William Faulkner e a exegese do Sul
Ao desenhar, de sua própria mão, o mapa do Condado de Yoknapatawha que inventara como cenário de suas novelas, Faulkner adicionara o termo de posse final: “William Faulkner, único dono e proprietário”. Transpondo assim para a escala da criação artística o mundo real de sua região natal, o Sul dos Estados Unidos, ele projetava, como Kafka, as coisas terrenas ao reino da verdade, da pureza e da eternidade. E para que esse reino da imutabilidade retivesse a pegada inconfundível do humano, o sopro e o calor da vida palpitante, ele recriou todos os elementos de uma cidade verdadeira: o rio caudaloso e languido, o cemitério, as igrejas, a estrada de ferro, os pântanos e as estradas poeirentas do interior. Para nenhum autor americano, porém, a presença do Tempo, corrente que percorre a vida dos protagonistas, as, modificando-a, teria um papel tão determinante, seria um personagem tão fundamental de uma novela que se estende por quase vinte volumes. À semelhança do mural gigantesco da obra de Proust, o Passado condiciona, no mundo de Faulkner, o Presente e o próprio Futuro. Portanto, as figuras que vivem e morrem em seus livros são os fantasmas angustiados do Passado - soldados da Guerra Civil, escravos, mestiços, negros, brancos paupérrimos, a aristocracia sulista, dona de plantações e de mansões requintadas, tarados, bêbados e escroques - todos os que urdiram o Presente ressuscitam de suas páginas e revivem suas tragédias ao mesmo tempo individuais e cósmicas. Alguns críticos americanos referem-se à atmosfera elizabetana de suas narrativas: personagens acossados pela sensualidade, pela violência, pela falta de escrúpulos, pela ganância e pela paixão desencadeada. Parece-nos porém que tanto a comparação com a tragédia grega como a referência a Webster, Ford, Kyd e Marlowe são falsas por carecerem do elemento essencial da mensagem faulkneriana: a consciência puritana da onipresença do Mal e do Pecado original. Muito mais irmanado, certamente, a Henry James e a Herman Melville, Faulkner traça, há dezenas de anos de atividade assombrosa, o mural dantesco da Culpa e da Expiação, o Crime e Castigo da única região americana que conheceu a derrota, a ocupação militar de seu território e os choques violentos dos conflitos raciais sanguinários. Seria plenamente justa, por conseguinte, a interpretação da intenção de Faulkner como sendo uma intenção de reconstituição da catástrofe da derrota e a condenação inclemente dos culpados. Não se deve, porém, deduzir apressadamente, que esse veredito seja unicamente um anátema, uma flagelação negativa e destruidora da alma sulista: toda a obra do grande novelista é animada pela luz difusa da esperança no destino futuro do Sul e da sua redenção espiritual justamente através do elemento injustiçado e contra o qual se abateu a fúria e a cupidez dos seus semelhantes: do negro, paciente e moralmente superior ao branco que o explorava, brotará o revigoramento ético do Sul, dos negros e de todos os brancos que finalmente os aceitarem como irmãos e coconstrutores do Sul moderno e do porvir. Passada a fase brutal da escravidão e do preço em sangue e em humilhação que o Sul pagou pela sua abolição, a fase atual, da integração das raças, bem-sucedida em alguns pontos e eclodindo em ferimentos e morte noutros, é como que o Purgatório após o Inferno descrito pelo intérprete máximo de sua região. Possivelmente, nenhum outro grande escritor da atualidade parte do regional para o universal com um vigor e coerência de mensagem tão profundos como o autor americano contemplado com o Prêmio Nobel de 1950. Na esplêndida frase de Herbert Read em sua saudação do escritor regional de gênio, desde Lorca até Emily Brontë, “Nada é inventado pela imaginação: a imaginação descobre o que foi criado intensamente pelo ethos de um pequeno círculo descrito sobre o círculo maior do mundo... é esta concentração do tempo infinito num local finito que produz a intensidade da grande arte.…” A arte de Faulkner reproduz, portanto, em escala regional, os arquétipos universais do humano: seus personagens, que se inserem na secular tradição literária anglo-saxônica, tipificam em sua região os arquétipos cósmicos da Ignorância, do Ódio, do Sofrimento, da Injustiça, do Amor, da Abnegação, da Concupiscência, do Arrebato, do Crime e da Redenção. O que singulariza dentre todos os autores americanos o estro de Faulkner é o seu estilo que seus inimigos consideram “prolixo e bombástico” é, no melhor dos casos, retórico e renascentista, apelando para uma intensidade declamatória veemente e verbosa. Não conhecemos, porém, uma crítica que coloque o estilo faulkneriano em sua verdadeira categoria, nem jamais vimos o adjetivo que nos parece classificá-lo melhor do que qualquer outro mencionado na crítica especializada de seu país: o barroco. Por certo, muitos outros autores do Sul - Robert Penn Warren, Eudora Welty, Carson Me Cullers, Truman Capote - têm em comum com ele os mesmos temas, a mesma explicação e justificação do Sul em toda a sua riquíssima gama artística e humana, nenhum porém, com a possível exceção de Thomas Wolfe, erige a Palavra, o Verbo por si em elemento de exorcização do Demônio Tríplice que flagela. Sul: a miséria econômica, o preconceito racial e o atraso cultural da massa da sua população. Evidentemente, o fluir do Tempo invocado pelo autor em seus livros constantemente, desfigurando rostos, apagando memórias, cancelando sepulturas e leitos de pecado e de crime, altera também substancialmente, com sua erosão ininterrupta, a fisionomia do Sul atual. Indústrias crescem em seu solo, escolas para crianças brancas e negras inauguram a coexistência racial, universidades e centros de difusão cultural eliminam gradualmente a ignorância e extirpam o preconceito. No entanto, a obra de Faulkner não se atém ao presente senão em menor escala. Nem mesmo sua elaboração interior pode ser considerada contemporânea seja de ponto de vista das influências literárias que sofreu principalmente de Joyce, de quem ele usa com abundância o monólogo interior, a livre associação emocional de imagens sem conexão lógica - seja das influências dos ensinamentos de Freud com relação aos instintos primários do homem, a libido sexual e a sanha destruidora. Ficou bem claro, contudo, que o instrumento de que ele se utiliza para escrever seu doloroso e gigantesco poema épico do Sul é arcaizante, gongórico, heroico, pomposo e complexo, de difícil compreensão para a mente moderna habituada às frases simples e «democráticas, isto é: compreensíveis a todos. Aristocrática como a cultura que brotou das minorias sulistas dominantes, a obra sulista máxima dirige-se a uma minoria intelectual, já pela complexidade de seu estilo, já pela trama simbolista e intricada de suas histórias. Suas raízes, todavia, aprofundam-se no humus mais obscuro e terreno do povo, da massa, do negro, do universalmente humano: os cidadãos do condado imaginário são a projeção artística dos cidadãos de carne e osso do Estado de Mississipi, de onde provém, há várias gerações, famílias de Faulkner. Seria evidentemente impossível divorciar o autor de sua criação: como esclarecia Kierkegaard, cada um de nós vê uma partícula da realidade total e cria a sua “verdade subjetiva”, mosaicos da Verdade Global, portanto Faulkner ao retratar os aspectos da realidade que mais impressionaram sua sensibilidade retrata também, ao mesmo tempo, além de uma região geográfica e uma paisagem da alma humana, parte de si mesmo. The Sound and the Fury, cujo título foi tomada do monólogo do Rei Lear em seu momento de mais profunda angústia, furor e solidão, reflete no personagem central, Quentin Compson, o jovem esteta sulista perturbado pela degradação ética de sua região natal. Comparada com Irmãos Karamazov e aos Buddenbroks, esta novela sintetiza, como talvez sua maior obra-prima, todo o pathos da litania faulkneriana. Na verdade, The Sound and the Fury contém elementos tanto do clima dostoievskiano quanto do relato da decadência de uma família narrada por Thomas Mann. Mas é, sem dúvida, mais do que isso, nas palavras do próprio autor é a história da “inocência perdida” e o depoimento mais intensamente pessoal que ele nos tenha legado. Cada personagem expressa-se a si mesmo, com suas peculiaridades linguísticas e atitudes perante a vida, como no Ulysses de Joyce e, como acrescenta Faulkner, a narração se faz por si mesma, sem Interferência do narrador a não ser na parte descritiva que age, como observou Van O'Connor com acerto, como “uma espécie de coro grego” que interpreta os personagens e sua tragédia. Reconhecemos pelo estilo dos diálogos e monólogos quem está sendo focalizado naquele momento nessa novela: desde o idiota Benjy, débil men-tal, até Dilsey, a negra velha que é o sustentáculo moral da família em decomposição, cada personagem tem seu linguajar característico. Exteriormente, o relato se prende ao declínio econômico e moral de uma família aristocrática orgulhosa, os Compsons que, formando uma verdadeira dinastia, governaram a cidade de Jefferson, como riquíssimos donos de plantações originários de nobres ingleses que se vieram estabelecer na América em fins de 1600. Na época do relato, perdida sua fortuna, os Compsons mergulham inexoravelmente no pântano da dissolução e da ignominia: A sra. Compson debate-se contra o Fado, procurando reter o brilho das glórias passadas, a soberba dos tempos em que era a primeira-dama do local, sua filha Candace entrega-se aos desvarios da lubricidade, seu irmão Jason torna-se um escroque sem escrúpulos e sem piedade nem amor filial, seu pai, Mr. Compson, é um advogado culto e espirituoso, mas decadente, eternamente bêbado. Quentin sente a maldição que pesa sobre sua família e carência de amor que os una entre si e cogita seriamente de suicidar-se para assim libertar-se da praga que açoita os Compsons, criando em cada um deles uma tara inextirpável. Como em todos os livros de Faulkner, porém, Quentin é o próprio Faulkner defrontando-se com o enigma do Sul, uma região em que se contrabalançam elementos díspares opostos entre si - o esplendor de uma civilização aristocrática em contraste com a crueldade mais intransigente com relação aos párias dessa sociedade feudal: os negros. Como no final de Absalom, Absalom! Faulkner é quem exclama, pela voz de Quentin, ao encerrar o relato trágico de sua família desintegrada pelo incesto, pela miscigenação, pela intolerância, pela loucura e pela vaidade: “Por que eu odeio o Sul? Eu não o odeio, não o odeio, não o odeio!” Ele repete três vezes, para dar mais intensidade ao seu grito de amor pelo Sul, o mesmo amor de um filho que se rebelasse contra a tirania de um pai demasiadamente humano, feito de um misto paradoxal de crueldade e bondade imensas, de miséria e esplendor, de ódio de amor abnegado. Toda a sua obra é, consequentemente, a exegese do Sul, a compreensão intelectual de seus erros e sobretudo a justificação do amor que ele lhe devota, expiando em sua própria consciência os crimes cometidos pela ganância e pela aridez do homem contra o homem e superando-os pelo amor mais puramente cristão pelo seu semelhante que anima a vasta galeria de autores norte-americanos.
Reuso
Citação
@incollection{gilson_ribeiro2023,
author = {Gilson Ribeiro, Leo},
editor = {Rey Puente, Fernando},
title = {William Faulkner e a exegese do Sul},
booktitle = {A Literatura Norte-Americana},
series = {Textos Reunidos de Leo Gilson Ribeiro},
volume = {13},
date = {2024},
url = {https://www.leogilsonribeiro.com.br/volume-13/11-william-faulkner/00-william-faulkner-e-a-exegese-do-sul.html},
doi = {10.5281/zenodo.8368806},
langid = {pt-BR},
abstract = {Diário de Notícias, 1962/04/29.}
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