A saga tragicômica de um americano nada tranquilo.
Um milionário acaba fatalmente transformado num porco?
Vinte anos depois de publicada nos Estados Unidos, a resposta do escritor norte-americano Saul Bellow a essa indagação chega ao Brasil é um hilariante-apavorante SIM! A menos que...
O sacerdote do Lucro a Qualquer Custo termina imolado no altar sacrílego da matéria morta ou irracional, inanimada ou animalesca. Quem adora os falsos ídolos mineraliza tudo que toca, como o pobre rei Midas, morto de fome por suas mãos que metamorfoseavam em ouro tudo a seu alcance. Ou chafurda no lodo inconsistente do Inferno: o vazio do sexo, a angústia existencial que o álcool não dissipa, o desespero da insensibilidade que queima como um escaldante deserto, o oco espiritual, a morte da alma.
Em sua suprema obra-prima, na vasta galeria de fracassos humanos que criou desde The Dangling Man, Herzog, The Victim Bellow também como que muda de aspecto. Suas frases têm a perspicácia fulminante e irónico-cáustica de um Steinberg que em vez de desenhar paródias da Tragédia Americana usasse palavras para substituir o doce cianureto do traço caricatural mas participante da Tragédia mais vasta: o efêmero da passagem humana pela Terra.
Henderson, The Rain King (Henderson, o Rei da Chuva) é o livro mais comovente e profundo da doce-amarga gargalhada com que ele mergulha em sua obra solitária de arqueólogo da civilização urbana e tecnocrática dos Estados Unidos. Ele penetra de camada em camada sem apelar para sofisticados aparelhos modernos de detecção geológica através de raios laser. Suas ferramentas são tão primitivas e artesanais quanto um facão ou uma tosca picareta para perfurar a crosta da condição humana made in USA. E tão frágeis e atemporais quanto a filosofia, a Bíblia, a arte, a ética. Tudo iluminado pelo archote brilhante de uma verve ferina, uma graça que faz o leitor misturar lágrimas e riso como quem devora um exótico prato de condimentos orientais, a pimenta e o "curry" acasalados com o açúcar e o mel: é o humour o próprio sal do seu estilo ou, em termos religiosos, o riso é, mais do que a sátira dos costumes, uma forma humanizada da Graça divina a sorrir das intempéries do desamparado homo technicus?
Seu aflito herói, Henderson, já é uma dissimulação maravilhosa do romancista judeu: Henderson frequenta clubes em que a entrada só e permitida os WASPS (brancos, descendentes de anglo-saxões protestantes) num sutil acordo de cavalheiros que disfarça um feroz antissemitismo. Henderson tem tudo para ser vastamente feliz além de ser de uma família tradicional, é riquíssimo. Inúmeras vezes ressalta para o leitor, para que este não se esqueça, que tem mais de três milhões de dólares em seu nome, depois de deduzidos os impostos. É casado (duas vezes), tem filhos, mas tudo a seu redor está apodrecendo a olhos viscos, tudo que leva o carimbo do seu possessivo delirante: meus pais, minhas mulheres, minhas esposas, meus filhos, minha fazenda de criação de porcos, meus animais, meus hábitos, meu dinheiro, meu violino, minha bebedeira, meus preconceitos, minha brutalidade, meus dentes, meu rosto, minha alma!
Sempre que ele sentia essa angústia existencial de um Babbit atual, ele devastava a biblioteca do pai em busca de um fragmento de frase que lhe parecera indicar uma saída: "O perdão dos pecados é eterno e a virtude não é o pré-requisito exigido indispensavelmente. Quanto mais ele revirava os velhos volumes à procura dessa frase que ecoa em sua memória, mais caem notas de dólares que seu pai colocava dentro dos livros para marcar o lugar importante ou o ponto onde ele interrompera a leitura. Dinheiro cobre o chão como numa chuva ilusória de consolos para uma agonia que não diminui com a efígie de Washington ou de Lincoln colocados sobre ela como cataplasma ineficiente. Além do simbolismo da situação, Saul Bellow estrutura magníficos pastiches literários durante toda a narração deste
Pilgrim's Progress aggiornato in America. As cenas dramáticas têm todas um ritmo e um colorido nitidamente shakespeareano, como nas cenas culminantes em que Otelo vai estrangular a inocente Desdêmona ou Hamlet reflete sobre a fragilidade do barro de que é feita a sólida carne humana. A evocação da morte tem semelhanças nada fortuitas com o poema de Dylan Thomas em que ele suplica, em tom patético, ao pai senil que não mergulhe naquela apavorante noite da morte. A lua, as montanhas, a natureza rural são evocadas com imitações deliciosas dos grandes poetas românticos ingleses: Shelley e Wordsworth. Até a célebre e solene ode de Keats a uma urna grega serve como modelo para um a paráfrase patético-deliciosa sobre o irmão que provavelmente se suicidou por afogamento, destruindo antes uma urna recipiente para café num drugstore de propriedade de um grego em Nova York. Os próprios antepassados eruditos de Henderson distinguiram-se não só como embaixadores em Paris e Londres como também por seus ensaios cultíssimos sobre a seita dos albigenses, que acreditavam, durante a Idade Média, no sul da França, na luta entre a luz e as trevas.
São os escassos indícios que Saul Bellow asperge aqui e ali em seu livro múltiplo e fascinante para indicar ao leitor que se trata, no fundo, de uma devastadora alegoria mística que ele traça da alma americana. Como os albigenses, Henderson acredita, por intuição e sem nunca ter lido sobre esse "bando de hereges", que o mundo está aprisionado nas malhas de Satanás. Os seres humanos, tangidos pelo Demônio, encarnam-se em animais num ciclo de reencarnações que só pode ser quebrado quando nos convertemos a Cristo e encontramos um semelhante que seja cátaros, isto é puro de alma, corpo, mente e espírito, mesmo que tivéssemos vivido em pecado até então.
Possivelmente não existe uma única alusão nesta Via Crucis torturante que é Henderson, the Rain King que não seja originada da Bíblia, de outras religiões, da literatura ou da filosofia, o variado pano oculto sobre o qual Saul Bellow coloca seus personagens. O diálogo mais trivial, como a briga entre Henderson e sua segunda e bondosa mulher, Lily (um disfarce em si pois Lilly significa lírio, o símbolo supremo da pureza para as religiões da India) tem dobras mais profundas não aparentes à primeira vista. Uma disputa sobre sujeira e falta de banho esconde um debate religioso: os porcos da minha fazenda são mais limpos que você, aliás, a falta de higiene pessoal ou animal pouco importa tudo é feito à imagem do mundo que é corrupto e imundo. Sim, mas tudo se transforma. Mesmo assim nenhum indivíduo pode passar por todos os estágios do ciclo de nitrogênio. Mas você sabia que o amor pode?
Henderson manda que ela cale a boca. Afinal, ele recebera uma alta condecoração durante a Segunda Guerra Mundial no araque aliado a Monte Cassino, era um veterano que ostentava a distinção da Purple Hear por bravura. De que adiantava? A estufa estava invadida pelas ervas daninhas e porcos e leitões fuçavam entre as raízes, derrubando estátuas antigas compradas em Florença e em Salzburgo. Henderson se sente condenado como Nabucodonosor pelo profeta Daniel: os porcos o expulsarão do convívio humano e ele será forçado a morar entre as bestas do campo.
Saul Bellow utiliza um recurso frequente em Sterne, o insuperável humorista criador de my uncle Toby (meu tio Toby): experimenta três formas diferentes de iniciar uma explicação para ver qual esclarece melhor o leitor sobre sua situação porque ele veio parar no coração mais remoto e primitivo da África negra. Por que seus antepassados enriqueceram através da astúcia e do roubo, matando índios, importando escravos e se apoderando das riquezas da terra? Ou por que seu pai tocava violino? Ou tudo aconteceu como se fosse um sonho ou um desígnio inescrutável de Deus? A verdade é que ele, aos cinquenta e cinco anos de idade, divorciado da primeira mulher, brigado com o mundo e atormentado por uma voz interior e insaciável que lhe dizia incessantemente "eu quero!" viera parar ali, em plena África dos safaris, das tribos com rituais exóticos, das terras áridas, da natureza esplêndida, dos nativos nus e intocados pela civilização.
Ferino, Saul Bellow aproveita para rir obliquamente da África super masculina, viril e feita de papel de cartolina ou vista através de uma óptica superficial como a África de Hemingway em The Snows of Kilimanjaro (As neves de Kilimanjaro) ou a África estereotipa como "primitiva, sem civilização, inculta" segundo sua imagem imposta pelo racismo branco e míope, incapaz de vislumbrar traços de qualquer cultura que não seja ocidental, brutal, colonialista, capitalista, marxista, tecnocrática, quantitativa, visceralmente materialista e limitada. Ou bornée, como o próprio Saul Bellow gostaria de dizer, usando frequentemente termos em francês imbécile, com sua pronúncia figurada em inglês Ahm-bay-seel, soa muito mais forte?...)
Henderson é um descendente indireto de Rousseau, mas talvez um filho bastardo do philosophe suíço. Porque os nativos que ele encontra a princípio são bons, não poluídos ainda pela cupidez do homem branco e seus inventos mortíferos. Mas há outra tribo, a dos Wairiri, que é povoada por "filhos das trevas", selvagens cruéis e supersticiosos. Ele se sente como quem entra pelo passado adentro da humanidade, um passado sem o estorvo da História, sem o trambolho de automóveis, banhos quentes, ar condicionado, televisão ele volta à origem do ser humano antes do massacre dos índios pelos conquistadores, antes da escravidão, antes do revólver, do canhão e da roda. Como Jó, ele se despoja de todos os seus pertences inúteis naquele deserto, guiado por um nativo metodista, Romilayu. "A pobreza de seus recursos naturais os nativos vegetarianos, que adoram suas vacas, opõem uma riqueza inacreditável de linguagem para descrever os tipos de chifres que existem e os mil modos de expressão do rosto do gado ou do comportamento instável das vacas nos campos. Mas a seca que assola o minúsculo povoado se estende por muitas milhas, trazendo a fome e a desgraça para todos. Não bastava o deserto para expulsar o demônio do corpo e da alma daquele peregrino espiritual que se interroga continuamente: "Quem sou eu? e por que tenho esta fome de não sei o quê? Ele quer ser útil, quer transcender seu suicida egoísmo".
A partir do contato do milionário de Connecticut com os valores africanos imemoriais o livro como que pulsa com uma tensão de coração ao ritmo dos tambores. E cresce de dimensão metafísica. É preciso agir. segreda-lhe toda a tradição ocidental e norte-americana de que a ação, pragmática, lógica, resolve Frases hilariantes servem de apoio para sua crença inabalável na mudança se os nativos não podem beber a água do reservatório porque sua religião os proíbe de tocar qualquer líquido habitado por seres vivos - as centenas de sapos que se apoderaram da represa primitiva - por que não mudar esses costume ancestral, se ele não funciona em termos práticos? Ele diz ao príncipe que fala um inglês africano maravilhosamente reproduzido em sua incorreção gramatical e de vocabulário: "Sabe por que os judeus foram derrotados pelos romanos? Porque se recusavam a lutar aos sábados!" A rainha do lugar tem tanta banha no corpo obeso que suas ancas debaixo das vestes régias esvoaçantes eram tão largas quanto um sofá. Sua gordura excessiva é sem importância, ou melhor. é um sinal de realeza. Afinal, a rainha era uma Bittahe aqui o autor faz outro trocadinho delicioso com a pronúncia afro-britânica da palavra better, que em inglês quer dizer melhor, superior, intrinsecamente aristocrático, mas de uma aristocracia da alma, não imposta pela tirania social. Ela, de acordo com o poeta Whitman, era uma pessoa que era plenamente, ao passo que ele e a maioria da humanidade engrossavam meramente a categoria inferior dos que estão se tornando estão em mutação e metamorfose constantes pela arrogância fátua do homem branco, Henderson depara com uma sabedoria transcendental e sente que a sua própria alma era apenas uma espécie de loja de penhor cheia de prazeres não resgatados como velhos clarinetes, máquinas fotográficas e peles caras roídas pelas traças. Seu coração, os sábios "primitivos" decifram, está latindo, ganindo de frenesi e angústia, com todas as suas fibras vibrando para ser em vez de tornar-se. Seria uma praga herdada de seus ancestrais que fabricavam salsichas e se tornaram os capitalistas mais inescrupulosos da América?
Henderson é o símbolo da angústia humana mais profunda e que os nativos chamam de grun-tu-molani o homem quer viver no sentido espiritual e atemporal da palavra, não sobreviver em meio aos escombros dos cemitérios de automóveis ou nas guerras, na manipulação das bombas atômicas ou nas hecatombes de Auschwitz a Hiroshima. Porque o mundo chegou à tristíssima condição em que está hoje ele se decidiu fazer alguma coisa. E sub-repticiamente Bellow insere uma frase de Einstein quando o grande físico defendeu a indissolubilidade da ciência e da ética, do comportamento humano e do respeito pelo seu próximo. "Deus não joga dados com nossas almas", ou, em seus próprios termos, "O caos não é quem dirige todo o espetáculo, não!"
O caminho da redenção de Henderson começou. O matiz de uma cor da parede quando a luz do sol nascente bate sobre ela o envolve como uma forma de magnificência sobre-humana, uma espécie de calafrio ou arrepio da matéria transfigurada pelo além da matéria.
Possivelmente a literatura norte-americana, com toda a sua variedade, não possui páginas místicas mais incendiárias do que as dos três quartos finais deste livro em que ressoam diálogos metafísicos e citações de oratórios de Haendel ou do Miserere da Missa da Coroação de Mozart.
A África é o desafio vital de cada indivíduo, a strada oscura que ele, como Dante a visitar o inferno guiado pela sabedoria virgiliana do nativo sábio, percorre. É o rei Dahfu, tão eloquente em sua grandeza quanto um Rei Salomão e que, estudando na biblioteca de uma cidade longínqua, onde trabalhava como porteiro, conhece os textos de Sócrates, de Platão, do Evangelho. É ele quem proporciona a Henderson a resposta para a sua pergunta que o consumia literalmente.
Seria estragar para o leitor desvendar o desfecho desse labirinto em que Henderson, espelho de Todos-Nós, enfrenta inimigos poderosíssimos, torna-se o Rei da Chuva em luta com os ídolos gigantescos, potestades das nuvens, dos vapores, dos ventos. A literatura norte-americana tem um seguimento inesperado, em que seu tortuoso percurso de Melville a Faulkner, passando pelo Salinger de The Catcher in the Rye e pelo Heaven's my Destination de Thornton Wilder, com a revelação deste Outro Americano, nobre, idealista, altruísta, em tudo oposto aos Babbits do big business antiético. Henderson é um momento de grandeza suprema da apreensão do trágico e do farsesco mesclado a um misticismo que não deixa nunca que o caos, mas sim que um sentido transcendente, de significado ao circo povoado pela trupe humana.
Reuso
Citação
@incollection{gilson_ribeiro2023,
author = {Gilson Ribeiro, Leo},
editor = {Rey Puente, Fernando},
title = {A saga tragicômica de um americano nada tranquilo.},
booktitle = {A Literatura Norte-Americana},
series = {Textos Reunidos de Leo Gilson Ribeiro},
volume = {13},
date = {2024},
url = {https://www.leogilsonribeiro.com.br/volume-13/18-saul-bellow/02-a-saga-tragicomica-de-um-americano-nada-tranquilo.html},
doi = {10.5281/zenodo.8368806},
langid = {pt-BR},
abstract = {Jornal da Tarde, 1978/05/06.}
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