Um diagnóstico do contraste entre política e paz. Por Saul Bellow.

Autor

Leo Gilson Ribeiro

Resumo
Jornal da Tarde, 1978/03/11.

Com a velocidade dos acontecimentos mundiais, os livros que tratam de assuntos atuais já nascem, quase todos, com rugas. Seria preciso imprimir à confecção dos livros a mesma rapidez relâmpago com que se fizeram edições expressas do amordaçamento da primavera de Praga de Dusek da noite para o dia. Mas nem tudo do que se enfeixa em volume envelhece 24 horas depois, como o jornal de ontem superado pelos fatos de hoje. Quando um escritor e agudo pensador como o norte-americano Saul Bellow faz um relato de sua viagem a Israel, datado do ano passado, a parte obsoleta é claramente superada pela substância permanente de suas meditações cirurgicamente incisivas e penetrantes. Pela sua originalidade e finura de interpretação, elas poderiam ser arroladas numa espécie de Manual seguinte:

- História e política não são absolutamente noções desenvolvidas por gente inteligente e bem-informada... O que ainda se perpetua em toda conversação civilizada é o ritual da discussão civilizada em si.

- Se o comunismo avassalar a Itália, o Papa se mudará para Jerusalém? É mais provável, diz um dos prelados, que ele se deixe ficar na Itália e venha a tornar-se secretário do Partido... A sobremesa é servida.

- Os americanos sabem que Sadat era nazista? diz a bibliotecária. Bem, sim, gente bem-informada tem esse dado nos seus arquivos. O The New York Times o terá, com certeza, mas o Times, a meu ver, é um governo dentro de um governo. Tem o seu próprio Departamento de Estado, e seus altos conselhos decidiram, provavelmente, que seria pouco político, no momento, chamar a atenção para a admiração de Sadat por Hitler.

- A intelligentsia francesa permaneceu imensamente prestigiosa imensa e inexplicavelmente também, porque há intelectuais nos Estados Unidos capazes de afirmar que hoje Paris está no mesmo nível cultural de Buenos Aires.

Ha inúmeras outras nuances de competência intelectual objetiva, partidas de um escritor maravilhosamente ágil na sua agudeza e profundidade de percepção moral, social, cultural, política. Possivelmente a frase lapidar que fica com o leitor ao encerrar este livro provocante, desafiador, é o reconhecimento do rodamoinho planetário, de guerras reivindicações, dissidências, ditaduras, sequestros, greves, atos de terrorismo... cisões partidárias, que formam o rolo compressor em que tudo mais é absorvido a cultura, a ética, a coerência, a verdade e a própria ação: "Pela primeira vez na História, a espécie humana como um todo engajou-se na política"

Eruditamente Saul Bellow cita Dostoievsky e Thomas Hobbes para lembrar que a liberdade é uma bolha de sabão, uma pequena nota de pé de página no grande livro da animalidade e hostilidade mútua entre os seres humanos. Revela a pusilanimidade de Sartre, o enfant gaté da moda gauche de Paris e de seus admiradores cegos, fora da França também, ao negar-se a assinar um manifesto condenando a destruição de milhões de prisioneiros nos campos de concentração russos, um manifesto redigido por David Rousset em 1949, ele próprio ex-prisioneiro do campo de concentração nazista de Buchenwald: "Sartre disse que, pela sua assinatura, estaria justificando ou fortalecendo o imperialismo americano". E compara a "isenção e a imparcialidade" do philosophe francês ao jurado de Chicago que manteve com um sobrevivente de Auschwitz o seguinte diálogo, que parece extraído de O Processo de Kafka:

- Por que o sr. foi mandado para um campo de concentração? Que crime cometeu?

- Crime nenhum, não houve julgamento.

- Essa resposta não pode ser verdadeira. Quando uma pessoa vai para a cadeia é porque fez alguma coisa. O senhor deve ter antecedentes criminais no seu país de origem.

E Bellow arremata, para justificar a alienação dupla de Sartre para com o problema dos judeus em Israel e os estados policiais da Europa Oriental esmagados pelo terror soviético: "Quando é grande a necessidade de ilusão, muito capital de inteligência pode ser investido na ignorância".

Alinhando constantemente os problemas da dissidência russa-Solzhenitsyn, Siniavsky, Mandelstam e outros com o isolamento de Israel no oceano de agressividade árabe que circunda o minúsculo Estado judeu, ele não poupa em nenhum momento a cegueira moral dos Estados Unidos diante do arquipélago Gulag stalinista e a perversidade da Nova Esquerda americana em não reconhecer em Israel a única democracia do Oriente Médio, circundado por "socialismos" de um partido único, de emirados riquíssimos, de miséria feudal e fanatismo nacionalista e religioso, habilmente dirigido por Moscou por detrás do embuste:

"Contente com o seu dinheiro e com as suas máquinas, contente com as suas oportunidades de viajar e fazer compras, de divertir-se e ter relações sexuais, os (americanos) estavam dispostos a deixar que Stalin engolisse os poloneses, os húngaros, romenos e checos. A acusação é de que temos tolerado (a tradução diz com mau gosto e imprecisão incríveis peitado) ou enfrentado as ditaduras comunistas para que nos deixem em paz e que ainda o fazemos sob a forma a que decidimos chamar de détente. O que não diria agora Saul Bellow do inefável embaixador americano junto às Nações Unidas Andrew Young, que na mesma frase "apóia" a intervenção cubana na África e "deplora" que os cubanos usem a destruição como método?... Reconhecendo o embotamento mental que a extrema direita expansionista israelense cria para a sobrevivência do Estado, os resquícios de abissal ignorância e superstição fanática que judeus super ortodoxos guardam ainda, a ponto de desconhecer quem foi Einstein e se recusar a sentar-se ao lado de uma mulher ou de comer comida que não seja kosher, além de manterem ilusões de uma superioridade teologicamente transcendental do povo judeu sobre os goim (não-judeus), ele alarga o painel de sua objetividade e mantém uma fé inquebrantável e comovente nas potencialidades de inteligência, realização e denodo dos judeus: "Recebo uma carta de Mikhail Agursky, escritor russo que esteve recentemente em Jerusalém. O que me diz é que os judeus podem ser produtivos e eficientes desde que uma estranha condição se satisfaça: a de que os objetivos propostos sejam estritamente irreais do ponto de vista geral. Uma vez que se dediquem a atingi-los, ninguém os alcançará. E continua: "O sionismo só poderá ser ressuscitado hoje por uma injeção desses objetivos lunáticos. Pessoalmente, é o que eu advogo fazer de Israel o centro de uma nova civilização (e não faço por menos!), de vez que é evidente a decadência da civilização ocidental (e da oriental também...). Na parte pragmática, só ideias desse tipo terão sucesso com os judeus."

Mais ainda: Bellow compartilha as opiniões democráticas das facções judaicas que abominam o "narcisismo" nacionalista dos sabras (os judeus nascidos em Israel em grande parte, sentem repugnância pela intoxicação pelo poder que as vitórias militares deram a muitos israelenses, não admitem que Israel conquiste e ocupe territórios egípcios, sírios e jordanianos, argumentando que em 1939 a Inglaterra e a França foram à guerra exatamente por se oporem ao expansionismo da Alemanha, a deglutir territórios poloneses e checos sob o lema de que o povo alemão era um "Volk ohne Raum", um povo coitado! - sem espaço vital para propagar-se. Da mesma forma, são injustificáveis as "colônias liberadas" de Israel pois o que está eticamente errado para a Alemanha não pode estar certo para Israel. Além do que, Israel terá, pela mesma inflexibilidade moral, que reconhecer os direitos de uma entidade palestina. Caso contrário, Israel cairá no autismo, doença psíquica definida como "a rejeição da realidade e sua substituição por uma realidade que é um produto ilusório do desejo de ver sonhos concretizados".

Ler Jerusalém, Ida e Volta, de Saul Bellow, é manter um diálogo vivíssimo, cintilante de argúcia, sobre um dos temas mais incendiários da política mundial. Que diferença melancólica de vários livros de viagens de alguns brasileiros por outros locais que percorreram cegos, mudos e surdos mas dispostos a trombetear os engodos em que caíram emocional e imaturamente.…hélas!

Porque à sua vasta e matizada cultura, Saul Bellow alia um intelecto incorruptível e realista. Vislumbra esperança na aproximação dos scholars árabes e judeus para se chegar a um consenso benéfico a todos os participantes do conflito do Oriente Médio, que deve ser sanado inadiavelmente. Sem dúvida, o relance de maior pungência de todo o livro é o reconhecimento de que a literatura e a política se entrelaçam não só na literatura de denúncia social como também travam um pacto de sobrevivência na prisão, no campo de concentração, na tortura: "Os mais bravos dentre os escritores modernos são os Mandelstams (poeta que morreu nos campos de trabalhos forçados de Stálin) e os Siniavskys (a quem se permitiu recentemente o "banimento voluntário" para a França, onde, ó ironia que deliciaria a cólera de Saul Bellow, ele foi homenageado com um banquete por... Sartre). Antes de morrer de frio, fome e exaustão na Sibéria, Ossip Mandelstam recitava seus poemas aos outros prisioneiros, a pedido deles. Andrei Sinyavsky, no seu diário de prisão, concentra-se na arte. Talvez permanecer um poeta em tais circunstâncias seja também atingir o coração da política. Então, os sentimentos humanos, a humana experiência, a forma e o rosto do homem retomam o seu lugar natural a vanguarda."

Com este livro profundo, apaixonante, Saul Bellow se insere naquela categoria de artistas que nunca estiveram alienados de nenhuma das realidades plurais do seu tempo. Como demonstrava a mais brilhante e lúcida pensadora política talvez de todo o século XX, Hannah Arendt, em A Condição Humana (1958): "Com palavras e obras, nós nos inserimos no mundo humano". Com sua obra-prima Henderson, o Rei da Chuva, Saul Bellow já se inserira no mundo da ficção e da ética que se deriva da estética. Com este polifacetado relato de uma ida a Israel ele diagnostica o contraste entre política e paz propícia à criação ou contemplação da arte. Testemunha a perduração da arte no caos contemporâneo, pois o mais fortuito encontro com a permanência e a transcendência da beleza torna o ser humano consciente das feridas sociais que recebe diariamente ao ler no jornal atrocidades crescentes. A arte, no entanto, precede, acompanha e ultrapassa o sofrimento humano, pois ela é uma das formas de perenidade da própria condição humana.

Reuso

Citação

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Por favor, cite este trabalho como:
Gilson Ribeiro, Leo. 2024. “Um diagnóstico do contraste entre política e paz. Por Saul Bellow. .” In A Literatura Norte-Americana, edited by Fernando Rey Puente, vol. 13. Textos Reunidos de Leo Gilson Ribeiro. Jornal da Tarde. https://doi.org/10.5281/zenodo.8368806.