O terrível futuro de Bradbury (resenha do livro Uma sombra passou por aqui)
Com o inquietante Homem Ilustrado, Ray Bradbury culmina sua série de contos de ficção científica, elevando-os a um novo nível: o da obra-prima desse moderno gênero literário. Se em Fahrenheit, No País de Outubro ele investigara as possibilidades de um totalitarismo cultural destruidor dos livros da humanidade ou a pesquisa de mundos planetários do futuro, nesta coletânea Bradbury alia novos elementos à sua fantasia característica. Anteriormente, o escritor norte-americano disputava como que uma corrida de imaginação com Isaac Asimov, Arthur Clarke, Howard Lovecraft ou o tcheco Josef Nesvadba. Com este último volume traduzido no Brasil, Bradbury traz também uma preocupação nova com o estilo. E dá à sua imaginação a categoria de uma meditação filosófica sobre a condição espiritual do homem, sobre o valor ético da nossa civilização espacial-eletrônica-tecnológica. Não há nada de gratuito, nem de qualquer propósito de espantar o leitor meramente com as possibilidades de um futuro investigado pela ficção e concretizado já nas nossas telas de televisão com imagens da descida do homem na Lua. Ao contrário: Uma Sombra Passou por Aqui (apesar do título ridículo aproveitado do péssimo filme inspirado em O Homem Ilustrado) é mais uma espécie de Diário que Bradbury abre ao leitor, um Diário que registra suas dúvidas, seu lirismo, sua melancolia e seu profundo misticismo, sua inabalável religiosidade. Em “Caleidoscópio” um astronauta sofre um acidente semelhante ao havido recentemente com os tripulantes da Apolo 13: um meteoro atinge sua nave espacial e lentamente corta seu corpo em pedaços, "como um sombrio e invisível açougueiro". No seu diálogo final com outros companheiros do espaço, através das estrelas, o moribundo conversa com o Capitão, que ruma em direção à Lua, com Stone, no enxame de meteoros, com Applegate, em direção a Plutão "e todos os demais, os cacos de um caleidoscópio que durante tanto tempo formara uma configuração pensante, (e que agora) se espalhavam m todas as direções ". Sabendo que vai consumir-se incendiando no espaço, ele examina sua vida e tenta desesperadamente encontrar uma forma de praticar uma boa ação, uma ação que resulte benéfica para qualquer ser humano. Ele cai rapidamente no vazio sideral, "apenas desejando fazer algo de bom, agora que tudo desaparecera, uma boa ação que ele apenas conhecesse". Um garotinho, na Terra, numa estrada do interior, vê no céu seu corpo minúsculo tombando e chama a atenção da mãe: "Olhe, Mãe, olhe: Uma estrela cadente!"
E enquanto aquela "ardente estrela branca cortava o céu noturno de Illinois", esse astronauta obscuro, morto no espaço como o cosmonauta russo Komarov, consegue seu desejo final de ser útil a um seu semelhante.
É quando a mãe do menino lhe diz: "Faça um pedido! Peça uma coisa!" A estrela cadente humana preenche uma supersticiosa ilusão humana. Ou a morte no espaço serve como sacrifício, perante um Deus desconhecido, para que se cumpra o pedido de uma criança na Terra?
Em "O Foguetista", o fascínio pelo espaço é duplamente sinistro: causa a morte de um astronauta cuja nave é absorvida pelo sol e a modificação de sua família. Aquele pai e marido não resistia por mais de três meses à tentação do espaço distante. A mulher e o filho, sob o impacto daquele "sol grande, ígneo, inexorável, que estava sempre no céu" passa a viver à noite: "tomávamos o café à meia-noite, almoçávamos às três da manhã e jantávamos no frio das seis horas da manhã. Assistíamos a espetáculos que duravam toda a noite e íamos para a cama ao anoitecer". O sol; símbolo da morte do homem que durante anos a família considerara semimorto, pelas suas longas ausências causadas pela saudade que tinha dos astros frios no firmamento, o sol tornara-se um inimigo implacável, que só conseguiam evitar transtornando seus horários e saindo de casa nos raros dias em que chovia e o sol assassino se tornara invisível. O tema obsessivo do Espaço - que lança países, cientistas e povos numa escalada de arrogância científica – para Bradbury é um prolongamento exótico, desconhecido, da tragédia, do lirismo, da inquietação e da angústia dos seres humanos inadaptados aos astros como são inadaptados à Terra. O homem, sob o disfarce de um uniforme astronáutico, meramente transfere sua pompa e sua mesquinhez para novas dimensões siderais: seu coração é o mesmo, acanhado, cruel, altivo, indiferente, incrédulo, pequeno, São raros os momentos humanos de humildade nas visitas de terráqueos às galáxias remotas: o Padre Peregrine que capta intuitivamente a linguagem telepática dos globos de luz de Marte, formas desmaterializadas do espírito que paira acima da decomposição da carne e da morte pelo tempo. O Tenente Martin que crê imediatamente no Homem misterioso que passou por um planeta desconhecido pregando o amor, a paz e a justiça, como o Cristo que redimira a Terra e seus homens em sua passagem pelo Gólgota. O Capitão da nave que chega ao Marte povoado por negros exilados da Terra por racistas intolerantes, depois que a Terra foi destruída por uma guerra atômica. Só agora ele revela aos negros a verdadeira condição dos homens brancos: desamparados aprendizes de feiticeiros que vêm pedir aos negros bondosos, moralmente superiores a seus tiranos, ajuda para os sobreviventes da loucura tecnológica branca em suas cidades devastadas pela radioatividade, radioatividade, mil Hiroshimas da presunção e do ódio brancos fumegantes sobre a Terra destruída. Mas não só o Espaço preocupa e fascina Bradbury.
Em “A Raposa e a Floresta” é a futurologia na ficção que ele projeta como uma tela imensa onde se desenha o horror do futuro da humanidade.
Num século futuro, um casal tenta escapar de sua condição de escravo de uma sociedade totalitária e monstruosa que conseguiu dominar toda a Terra. Controlados por ditadores brutais e por inspetores que leem seus pensamentos, eles são fugitivos de uma sociedade dedicada a criar guerras bacteriológicas contra populações indefesas e a gerar uma revolução permanente do ódio e da destruição, da tirania e da opressão até dos cérebros de populações inteiras. Utilizam a máquina do tempo para voltar ao passado. Escolhem o México de 1938 para escapar à sua condição, tentam misturar-se com a população, não trair pelo seu aspecto nem pela sua diferença, sua origem futura. Mas um sinistro agente secreto, espião daquele sufocante regime totalitário que aguarda humanidade em 2155 os descobre em meio a uma multidão que serve de figurantes para cineastas americanos. E o casal desaparece, incapaz de fugir daquela maldição e de reintegrar-se numa sociedade humana, feita à medida dos erros e da esperança, da maldade, mas também da bondade e do idealismo de seres humanos livres. Bradbury deixa o leitor contagiado por suas visões, como se contemplasse as imagens que se agitam na pele do homem ilustrado. São visões tocadas de beleza, de poesia, de esperança aqui e ali. Mas como a visão final, do futuro individual espelhado na parte nua das costas do homem coberto de tatuagens deslumbrantes e vivas, suas visões são quase invariavelmente pessimistas. Perdida a fé, perdida a dimensão humana, quando o homem chega aos espaços vazios das galáxias e, com soberba, declara, como Gagárin, não ter encontrado Deus, a tecnologia não é um instrumento de conhecimento, nem de aperfeiçoamento, nem de esperança para a condição humana. A ciência, sem qualquer base ética, para o escritor Bradbury como para o historiador Toynbee e o filósofo Russell, é um novo instrumento de escravização do homem pelo homem, de regimes totalitários, de privação da liberdade, de afastamento das verdades simples da Fé, da Esperança e da Caridade cristas. É a mensagem melancólica, sombria, aterradora que Bradbury leu no corpo atormentado do Homem Ilustrado, cinescópio do futuro homo scientificus do século XX e séculos vindouros. Uma mensagem transmitida por uma série de contos fascinantes, múltiplos na sua variedade de belezas: ternos, reticentes, trágicos, irônicos, às vezes coloridos por uma esperança fugaz, outras perpassados de absurdo, de dor, de maldade deliberada. O leitor termina este livro com duas aquisições inesquecíveis: a da mestria de Ray Bradbury como um dos grandes autores fantásticos da literatura mundial ao lado de Kafka, de Arreola, de Cortázar, de Guimarães Rosa em Terceiras Estórias, de Júlio Verne, Aldous Huxley e H. G. Wells. E a da elevação da ficção científica (apesar dos deslizes gramaticais e de estilo da pálida tradução brasileira) a um nível nunca antes atingido: o de uma obra-prima que torna a ficção científica um gênero autónomo, filosófico e profundo na literatura da era dominada pela nova Trindade: Eletrônica, Tecnologia, Ciência. divorciadas do Espírito vivificador da Fé e do Amor em dimensões humanas.
Reuso
Citação
@incollection{gilson_ribeiro2023,
author = {Gilson Ribeiro, Leo},
editor = {Rey Puente, Fernando},
title = {O terrível futuro de Bradbury (resenha do livro *Uma sombra
passou por aqui*)},
booktitle = {A Literatura Norte-Americana},
series = {Textos Reunidos de Leo Gilson Ribeiro},
volume = {13},
date = {2024},
url = {https://www.leogilsonribeiro.com.br/volume-13/20-ray-bradbury/00-o-terrivel-futuro-de-bradbury.html},
doi = {10.5281/zenodo.8368806},
langid = {pt-BR},
abstract = {Jornal da Tarde, 1970/05/20.}
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