Dez anos sem John dos Passos: um vazio de lucidez

Autor

Leo Gilson Ribeiro

Resumo
Jornal da Tarde, 1980/09/27.

A Primeira Guerra Mundial foi o clássico estampido de um canhão em meio a uma festa alegre e despreocupada. Para os Estados Unidos, convalescentes da Guerra de Secessão e da tomada, pela força de metade do território do México, era um legítimo batismo de fogo e o início do desmoronamento dos sagrados altares do American way of life.

"A Guerra dobrava seus sinos para os mortos nas trincheiras e seus ecos logo ressoaram deste lado do Atlântico, fazendo tremer as torres de martim dos estetas divorciados do mundo em seu culto iniciático da arte pela arte. Pela primeira vez, a Guerra, agora internacional, deixara órfã toda uma geração norte-americana a lost generation, perdida porque perdera seus álibis existenciais e estava à deriva, em busca de um propósito transcendente. Scott Fitzgerald relutava em admitir seu isolamento tendo de defrontar-se com a loucura crescente da esposa Zelda e com o alcoolismo crescente, tentava inutilmente manter a vida fútil de um esteta talentoso, a oscilar pendularmente entre os cassinos e praia milionárias da Côte d'Azur do Sul da França e os contos comerciais, de final feliz, que lhe rendiam milhares de dólares quando vendidos às revistas dirigidas aos leitores que não queriam ver suas crenças e seus mitos abalados. Seott Fitzgerald pressentira que por detrás da voz anasalada e "cheirando a dinheiro" dos ricos havia a indiferença humana, o distanciamento do "resto" da sociedade trabalhadora e vulgar. Incapaz de conciliar sua própria visão trágica da solidão do indivíduo sensível com os requisitos mercenários e imediatistas do best seller e dos estúdios comerciais e coloridos de Hollywood, ele entrou no parafuso final da sua crise com um maço de romances desiguais e sem uma segunda chance: na vida dos escritores americanos, ele vaticinava, não há um segundo ato.

Ernest Hemingway era de fibra mais robusta: buscava nos humildes de Cuba, da Espanha, da Itália, da França aquele heroísmo cotidiano de sobreviver e se encharcava de um sentimentalismo sufocado pelo álcool para responder com um estoicismo machista ao sofrimento alheio. Em Adeus às Armas, o suicídio no rio Arno, em Florença, significa o armistício honroso para um indivíduo – o heroísmo é sempre, com um toque de bravata, a melhor resposta para o sofrimento, seja na arena de areia respingada de sangue humano e do touro, seja na caçada africana no Quênia ou na rivalidade mortal entre o desarmado pescador cubano e o peixe descomunal que o desafiava, nos mares do Caribe.

John dos Passos (1896-1970) foi o único a comprometer-se explicitamente com a causa política em busca de uma maneira de viver mais digna do ser humano. Filho de pai português, imigrante paupérrimo que se alçara ao mais alto renome como advogado criminalista e se fizera amigo de presidentes da República, desde 1912, quando já se pressentia a guerra que estouraria daí a dois anos, ele buscava toda uma base intelectual capaz de servir-lhe como fundamento para a literatura que esperava escrever, seguindo o conselho de Balzac e incorporando alguns milhares de Indivíduos para retratar toda uma época e toda a Nação. Na revista literária da aristocrática Universidade de Harvard, para onde entrou, ele criticava o "imagismo" poético de Amy Lowell, Ezra Pound e T. S. Eliot como algo polarmente frio, sem vida diante do dinamismo da vida injusta que pulsava em torno àquela ilha imaginária de bem-pensantes filhos da Grécia Antiga dispostos a captar os matizes e sons da Natureza em imagens impressionistas, usando as palavras como Pissarro ou Manet usavam as cores num quadro. Ele não chegava no extremo de solidarizar-se com Theodore Dreiser e sua denúncia minuciosa, candente, do capitalismo embrutecedor dos que se apossavam de fortunas ilícitas no mundo da corrupção e adoração do dólar acima de todas as coisas. Mas suas leituras equilibravam-se entre as teorias de um economista inimigo do capitalismo como Thorstein Vebler e sua Teoria da Classe Abastada, Os Engenheiros e o Sistema de Preços Instituído e os livros de James Joyce, que lhe serviram, sub-repticiamente, de modelo: Retrato do Artista Quando Jovem, The Dubliners e Ulisses. Seu naturalismo o aproxima de um Zola mais ambicioso e como que imbuído do espírito do Futurismo de um Marinetti, que queria celebrar a arte das chaminés, da grande cidade, o ritmo febril das fábricas e o estouro dos canhões. Para fugir dos filisteus infensos à beleza da Arte e corrompidos no seu sonho americano de liberdade e democracia, ele se oferece como voluntário para dirigir ambulâncias na França, no "front" de guerra. Três Soldados é a matriz remota de todos os romances veementemente antimilitaristas da literatura norte-americana, chegando sua influência a autores tão diferentes como James Jones e A um Passo da Eternidade no Pacífico, ou a Os Nus e Os Mortos e as dissenções internas dos oficiais enlouquecidos pela luta contra os japoneses em Guadalcanal, de Norman Mailer, e a visão surrealista da guerra como uma trapalhada dirigida por imbecis incompetentes como nas farsas de humor negro de Kurt Vonnegut Jr.

No entanto, desde cedo, a frustração completa parece selar o destino desses três soldados: um contrai uma grave doença venérea, intratável naquele tempo anterior à descoberta da penicilina; outro corrói-se numa mediocridade amarfanhante e suicida; o último, que compunha uma sinfonia elegíaca para a rainha de Sabá, inspirada em Flaubert, é perseguido pela selvageria da Polícia Militar e suas notas e partituras se dispersam ao vento, com botas e cassetetes em seu encalço. O soldado desertor é encarcerado, com toda a sua rapsódia musical perdida, porque antevira, como porta-voz do próprio John dos Passos, a desumanização esmagadora de todas as organizações excessivamente grandes como a Igreja, o Exército, a Grande Indústria, que se apoderam do indivíduo, criando um círculo vicioso de opressão das massas e libertação sucessivamente.

Distanciado do pai, sempre imerso em causas legais de ressonância nacional, John dos Passos permanece na Espanha, como alter ego da sua própria personalidade. Durante toda a sua vida literária, buscará a Península Ibérica como volta às origens étnicas, já que não se sentia "aceito" totalmente pela massa dominante de anglo-saxões protestantes, a aristocracia das famílias antigas ou endinheiradas que o considerava exótico. Por isso ele monta o cavalo de Cervantes em D. Quixote no livro Rosinante to the Road Again e assume, tipicamente, o nome de Telêmaco, o herói clássico que busca o pai distante. Na Espanha, exerceria sobre ele uma profunda influência o romancista prolífico espanhol Pio Baroja, adorador das massas anônimas, às quais atribuía "tudo que existe de valor em qualquer país" e um censor inflexível do status quo, que apenas reflete a maldade pétrea das classes dominantes que o instituíram, conforme ensinava.

A Espanha é também o cenário de um domínio econômico que ele lamenta não pela transição em si de uma sociedade agrária para uma sociedade industrial: como Stefan Zweig, dos Passos deplora que a linha de montagem dos carros instituída por Henry Ford e os arranha-céus de Chicago passem a ser a única norma estabelecida mundialmente, o mundo castrado em suas culturas autóctones pela homogeneidade imposta pelo big business. 1936, a data da eclosão da Guerra Civil Espanhola, lhe parece a bifurcação entre um aut aut kierkegaardiano, como na carta-advertência que manda para Scott Fitzgerald: ou o artista se compromete com as ideias e teorias da Esquerda, relegando o indivíduo a um plano secundário, relatando a história de movimentos sociais e políticos, ou o artista sucumbirá às forças desumanizantes que é preciso combater até com armas tão inesperadas quanto as da máquina de escrever. E aconselha Scott Fitzgerald a aceitar um trabalho de repórter ou de correspondente para contribuir para aquele momento da "conflagração geral".

1936 seria um ano crucial não só para se "ensaiar" a II Guerra Mundial impunemente em solo espanhol, com o bombardeio de uma cidade indefesa, Guernica, por aviões alemães, como prelúdio do bombardeio de Hiroshima por aviões americanos que carregavam a bomba atômica. 1936 revelaria a John dos Passos como a George Orwell em sua Homenagem à Catalunha que não só em tempos de paz o capitalismo selvagem usava os seres humanos e extraía deles tudo que pudessem dar para a Grande Máquina do Lucro das Empresas Gigantescas: havia outras instituições que, se necessário, se revelariam, no momento preciso, tão assassinas e maquinais quanto o pior Henry Ford: os comunistas stalinistas, dispostos a "liderarem" os mínimos detalhes da luta contra o fascismo franquista e a aniquila - os trotskistas e os anarquistas espanhóis como, em nossa época, ficou amplamente documentado por Jorge Semprun em A Autobiografia de Federico Sánchez. John dos Passos já se tinha aproximado dos comunistas, nos EUA, e até votado a favor de um candidato proposto pelo Partido Comunista norte-americano. Já observara com que desfaçatez insensível os comunistas massacravam líderes de greves mineiras ou retiravam seu apoio aos trabalhadores socialistas em Viena, tudo seguindo misteriosas e nunca questionadas "diretrizes lá de cima", da cúpula inacessível do Partido. E seu espírito rebelde e irrequieto se recusava a trocar uma escravidão, a do capitalismo sem escrúpulos, pela escravidão do totalitarismo comunista soviético. Cessaram daí por diante suas colaborações para o jornal The New Masses (As Novas Massas) publicado pelo PC em Nova York. Nenhum ideário preestabelecido lhe serviria mais de referencial, nada era indiscutível a priori: John dos Passos seguiria uma carreira solitária em sua denúncia dos dois males simultâneos: a exploração do povo pelo capitalismo auxiliado pelo governo e pelas Forças Armadas, e a exploração do povo pelos sistemas comunistas de planejamento centralizado, apoiada pela polícia secreta e pelo Exército vermelho. Ele permaneceria voluntariamente o marginal, o outsider, o drop-out.

Quase que imperceptivelmente, dos Passos, de um livro ao outro, passa de uma descrença nas instituições, inclusive as comunistas, a uma descrença nas possibilidades humanas, vencidas pela inércia, pelo comodismo, pela falta crassa de ambições ou de ideais. Manhattan Transfer não é apenas um bilhete de metrô para se sair de Nova York: é a falta de raízes de um jovem que deseja sair "de uma existência miserável numa cidade epilética" mas não tem para onde ir, sozinho e alucinado no meio da noite inóspita. A ganância, as cartas marcadas, os rituais de repartição dos bens apenas entre os corruptos e espiritualmente mortos superavam a teoria marxista da guerra de classes: a esta se antepunha uma guerra de escrúpulos, a ausência de um fundamento moral para a convivência entre seres humanos.

Não valia então a pena viver por causa alguma, se tudo se revelava podre à primeira vista? Não: era preciso defender a liberdade de opinião onde quer que ela se manifestasse: numa greve de mineiros. no Estado de Kentucky como na defesa dos dois imigrantes anarquistas italianos Sacco e Vanzetti e na administração das finanças do Comitê Nacional em Prol da Defesa dos Prisioneiros Políticos. É neste ponto que o autor passa por nova transformação irreparável. Vários intelectuais norte-americanos como ele, Dorothy Parker, a poetisa Edna St. Vincent Millay e outros tinham chegado ao sacrifício de passar uma noite na cadeira advogando os direitos dos anarquistas de terem as opiniões que escolhessem, mas o veredito massacrou-os, enviando para a cadeira elétrica os dois acusados. Para o escritor, era a ruptura decisiva entre as duas Nações: "Fomos batidos a pauladas e expulsos das ruas... eles são mais fortes... são mais ricos..." A América tinha sido pervertida pelos Babbitts hipócritas que conspurcavam a herança democrática de um Jefferson ou de um Lincoln. E com o estilo cru de um naturalista ele descreve num romance a simultaneidade das duas Nações: enquanto na terra um jovem desesperado morre de fome, sobre sua cabeça um avião prateado leva homens de negócio em voo, um dos quais acabou de vomitar a refeição que lhe deram a bordo.

U.S.A. já torna evidente, pela amplidão do título, a ambição do novelista de captar numa trilogia gigantesca os milhares de componentes de um país tão variado quanto os Estados Unidos. Esse tríptico abrange três livros: Paralelo 42 (1930), 1919 (publicado em 1932) e Dinheiro Graúdo (1936). Como em Dr. Jivago ou em Guerra e Paz é necessário quase ter-se à mão um elenco preciso das centenas de personagens que fazem sua breve aparição num capítulo, submergem por dezenas de páginas e reaparecem, por longo período ou fragmentariamente, em outros. Quase tão longa quanto as 4.000 páginas de Em Busca do Tempo Perdido, de Proust, essa trilogia hoje em dia é de difícil leitura. Estilisticamente, dos Passos introduz angulações novas: usa a técnica visual emprestada de artes afins para focalizar a grande megalópole: suas cores são reproduzidas com as grossas manchas de tinta de uma pintura impressionista francesa, o dinamismo da vida na metrópole é focalizado como uma técnica cinematográfica derivada diretamente do diretor de Hollywood, Griffith. O leitor observa simultaneamente as vidas de vários personagens, com o impacto de uma câmara que se deslocasse com velocidade assombrosa, produzindo uma visão cubista de uma mesma pessoa ou paisagem focalizada ao mesmo tempo de vários pontos de vista, cada elemento influenciando o próximo como numa composição química. Além da narração em prosa, dos Passos inova com o recurso ao que ele chama de "Newsreels", uma mistura de manchetes de jornais da época, para situar o leitor no tempo, com índices da Bolsa, letras de canções populares, breves comunicados oficiais reproduzidos pela imprensa etc. De repente, o texto é interrompido para dar lugar a uma biografia curta seja de uma artista como Isadora Duncan ou de um ídolo das telas como Rodolfo Valentino, seja de um político como o presidente Wilson, criador da Liga das Nações, seja do grande banqueiro J.P. Morgan. Ocasionalmente as biografias descem do esplendor de um inventor como Edison ou os irmãos Wright a vidas humildes de proletários anônimos. A Inovação mais revolucionária, porém, em parte reminiscente do stream of consciousness, a livre associação de ideias e recordações dos personagens de James Joyce em Ulisses, é denominada de Camera Eye: é um artifício, uma pausa para o autor evocar cenas do passado num estilo staccato, sem conexões entre uma frase e outra, como se a memória registrasse, sem intervenção da lógica, o que viu e guardou com toda a sua carga de nostalgia e de emoção. Vista 10 anos depois da morte de seu autor, a obra de John dos Passos sugere uma violenta litania pela morte de todos os ideais. Não é o lugar-comum de reconhecer que o poder em si corrompe as melhores intenções: é o reconhecimento prematuro, que fora antevisto já na adolescência, de que não há vitórias finais. Os que são pisoteados defrontam-se com exploradores espiritualmente mortos, os que se prostituíram em prol de segurança econômica e status corromperam-se totalmente, para todos a vida é uma frustração sem saída.

Mas, se enquanto vislumbrava na Esquerda uma saída melhor, Dos Passos era saudado pelos comunistas da revista New Masses como um "camarada revolucionário" e elogiado por Sartre, que o compara, exageradamente, a Kafka, Stendhal, Proust e Faulkner, logo a verificação de que a supremacia assumida pelos comunistas é talvez pior do que o capitalismo predatório o aliena dos círculos tido como "engajados". Mais e mais dos Passos exclama claramente que 1945 foi o ano da derrota dos Aliados, que não souberam conter o apetite geriátrico de Stálin, naquelas reuniões de velhos em Yalta e Potsdam com Roosevelt e Churchill: foi em 1945 que a América não soube ou não se importou em proteger da subjugação stalinista toda a Europa Central, da Polônia à Alemanha bipartida, foi em 1945 que se alicerçou a força militar e econômica que permite hoje à União Soviética sonhar com o domínio mundial, de Cuba ao Vietnā, da Etiópia ao Afeganistão.

A Esquerda predominante, das patrulhas ideológicas onipresentes, lançou rapidamente um véu de silêncio e um monte de poeira sobre os autores que viram claramente a luta pelo poder por parte dos russos: dos Passos, tanto quanto Ignazio Silone na Itália, de George Orwell na Inglaterra e Albert Camus na França foram submetidos a um exílio forçado, suas obras não foram republicadas, não se falou mais em suas denúncias. No caso de John dos Passos, o seu barômetro político voltou-se, mais e mais, para os valores fundamentais dos Fundadores da Independência norte-americana: Jefferson, principalmente, e sua radicação profunda naquele paradoxo indescritível que era a visão aristocrática da democracia: cada ser humano deveria ser elevado às benesses da educação, da cultura, da liberdade, da igualdade de direitos perante a lei, da intocabilidade dos seus direitos individuais diante do Estado. O que resta de digno, de bom, de consistente na ampla galeria de dos Passos é, quantitativamente, pouco. Porque mais do que qualquer outra característica a sua é a da honestidade diante de tudo, a sua é uma atitude ética diante da vida, sem escamotear a verdade, sem aliar-se às inverdades da grei manipulada pelo capitalismo ou pelos comunistas. Quem lê ou relê seus livros sai com a impressão nítida de que quem negou a princípio os valores individuais, da metade da vida em diante reconheceu no juízo moral individual o parâmetro para todas as decisões, das mais comezinhas às mais cruciais.

Desiludido dos "paraísos comunistas", criados pelo terror e pela força, ele concordaria com Ibsen ao declarar que: "Não é possível reformar as massas sem antes reformar os indivíduos que a compõem". Ao lado de sua extensa e atormentada criação literária, John dos Passos documentou-se longamente para escrever uma História de Por-tugal e no início da década de 60 veio ao Brasil colher material para seu futuro livro, Brazil on the Move. 'No terraço do Hotel Glória, no Rio de Janeiro, onde ele me recebeu para uma entrevista subsequentemente publicada na revista Senhor, seu olhar era melancólico, contemplando o aterro do Flamengo. Recordava com saudade os enormes aviões Catalina, anfíbios, que vira ainda funcionando em Manaus e que lhe recordavam os tempos da II Guerra Mundial. Demonstrava uma preocupação intensa por um assunto que no Brasil ainda era desconhecido: os dissidentes soviéticos como Daniel e Sinyavsky e um surpreendente desinteresse pela literatura. A reportagem sobre Brasília recém-inaugurada, construída com material transportado de avião, parecia-lhe a documentação de um sonho absurdo digno de uma novela exemplar de Cervantes. Queria saber se era o povo brasileiro quem financiava aquele dispendioso culto da personalidade Juscelino Kubitschek. Falava de Brasília como de uma cidade cheia de acnes de crescimento, esquerda, sem jeito ainda entre as cidades mais antigas do Brasil. A sátira feroz ou os momentos raros de sentimentalismo que marcavam seus romances, meditações e petições, diatribes e abjurações estavam ausentes, agora, de suas preocupações. Ele voltara a colaborar para a revista Life e não insistia na sua própria importância como revolucionador da técnica narrativa norte-americana. Confessava que pusera de lado várias vezes o Ulisses de Joyce, "ilegível a ponto de despertar sonolência". Calava-se, fechando-se em longos silêncios, sobre o significado dos seus livros, das suas aspirações ainda vivas ou já abandonadas. Só sorriu vagamente quando a palavra "desilusão" lhe veio aos lábios: "É possível que muitos me tenham abandonado como um autor de importância admitiu bruscamente. Você sabe, hoje tudo está rotulado como num grande magazine do tipo Blooming-dale's, cada indivíduo com sua especificação e sua tonalidade e tendências claramente definidas. Quem muda de opinião é considerado um renegado e esquecido".

Fora da área volátil das emoções e dogmas políticos, o vasto painel de John dos Passos esteve longamente obscurecido por critérios de qualidade literária que erigiam Henry James, com sua elegância, sua perscrutação psicológica, sua audácia estilística e de escolha de temas, do sobrenatural ao feminismo, do político ao social, como o supremo representante das letras norte-americanas antes do aparecimento de Faulkner. John dos Passos parecia tosco e ingênuo diante do Grande Mestre que se autoexilara da "vulgar e prosaica América" na Inglaterra, na França, na Itália, nas "nações civilizadas".

Moralista como Henry James, mas à sua maneira, contudo, John dos Passos, dez anos após a sua morte, não se tornou meramente um cadáver literário periodicamente exumado para autópsias de avaliação. É preciso reconhecer, sem partidarismo, que sua trilogia, U.S.A., mesmo com seus defeitos de extensão excessiva e pletora de personagens desnecessários, é um clássico para todos os que se autoquestionam moralmente e que propõem mudanças na divisão do poder, reconhecendo num doloroso a posteriori os perigos para a sobrevivência da Humanidade que o poder absoluto, colocado nas mãos de um Hitler, de um Nixon, de um Stálin, acarreta. Mas hoje como ontem, objetivamente, sua voz encontraria eco, lúcida em meio à cacofonia demagógica deste final do século XX?

Reuso

Citação

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Por favor, cite este trabalho como:
Gilson Ribeiro, Leo. 2024. “Dez anos sem John dos Passos: um vazio de lucidez .” In A Literatura Norte-Americana, edited by Fernando Rey Puente, vol. 13. Textos Reunidos de Leo Gilson Ribeiro. Jornal da Tarde. https://doi.org/10.5281/zenodo.8368806.