O Urso. Um painel, uma tragédia, uma outra geografia. Tudo de Faulkner.

Autor

Leo Gilson Ribeiro

Resumo
Jornal da Tarde, 1977/06/18.

William Faulkner com o privilégio dos gênios, criou uma geografia. Os engenheiros constroem pontes e estradas, as fábricas extraem madeiras, derrubando florestas ou arrasam montanhas, extraindo minérios. O grande prosador não transforma apenas a terra: ele inventa uma paisagem própria e imutável.

Os vinte e poucos livros do excepcional escritor do Sul dos Estados Unidos demarcam uma terra fictícia, mas que vincou a literatura norte-americana mais do que qualquer outra incursão da imaginação artística. Em seu livro Absalom! Absalom!, de 1936, Faulkner desenhou o mapa dessa região com detalhes de rios, matas, aldeias e seu termo de posse: é o lendário município de Yoknapatawpha (uma alegoria do Norte do seu Estado natal de Missisippi): "Jefferson, sede do município. Area: 2.400 milhas quadradas População: Brancos 6.298; Negros 9.313. William Faulkner, Dono e Proprietário Absoluto".

A vigorosa tradução brasileira, por Hamilton Trevisan, de um dos contos longos mais representativos da psique e da majestade do talento narrativo de Faulkner - o maior escritor norte-americano, comparado com o qual Hemingway é um grandalhão superficial e inculto, John Dos Passos um ultrapassado ilegível hoje em dia confirma essa grandeza sem par. O Urso (Vertente Editora, 108 páginas, Cr$ 30,00) capta os temas centrais de Faulkner em síntese admirável e de maneira acessível. Nele estão contidos o tom rapsódico, maravilhosamente viril e vital, de uma epopeia. Porque Faulkner reúne, como único prosador dos Estados Unidos, a eloquência trágica da Grécia antiga e a noção grega de Moira, o Destino Inelutável, traçado pelos deuses, aliadas à grandeza moral da Bíblia: o matiz violento do Velho Testamento, com os sofrimentos do Povo Escolhido, seus profetas pessimistas e a condenação de Adão e Eva, banidos de um Eden perdido por sua inocência violada. O Novo Testamento também introduz uma nota pungente nessa orquestração sem igual em 200 anos de literatura norte-americana: a obsessão com o perdão e o amor ensinados inutilmente por Cristo a seus discípulos e a seus falsos seguidores, cristãos apenas da boca para fora.

É possível interpretar todo o soberbo painel humano do Sul que Faulkner traçou como uma expiação e uma denúncia plural. A expiação do pecado da escravidão aviltante do negro seguida da injustiça clamorosa da discriminação racial, da violência e da "justiça" nazista da Klu Klux Klan, a negação do voto, da escola, do emprego, do local de residência, do tratamento humanamente digno. A derrota do Sul, na Guerra de Secessão, em 1865, seria a cauterização, a fogo, dessa ferida espiritual que perverteu a alma do Sul. Simultaneamente, a força de seus livros não brota só de seu estilo tortuoso, difícil, inovador: jorra de sua admirável mensagem de que o negro é moralmente superior ao branco que o subjugou e espezinhou. Mais ainda: ele se insurge contra a semente plantada por Calvino na ignorância ou na voracidade dos brancos inescrupulosos, que usavam o Protestantismo como arma para "provar" que Deus amaldiçoara os negros, a raça de Caim: desde a Bíblia o Senhor não "escolhera" os negros entre os que seriam salvos do Inferno, por isso Ele lhes "impusera" o cativeiro.

A ética puritana, Faulkner constata, está envenenada por abominar o prazer, por colocar a caridade abaixo do dever, por exaltar o trabalho acima da fraternidade humana, o sucesso econômico acima da justiça, por ser inflexível e não admitir o reexame de postulados teológicos rígidos, desumanos, errôneos e, portanto, irredutíveis a uma convivência humana e cristã entre seres humanos de peles e origens diferentes. Em seu romance abissal, Light in August, quando o atormentado Joe Christmas assume a sua pretensa herança de sangue negro e é linchado por uma turba delirante, o pastor Gail Hightower não poupa essa comunidade feroz e sanguinária:

"Parecem não poder suportar o prazer e o êxtase. Fogem deles por meio da violência, bebendo e brigando e rezando; escapam também da catástrofe através da mesma violência, igualmente inevitável. E assim, por que sua religião não os deveria levar à crucificação de si mesmos e de seus semelhantes? Fá-lo-ão com prazer, com prazer... Pois apiedar-se deles significaria admitir sua própria insegurança e esperarem e precisarem eles mesmos de piedade. Fá-lo-ão com prazer, com prazer. Isso é que é horrível, horrível."

A tradução brasileira de O Urso - história que integra os contos de Go Down, Moses - é daqueles raros, raríssimos momentos em que o leitor brasileiro tem acesso a uma obra-prima sem que sua essência seja pervertida. São nuances que se perdem, como traduzir ruthless (cruel, impiedoso, inclemente) por "rude", mas o ritmo e a magia desse texto permanecem intactos.

É inicialmente um profético tratado simples, sem nenhuma pompa, mas de finíssima orquestração de sons, cores, estados de espírito, sobre ecologia. Ou mais sem atavios ainda: é um discurso sobre a Natureza, do tipo que Homero ou Lucrécio o poderiam fazer. A Natureza é a floresta virgem, como o mar na Odisseia de Ulisses. A Natureza é o elemento onipotente, que basta a si mesmo, que precede e subjuga o homem, a mata é a Criação fora do tempo, os homens que chegam a ela são intrusos menos importantes que quatro ou cinco formigas que penetrassem na mata amazônica. A floresta é a imobilidade e o imutável: como pulgas ridículas arranham a superfície a um menino, um mestiço de negro com índio e caçadores que todos os anos vêm fazer um cerco ritual ao urso gigantesco, velho e ferido, que adquire o mito de ser invencível e recebe até um nome humano, numa tentativa de exorcizar a sua ferocidade e torná-lo menos temível: Old Ben, o velho Benjamim. Faulkner reitera essa impassibilidade da floresta ciente de sua própria força:

"...a mata fechava na retaguarda a entrada que transitoriamente se formara para acolhê-lo, abrindo-se à sua aproximação e fechando-se após sua passagem; a carroça não seguia um atalho fixo, mas um canal que dez metros adiante ainda não existia e deixava de existir dez metros atrás, avançando não por seu próprio movimento mas pelo roçagar da massa compacta embora liquescente que os envolvia, sonolenta, taciturna, quase sem nenhuma luz."

Há personagens marginais, mas os protagonistas dessa alegoria profunda são a mata, um menino de dez anos, o urso e Sam, o mestiço, o experiente mestre e introdutor do adolescente branco nos segredos da floresta e da vida, da morte e da honra, da dignidade e da coragem, da astúcia, do medo e do estoicismo heroico:

"Se Sam Fathers havia sido seu preceptor e os coelhos e esquilos das cercanias do acampamento seu jardim da infância, a floresta que o velho urso percorria era o seu colégio e o velho macho, viúvo e sem filhos há tão longo tempo que estava se convertendo em seu próprio e ingênito criador, era a sua universidade".

O Urso seria apenas uma viril descrição de uma caçada e mesmo assim superior ao supremo esforço de Hemingway em O Velho e o Mar de criar um embate nobre e viril, mortal, entre o homem, gladiador, e a fera, no Coliseu impassível da Natureza neutra. Mas Faulkner, como supremo escritor de língua inglesa dos Estados Unidos, tem mais recursos e uma profundeza espiritual que lhe parecem advir de uma longa fileira de escritores preocupados com a consciência humana: Hawthorne, Melville, Henry James, Jack London, Ambrose Bierce.

O urso morre, na metade do livro. E é a partir desse momento que a narrativa, numa espiral, toma um outro impulso e adquire seu significado permanente, pois se torna uma parábola de todo o Sul e de toda a civilização materialista do Ocidente: o menino cresce, física e moralmente, renuncia à sua herança, feita do sangue dos índios e dos negros massacrados ou escravizados e vai ganhar a vida numa literal imitação de Cristo, o Nazareno: como carpinteiro. Ele demonstra ao primo, orgulhoso da rapina e do legado conseguido com o engodo, o estupro, a morte, que a terra nunca fora de ninguém, nem do primeiro índio que a vendera ao primeiro branco nem dos negros que a cultivavam sob o chicote dos "senhores" de pele clara e com a resignação cristã de seus Spirituals que falavam da vida como a travessia penosa do rio Jordão, rumo ao Céu prometido pelo Senhor nos salmos. Os ancestrais do Jovem trapacearam, mas na realidade ninguém nunca comprou nada ao adquirir terra:

"Nada comprou. Porque Deus revelou no Livro como fez a terra, criou-a, olhou para ela, disse que estava bem, e então fez o homem. Fez primeiro a terra e povoou-a com criaturas irracionais, depois criou o homem para ser seu administrador e, em Seu nome, exercer a soberania sobre a terra e os animais, não a fim de reter para si e para os seus descendentes, geração após geração, a propriedade imprescritível sobre retângulos e quadriláteros, mas para conservá-la comum e indivisa na anônima comunhão da fraternidade, e o que Ele pediu como retribuição foi apenas piedade, humildade, tolerância, paciência e que o pão fosse ganho com o suor do rosto."

Despojado do Eden, despojado da Terra Prometida de Canaã, o homem na Europa, o Velho Mundo, começou a adorar o Bezerro de Ouro, a matéria perecível e pérfida. Até que um ovo, o que Colombo colocou sobre a mesa dos reis de Espanha para convencê-los da existência do Novo Mundo, significou uma nova oportunidade para o ser humano. A América seria o local "onde uma Nação poderia ser fundada na humildade, na compaixão, na tolerância e na mútua estima. No entanto, mesmo na nova terra, consagrada à liberdade e à igualdade dos homens, as Leis do Senhor foram transgredidas.

Os pretensos sábios da terra, com sua arrogância, inventaram bancos e fazendas, a escravidão e o lucro. Com isso a Verdade só pode chegar ao coração dos condenados e dos humildes deste mundo. Como em seu discurso quando recebeu o Prêmio Nobel de Literatura, em Estocolmo, em 1950, Faulkner acredita não no cérebro, que é neutro diante do Bem e do Mal, mas no coração humano, que nunca desconhece a verdade e que é o símbolo da própria consciência, da própria noção moral do ser humano. Se os norte-americanos não conseguirem criar a igualdade entre pessoas de todas as cores, o preconceito e sua cegueira destruirão esse povo como, em entrevista a Jean Stein na revista Paris Review, de 1965, o escritor sulista vaticinou:

"Porque se nós, na América, chegamos a tal ponto, em nossa desesperada cultura, em que devemos assassinar crianças (de cor), não importa porque razão ou porque cor, não merecemos sobreviver e, provavelmente, não sobreviveremos".

("Escritores em Ação, Editora Paz e Terra, página 57; 1968; tradução brasileira).

O menino por meio da caçada torna-se livre. Quem o libertou espiritualmente foi o mestiço de setenta anos, Sam Fathers: "Um velho, filho de uma escrava negra e de um rei índio, herdeiro, de um lado, da longa história de um povo que havia aprendido a humildade através do sofrimento e a altivez através da resistência com que sobreviveu ao sofrimento, e. de outro, da história de um povo que se encontrava naquela terra há muito mais tempo do que o primeiro, mas que agora existia somente na solitária fraternidade entre o sangue estrangeiro de um velho negro sem filhos e o ânimo invencível e selvagem de um velho urso; um menino que desejava aprender a humildade e a altivez para se tornar conhecedor e digno da floresta

O menino transformado radicalmente prevê a predominância na sociedade do seu país da cupidez sem freios e impune dos brancos, um American way of life que naufragou na poluição de rios e florestas, na extinção de tribos e de espécies animais, no ódio racial instituído ou dissimulado contra orientais, latinos, negros, mestiços, porto-riquenhos, mexicanos, latino-americanos, eslavos, tudo que não pertencer à classe usurpadora e dominante, os WASPS (white anglo saxon protestant) ou seja: brancos de origem anglo saxônica e protestantes), na Mafia, nas drogas, na violência, na usura, na mentira legalizada, na hipocrisia.

Como a criada negra Dilsey, esteio moral da decadente família branca, os Compsons, do romance magistral The Sound and the Fury, Faulkner prevê que os negros "resistirão. Porque são melhores do que nós".

No encontro com este livro, capaz de modificar a perspectiva que qualquer leitor tenha do ethos e do pathos da tragédia americana e a devastação moral pela qual o Sul passou, acha-se a chave para a apreensão da grandeza atemporal de Faulkner como consciência de um povo e de uma época. Em suas imemoriais palavras:

"A Verdade é una. Não muda. Abarca todas as coisas que se referem ao coração honra, orgulho, compaixão, coragem e amor. Compreende agora?... Calou-se. Continuando a falar, a voz, as palavras, calmas como o crepúsculo, Mc Caslin fitava-o: Coragem, honra, compaixão, amor à justiça e à liberdade. Tudo isso se refere ao coração e aquilo que está no coração transforma-se em verdade, na medida em que conhecemos a verdade. Compreende agora?"

Reuso

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Por favor, cite este trabalho como:
Gilson Ribeiro, Leo. 2024. “*O Urso*. Um painel, uma tragédia, uma outra geografia. Tudo de Faulkner. .” In A Literatura Norte-Americana, edited by Fernando Rey Puente, vol. 13. Textos Reunidos de Leo Gilson Ribeiro. Jornal da Tarde. https://doi.org/10.5281/zenodo.8368806.