricos, o Ocidente é um demônio armado de tecnologia, ateísmo, álcool e liberação feminista. Para a civilização eurocêntrica, ao contrário, o múltiplo Terceiro Mundo é a imagem do atraso, da superstição, da violência e da ignorância ancestrais. De nada adiantou, há também trinta anos, o escritor Gore Vidal, autoexilado na Itália, longe dos seus Estados Unidos de origem, exaltar a excelência do escritor Paul Bowles. O silêncio tumular das universidades, bibliotecas e revistas literárias sepultou seus elogios. Chá nas Montanhas é uma oportunidade de redescobrir Bowles quase cinquenta anos depois de sua estreia literária.

Cada história de Chá nas Montanhas é um exemplar irretocável da visão do escritor de um mundo que opõe homens a outros homens, culturas a outras culturas. Em "Um episódio distante", um ingênuo professor, talvez francês, que viaja pelo norte da África para estudar dialetos desconhecidos cai nas mãos da tribo nômade dos Reguibas, temidos por sua maldade pelos demais árabes. Os Reguibas espancam o viajante, roubam o pouco que tem e suprema metáfora cortam-lhe a língua com um punhal, além de arrastá-lo preso como palhaço da tribo. Em "Allal" é a dimensão fantástica que põe a nu a impossibilidade de integração. Allal é um "filho do pecado", pois sua mãe solteira o abandonou. Desprezado por todos, solitário e explorado por um patrão grego que nada lhe paga para fabricar tijolos, ele conhece um velho amansador de cobras que as vende no mercado. Este lhe fala da meiguice quase humana das serpentes: "As cobras são como a gente... Depois a gente fica amigo delas". O menino rouba do ancião a cobra mais cara e passa a cuidar dela. Aí um fenômeno prodigioso culmina tragicamente. Allal transforma-se, kafkianamente, ionescamente, na serpente e, na luta contra os homens que vêm matá-lo em sua nova forma, ainda consegue "enterrar suas presas em dois deles, antes de um terceiro decepar-lhe a cabeça com um machado".

A maioria das histórias se desenrola no Marrocos e no México. Atipicamente, passa-se nos Estados Unidos o conto "Páginas de Cold Point", uma renúncia à própria civilização que revela dimensões trágicas. Provavelmente é o próprio autor que se retrata no homem que foge para uma ilha no Caribe: "Nossa civilização está condenada a uma vida curta: suas partes constituintes são excessivamente heterogêneas. Pessoalmente, sinto-me satisfeito por ver tudo em processo de decadência", conclui. O personagem leva consigo para a ilha seu único filho adolescente, Racky. A extrema sutileza do autor não entra em pormenores, mas tudo induz a crer numa cena de incesto, descrita erótica e ambiguamente. Há quase cinquenta anos os contos de Bowles são venerados por uma pequena corte de admiradores. Finalmente chegou a vez de o leitor brasileiro integrar esse privilegiado clube de aficionados - e corajosos. É preciso coragem para admitir que o mundo de Bowles está mais perto de nós ou dentro de nós do que seria tolerável imaginar.

Reuso

Citação

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Por favor, cite este trabalho como:
Gilson Ribeiro, Leo. 2024. “Mundos incomunicáveis (resenha do livro *Chá nas Montanhas*) .” In A Literatura Norte-Americana, edited by Fernando Rey Puente, vol. 13. Textos Reunidos de Leo Gilson Ribeiro. Veja. https://doi.org/10.5281/zenodo.8368806.