Um livro que consola até os 4/5 da humanidade que não comem. (Resenha do livro Os Cães Ladram – Pessoas Públicas e Lugares Privados).
É um livro ideal. Arrumado em embalagem sofisticada, é o melhor presente atrasado de fim de ano para o ricaço que tem tudo em seu iate nas Bahamas ou para a milionária bronzeada do Guarujá ávida de potins sobre os Beautiful People do jet set. Para colunistas de fofocas pseudo-cultas, à cota de plágios é um gift from heaven. Sobretudo, é uma fonte de frivolidade adorável, um éclair de chocolate com calda literária, espevitada, glamurosa e cheia de vento.
Lido entre um bocejo e outro adolescentes cansados de reivindicações universitárias, é capaz de mantê-los a par do mundo chic internacional, com itens como este de profundo esclarecimento político social: "A maioria da população do Haiti é (este é enfaticamente sublinhado) pobre".
Debaixo do secador de cabelos, mulheres colunáveis poderão saber, por exemplo, que Marlon Brando se parece com um deus ou "mais do que isto: simplesmente um rapaz empoleirado numa pilha de bombons".
Quanto aos estudantes de literatura, ficarão extasiados com a descrição do décor chez Isak Dinesen, a nobre escritora dinamarquesa:
"A Baronesa, pesando tanto quanto um punhado de penas, frágil como um bouquet de coquillage (sic), recebe visitantes em uma sala espaçosa e reluzente, salpicada de cães adormecidos (1) e aquecida por uma lareira e uma estufa de porcelana: uma sala em que ela, uma presença majestosa, saída de um de seus próprios contos góticos, se recosta em felpudas peles de lobo e tweeds britânicos, os pés calçados em botinas de pele, as pernas, finas como as coxas de um frango d'água (?!), envolvidas em meias de lá, e o pescoço, que poderia caber um anel (sic), embrulhado numa frágil echarpe lilás... o tempo reduziu-a a uma essência, como uma uva pode se conversar em passa, rosas em perfume".
Entre um bombom e outro, um jovem diplomata, em início ingênuo de carreira, certamente ficará com ar sonhador ao ler que época do ano é melhor para conhecer as ilhas gregas: “Abril é o mês ideal...campos de flores silvestres, anêmonas bravas, violetas brancas, e a água, verde como botões de primavera, tem a temperatura exata para um rápido banho vivificante...”
E esta colcha de retalhos do fútil com o kitsch envolto em bolhas de sabão e sachets perfumados e que caracteriza o tom de todas estas reminiscências, semi-entrevistas, um punhado de cartões postais enviados de alguma clínica de emagrecimento com os cumprimentos do visagista de plantão.
As feministas poderiam colocar em seus combativos cartazes de luta pela igualdade de direitos trechos inteiros destes artigos aqui reunidos e originariamente escritos para revistas "femeninas". Mademoiselle, Cosmopolitan, Harper's Bazaar, Ladies' Home Journal, Redbook acolheram em suas páginas essa palheta de merengues melosos, de eficácia comprovada para fazer adormecer os direitos femininos, prometendo, com fotos de lugares exóticos, um charme postiço capaz de transformar a mais prosaica dona de casa do Middle West numa futura Cinderela, misto de Miss América e Princesa-Bonequinha. Por enquanto, apertada entre o fogão e a cama, ela prepara o jantar para o marido de olho no horário das telenovelas e aguardando a chegada das crianças da escola para o Home Sweet Home. Essas anotações cosméticas, sem transplantes de pensamentos, delineiam com a sombra do inalcançável (Tânger, a Sicília, Atenas, a princesa Lee Radziwill) olhos burgueses, sonolentos de tédio caseiro.
Nem a decantada narração da viagem de um grupo musical norte-americano que leva a ópera de Gershwin, Porgy and Bess, à União Soviética, nem o pretenso retrato-entrevista que faz Marlon Brando parecer um débil mental com pretensões intelectuais redimem estas páginas de sua inutilidade intrínseca.
Os Cães Ladram é um livro - à falta de um terma mais adequado - em tudo oposto ao Truman Capote esplêndido e poético ficcionista em The Grass Harp, Other Voices, Other Rooms ou ao admirável revolucionário novelista jornalista de A Sangue Frio. Ao contrário, nestas reminiscências e semi-pensamentos reluz apenas o fantasma coruscante de um sorvete flambé apagado. Destas linhas se delineia tão só o brilho ocioso de pérolas próximas de abrigos de vison. Sua dúvida maior é a de saber se as pêches Melba contêm mais calorias do que a dieta emagrecedora permite ingerir. É uma perda absoluta de tempo, lê-lo e é jogar dinheiro fora meramente comprá-lo. Deve ter sido fácil escrevê-lo é só adicionar camadas de espumas a camadas nacaradas de um nada charmoso, suscetível de produzir cócegas em qualquer região distante do cérebro em mulheres que se espreguiçam entre o chá das cinco e o jantar na Tour d'Argent ou um cocktail no Copacabana.
A originalidade de Truman Capote faria delirar as leitoras de qualquer fotonovela. Elas não morreriam de excitement ao ler o perfil que o autor sulista traça de si mesmo, com frases tão sui-generis como estas?:
" - Qual é a palavra mais bela em qualquer idioma?
- Amor.
- E a mais perigosa?
- Amor."
E para apaziguar os 4/5 da humanidade que não comem no La Coupole nem fazem compras no Fauchon antes de seu incêndio recente, Truman Capote esclarece: "Não posso me lembrar de um único rico que, em termos de satisfação ou de alívio das ansiedades humanas, leve vantagem sobre o resto de nós". Essa conclusão sábia devia ser afixada nos postos de assistência do INPS e distribuída na cor ciclame shocking em volantes que sobrevoariam as favelas, mocambos, alagados e malocas do Brasil inteiro, numa cortesia da Sra. Jaqueline Onassis Kennedy e dos cartões UNICEF.
A suprema ironia, no entanto, é esta amálgama de baboseiras pontilhadas de citações em francês e italiano ser impressa entre nós pela Editora Civilização Brasileira, que sempre proclama aos quatro ventos seu engajamento social e seu afã de publicar só obras "progressistas". É como se o Pravda publicasse uma lista das "Dez capitalistas Decadentes Mais Elegantes" escolhidas por Evgeny Evtuchenko.
De forma involuntária, Os Cães Ladram é uma obra cômica. Pelo seu grotesco, pelos seus maneirismos de típico plebeu deslumbrado com o que Scott Fitzgerald chamava de "o cheiro do dinheiro" e que aqui está salpicado de um ridículo nada intencional, de pretensiosa e cansativa pose estetizante. Como sardas em um corpo indolentemente estirado numa praia privée do Mediterrâneo, cravejam o volume nomes ilustres que perpassam por ele como borboletas diáfanas e inatingíveis: Greta Garbo, Colette, Gide, Cacteau, Camus.
Aliás, não é um livro: é o ectoplasma da duquesa de Windsor, recebido em meio a uma multidão de estática, numa sessão espírito-literária falida e falaciosa.
Reuso
Citação
@incollection{gilson_ribeiro2023,
author = {Gilson Ribeiro, Leo},
editor = {Rey Puente, Fernando},
title = {Um livro que consola até os 4/5 da humanidade que não comem.
(Resenha do livro *Os Cães Ladram -\/- Pessoas Públicas e Lugares
Privados*).},
booktitle = {A Literatura Norte-Americana},
series = {Textos Reunidos de Leo Gilson Ribeiro},
volume = {13},
date = {2024},
url = {https://www.leogilsonribeiro.com.br/volume-13/22-truman-capote/02-um-livro-que-consola-ate-os-quatro-quintos-da-humanidade-que-nao-comem.html},
doi = {10.5281/zenodo.8368806},
langid = {pt-BR},
abstract = {Jornal da Tarde, 1978/01/14.}
}