Comédia sexual (resenha do livro Complexo de Portnoy, Ed. Expressão e Cultura)
Como as decalcomanias que enfeitam milhares de carros no Brasil, o romance Complexo de Portnoy também faz uma exigência radical: "ame-o ou deixe-o". Desde o escândalo de sua publicação nos EUA, no ano passado (4 milhões de exemplares vendidos), dividiu em campos opostos seus leitores. Os vizinhos do autor, Philip Roth, no prédio de apartamentos em que mora em Nova York, passaram a ter dois comportamentos críticos desse "Manual Completo da Masturbação". Alguns batiam-lhe acintosamente com a porta na cara. Outros o convidavam para um uísque e uma explicação por exemplo sobre a prática do onanismo utilizando luvas de beisebol. Essas atitudes espelhavam a reação igualmente intransigente dos críticos: "uma obra asquerosa, analfabeta, maçante e pueril", ou "o romance de sexo mais descaradamente engraçado que já se escreveu".
Lançado no Brasil duas semanas depois de publicado o livro de contos de seu autor, Goodbye, Columbus, este complexo na realidade é uma obra-prima de humor. Diante do psicanalista, o personagem de Philip Roth narra sua história de judeu americano obcecado por um distúrbio que dá o nome ao livro: o complexo de Portnoy. Conflito entre atitudes altruístas e desejos sexuais reprimidos, deriva, tipicamente, da mistura mortífera para a maturidade mental e erótica: uma Mãe Perfeita, fiel observadora dos preceitos judaicos, e um Pai procurando, impaciente, uma solução para sua prisão de ventre de proporções gigantescas.
Esta bomba literária explode com uma carga de infinitos megatons de hilaridade. A figura dominante é a mãe: "Minha mãe era capaz de fazer tudo... Verificava minhas somas, atrás dos meus erros; minhas meias, atrás dos buracos; minhas unhas, meu pescoço, cada junta, cada dobra do meu corpo, atrás de sujeira. Chegava a dragar os recônditos recessos dos meus ouvidos com água oxigenada". Tirânica, dominadora, a Mãe parece ter trocado de papel com o Pai, dócil e perseguido pela preguiça intestinal. "A ubiquidade dela e a prisão de ventre dele, minha mãe voando pela janela do quarto de dormir, meu pai lendo um vespertino com um supositório enfiado no traseiro... Estas, doutor, são as impressões mais remotas que tenho de meus pais, de suas qualidades e segredos. Ele costumava preparar uma infusão de folhas de sena numa caçarola... E então, curvado silenciosamente por sobre o recipiente vazio, como que à escuta de um trovão distante, aguardava o milagre... Mas o milagre jamais veio, pelo menos como imaginávamos e rezávamos para que viesse, como uma suspensão da sentença, uma libertação total do tormento. Lembro-me também que, quando anunciaram pelo rádio a explosão da primeira bomba atômica, ele disse em voz alta: 'Talvez isso resolvesse o caso."
Imprensado entre a Mãe Despótica e o Pai Desfibrado, Portnoy descobre, na adolescência, que o único território legitimamente seu é seu corpo. O onanismo passa a ser ao mesmo tempo sua Declaração de Independência da família e sua Libertação através da Fantasia. O soutien da irmã, uma meia velha, uma garrafa de leite, tudo colabora com suas alucinações sexuais explícitas e hilariantes.
Estágio da Evolução da Espécie não previsto por um Darwin do Sexo, a masturbação inventiva precede os encontros tragicômicos com as shitzes (as moças não judaicas) loiras, frias, inacessíveis. Portnoy é também o Filho Pródigo que busca na Terra da Promissão - Israel de hoje - sua reintegração no mundo judaico, como uma possibilidade de superação de seu complexo neurótico. Inutilmente a amazona sabra (judia nascida em Israel), que foi pioneira de um kibbutz e que ele tenta seduzir numa cena grotesca, não só o repele ("Porco! E desferiu um pontapé. E acertou! Com toda a força daquela perna de pioneira, bem abaixo do coração era o golpe que eu estava ardilosamente almejando...") como lhe revela a hipocrisia de sua vida como vice-presidente da Comissão Social de Oportunidades do Estado de Nova York, levando-o até a impotência: "Impotente em Israel, dá, dá, dá a cantarolei, com a música de uma cantiga de ninar". Entrevistado pela revista Life, Philip Roth fez questão de ter ao fundo uma fotografia de Franz Kafka, seu autor preferido. As semelhanças são evidentes: como o autor checo, judeu de língua alemã, o herói de Roth tampouco se integra na comunidade protestante americana nem na comunidade ortodoxa, de língua hebraica, de Israel. Traumatizado pelo pai brutal que o colocou numa noite de inverno trancado na varanda, Kafka faria de seus livros uma invectiva psicopática contra o Pai Tirânico. Roth cria um monumento hilariante (mas que deixa entrever claramente abismos de angústia) à Tirania da Mãe Judaica que o ameaça com uma faca quando ele, garotinho de seis anos, não tem apetite para comer a comida ortodoxa kosher. Narrativa psicanalítica de uma graça angustiada como a dos humoristas judeus americanos Zero Mostel e Lenny Bruce, cuja graça oral imita, este "Complexo de Portnoy" revela as características de um autor judeu diferente dos outros judeus da literatura americana. Sem a profundidade da meditação moral de um Saul Bellow nem o humorismo leve e de malícia velada de um Malamud, Roth distinguiu-se como uma caricatura de Kafka. O que para o autor de Metamorfose é trágico e apavorante - a transformação de Gregor Samsa num monstruoso inseto -, para Roth é motivo de gargalhadas de humor negro, forma de catarse e de driblar a angústia e pretexto para uma aula magistral de riso.
Reuso
Citação
@incollection{gilson_ribeiro2023,
author = {Gilson Ribeiro, Leo},
editor = {Rey Puente, Fernando},
title = {Comédia sexual (resenha do livro *Complexo de Portnoy*, Ed.
Expressão e Cultura)},
booktitle = {A Literatura Norte-Americana},
series = {Textos Reunidos de Leo Gilson Ribeiro},
volume = {13},
date = {2024},
url = {https://www.leogilsonribeiro.com.br/volume-13/24-philip-roth/00-comedia-sexual-resenha-do-livro-complexo-de-portnoy.html},
doi = {10.5281/zenodo.8368806},
langid = {pt-BR},
abstract = {Veja, sem data, provavelmente 1971.}
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