Hemingway, o grande não passou de uma lenda?

Autor

Leo Gilson Ribeiro

Resumo
Jornal da Tarde, 1971/04/10.

O timbre inconfundivelmente másculo de sua voz impressionou a todos, desde o seu primeiro grito. Na idade em que as crianças comuns começam a balbuciar "papai" e "mamãe", ele já era chamado para exibir-se diante das visitas, respondendo com tom feroz, e em seu inglês ainda arrevesado, à pergunta ensaiada:

- “De que que o Ernest tem medo?

- Num tenho medo de nada! ('fraid of nothin'!)”

Aos três anos de idade, em 1902, o filho do médico Dr. Hemingway e da professora de canto Grace pescou o maior peixe do grupo, numa pesca. ria com o pai e amigos adultos. Aos cinco já recitava de cor a vida de vários grandes americanos, colecionava insetos, rochas e álbuns com ilustrações coloridas de pássaros. Mas seu divertimento predileto era a guerra: com pedras, de prédios em construção perto de sua casa, armava fortalezas e organizava violentos combates entre tropas inimigas.

Fugia às tentativas constantes da mãe de fazê-lo frequentar concertos, museus e teatros, "para ser sensível às artes". Preferia aprender com o pai a fazer fogueiras nas florestas, a lidar com varas de pescar e a cuidar bem das armas de fogo com que abatia pequenos animais selvagens em suas caçadas aos domingos.

Mas a veia artística da mãe brotou num setor inesperado para aquela família devota e sem ambições altas: no ginásio, sua primeira composição teve os dois méritos contraditórios de ser a melhor da classe e de ser copiada da narrativa feita por um colega. Como presente incomum, quando nasceu sua quarta irmã mais moça do que ele, seu avó, cabo de uma Brigada Militar do Norte, na Guerra de Secessão contra o Sul em 1865, dera-lhe uma garrucha de um cano, calibre 50.

Nestes poucos lances da sua infância, já está delineada a vida futura de Ernest Hemingway. Das brincadeiras infantis com palavras, da invenção de apelidos e histórias em que era sempre o heroi fanfarrão de feitos Inverossímeis, ele passaria à fama mundial como escritor laureado com o Prêmio Nobel de Literatura; como jornalista vigoroso que retrata, em suas reportagens para o jornal canadense Toronto Star, a carnificina da Primeira Guerra Mundial, e que, mais tarde, participa pessoalmente do "ensaio geral" para a Segunda Guerra Mundial e dos massacres diários da sangrenta Guerra Civil da Espanha.

Ele "inaugurava" aaquele critério puramente comercial da literatura criado pelos editores americanos o autor de best-sellers, livros que tinham um fulminante sucesso de vendas, alcançando até meio milhão de exemplares como Por Quem os Sinos Dobram antes de serem aproveitados pelos diretores de Hollywood em filmes de ação violenta e "romance" fortemente erotizado.

A coragem como proeza física levaria à escolha de seu slogan estoico para a vida: Il faut (d'abord) durer, é preciso, antes de mais nada, resistir. E a coragem não exigiria apenas uma resistência digna diante da adversidade: quando os obstáculos são intransponíveis, é preferível aceitar a morte por meio do suicídio.

A coragem é que cobrara dele, aos 62 anos de idade, aquele estampido que ressoaria num domingo ensolarado em sua fazenda de Ketchum, no Estado de Idaho, em 1961, última lição de seu terrível aprendizado de humildade: na vida há coisas de que é preciso ter medo: a perda da vitalidade física, do talento criador, da lucidez intelectual, todos inimigos pressentidos ao longo daquela vida exuberante, tumultuada em três continentes e agora abatida com os dois cartuchos da espingarda Boss de dois canos, que disparara contra a testa encimada pelos cabelos totalmente embranquecidos. Para Ernest Hemingway, vencedor de tantas maratonas, chegara o momento de passar adiante a tocha ardente, entregá-la a mãos mais hábeis, mais jovens. Finalmente chegara o momento de alterar sua máxima orgulhosa, sobre-humana, para "É preciso também saber quando morrer".

Para o leitor que relê, em 1971, a produção literária de Ernest Hemingway, percorrer essas minuciosas e desassombradas 639 páginas da biografia mais objetiva que já se fez do autor de O Sol Também se Levanta, significa ter uma visão final desoladora.

De suas características típicas só permanecem inalteradas a generosidade e a coragem. Doando dinheiro para a causa republicana na Guerra Civil da Espanha, organizando lutas de box beneficentes para jovens mães abandonadas pelos maridos ou ajudando artistas principiantes, Hemingway não desilude quem crê na sua bondade rústica e pragmática.

A coragem faz parte da sua própria psique: sem hesitar, o leva a mergulhar em águas infestadas de tubarões, perto da costa de Cuba, para ajudar uma amiga, ou a remar contra a correnteza de um rio invernal na Europa assolada pela Guerra e salvar sozinho seus companheiros. Mas é também a coragem que contém os germes da sua dissolução: pisar cacos de vidro numa praia ou arrancar com um canivete estilhaços de balas que se infiltraram em suas coxas, quando servia como motorista de ambulâncias na Itália, em 1918, eram formas de provar seu machismo, sua resistência obstinada à dor e ao medo, que ele considerava a melhor das catarses desde que bem dosado. A coragem é também, para ele, uma faceta da sua constante mania de grandeza e uma prova de sua superioridade sobre os demais escritores.

Para quem queria "dar um chute no traseiro do Sr. Shakespeare" e achava que "podia escrever melhor do que Cícero com as mãos amarradas nas costas", estabelece-se uma confusão constante e crescente entre arte e punhos. Os críticos que não apreciam seus livros são tachados de efeminados e ameaçados com disparos ou murros nos queixos. Para quem sempre achou a tarefa de escrever sumamente difícil, confessando-se mais à vontade no campo da ação, essa declaração tornou-se como que um involuntário e patético epitáfio de si mesmo como escritor.

Mas mesmo o bom conhecimento da ação é posto em dúvida pelos peritos em boxe, em pesca, em caça - suas áreas de ação preferidas. A guerra, que ele considerava um esporte violento, que dava ao homem a possibilidade de voltar às virtudes pagãs negadas pelo cristianismo - o prazer de matar outro homem - a guerra é um jogo militar em que as peças que se movem nos tabuleiros imensos (nas planícies devastadas da Espanha, nos campos da França, nas cidades inglesas sob bombardeio das bombas V-1 alemãs são meramente peças humanas.

A violência - essa superação de si mesmo - era um ideal: assistir às touradas em Pamplona era como "ver de camarote uma guerra descomunal", a vida era semelhante a uma partida violenta em que o homem, fatalmente, jogava sem chances de vencer, Da mesma forma, a sua literatura se impregna desse misticismo do murro, da explosão, do ataque ao leitor: suas frases deveriam "estourar como granadas na cabeça de quem as lesse" e seu estilo iria direto "como murros desfechados contra o queixo do leitor".

Seus temas preferidos decorriam dessa escala de valores: a guerra era excelente, ele achava porque abrangia todas os outros temas em grande escala, em escala como ele sempre ambicionara sobre-humana: o amor, o dinheiro, o homicídio, a avareza, a impotência e, sobretudo, a morte. Infringir a morte parecia-lhe um dom dos privilegiados. Mesmo que a morte fosse, como um rio subterrâneo que percorrera sua mente desde a infância, a sua própria, imposta pela vontade e como recurso final contra os inimigos externos.

Mais arrasador é conhecer os detalhes de sua fanfarronice, de suas mentiras de sua deslealdade para com quase todos os que o apoiaram quando galgava os primeiros estágios da fama: Gertrude Stein passa a ser uma "mera literata"; Ezra Pound "devia ter-se suicidado depois de escrever os Cantos. Ou saber de sua tentativa pueril de comandar uma rede de contraespionagem antinazista na Havana dominada pela ditadura de Batista; a bazófia de, com suas palestras sobre a Espanha, ter sido responsável pela ida de milhares de jovens americanos para lutar em defesa republicana; a figura ridícula que quer ensinar aos heroicos aviadores da RAF como perseguir os aviões nazistas inimigos cúmulo de comprar um peixe imenso no mercado e jurar que o pescou para visitantes incrédulos; ou enviar à sua quarta esposa, Mary Welsh, cartas pomposas em que inventa ter tido missões perigosas confiadas pelo general Barton, na Segunda Guerra Mundial, à sua motocicleta com sidecar.

O americano malvestido, descalço, que bebia daiquiris no bar Floridita em companhia de pescadores engraxates e garçons, começou a deteriorar-se sensivelmente. Nem o casamento com a quarta e última esposa, Mary Welsh, nem as pescarias, nem o Prêmio Nobel de Literatura em 1954 podiam mais deter sua descida inexorável.

Esquizofrénico, com a pressão arterial alta, perdendo a vitalidade física, recebendo eletrochoques, passando dias inteiros na Clínica Mayo, sem capacidade mais para escrever ("A coisa não me sai mais"), ele se parecia, cada vez mais, com o velho leão que abatera no Quênia e que constatara, com espanto, estar circundado de moscas apesar de sua majestade mantida até depois da doença, da velhice e da morte. Os "percevejos da literatura", os "malditos críticos, todos efeminados" o acossavam como os pigmeus atacavam o gigante Gulliver. E ele não teria câncer, depois de tantas centenas de litros de álcool disparados contra seu fígado?

Seu agradecimento pelo prêmio Nobel, na sua concisão, uma confissão de retiro do mundo e de tentativa de driblar a solidão por meio da literatura: "Escrever, em sua acepção superior, é uma vida solitária. As organizações para escritores atenuam a solidão de um autor, mas duvido que melhorem a sua prosa".

Agora, ele o pressentia e em seus ataques cada vez mais longos de melancolia aguda o sabia com lucidez agora ele já dera de si o melhor e nada, nada absolutamente, podia melhorar a sua prosa: ele era uma carcaça que só se diferenciava dos búfalos e leões que ornavam sua fazenda, no Estado de Idaho, por não estar empalhado ainda no canto de uma parede. Para seu orgulho e para o seu narcisismo era uma dose excessiva.

Num domingo ensolarado de junho de 1961, éle acordou cedo e envergou o manto vermelho que nos tempos áureos comparava, com volúpia, à capa dos toureiros e que em casa chamavam de "o manto do Imperador". Sem fazer barulho, destrancou a sala de armas, sem despertar Mary que dormia no quarto contiguo. Escolheu uma espingarda Boss de dois canos.

"Meteu dois cartuchos, baixou cuidadosamente a coronha da arma para o chão, inclinou para diante a cabeça e encostou os dois canos na testa, logo acima do supercilio. E puxou os dois gatilhos".

Tombara o ideal que Thomas Mann encarnara em sua novela Tonio Kroeger: a fusão entre o artista, morbidamente sensível, e o homem destemido e viril. O ideal do escritor atleta, da mente criadora contida num copo elástico e valente, se esboroara.

Mais do que isso: a obra de Hemingway deixara claro até que ponto essa reconciliação é impossível. Mesmo no tempo disponível, no espaço deixado em branco, há uma disputa quase que física entre a sensibilidade e a ação, os músculos negando o intelecto, a meditação bloqueada pelas exibições de validade e o intelecto sufocado pela torrente de emoções. Uma literatura que hesita entre o murro e a página, entre a sutileza da análise de uma situação humana e o tiro é, morbidamente, uma literatura dilacerada e infiel a si mesma.

Mas nos últimos anos, principalmente, Hemingway já não distinguia-bem entre a verdade e a mentira, conseguia iludir a si próprio. Quando declarara em 1951 - "A profissão do escritor é realmente uma profissão dura, por mais que você a ame. Amo-a acima de qualquer outra coisa. Mas é muito difícil se um homem se entrega a ela de alma e coração" - ele julgava que se entregara a ela "de alma e coração". Mas, dispersivo, com seu séquito, como os reis da selva africana, suas mulheres como gazelas perplexas, os críticos como "chacais e hienas", ele não conseguira a totalidade da concentração.

O resultado era medíocre em todos os setores: medíocre no jornalismo, guardando para a "literatura" os lances melhores de uma cobertura como correspondente de guerra; guardando para o jornalismo uma padronização de estilo que embotara no uso diário e profissional da palavra. ("Não existe nada mais capaz de cegar a ponta de um talento de um escritor do que exercer o jornalismo como profissão" ele declarara num despacho.

Seu estilo se reduzira, em última análise, a injetar na literatura as regras do velho manual de estilo para jornalistas principiantes, que encontrara nas mesas de redação do Kansas Star. Escrever frases concisas. Usar poucos adjetivos. Prender o leitor pelo impacto das imagens. Deixar fluir objetivamente a narrativa. Mas essa adrenalina, transferida do punho do boxeador para a página impressa, revela-se de curto fôlego. Hemingway só resiste em alguns de seus contos, a extensão e a profundidade do romance o esgotam e atiram a toalha para o escritor vencido e que ambicionava ser o campeão dos pesos-pesados da literatura como se Shakespeare, Tolstói, Flaubert e Faulkner fossem versões brancas dos grandes lutadores como Joe Louis, Clay e Frazier.

Round após round ele cai, sob a vala ensurdecedora de novas gerações que não se curvam diante do mito alimentado por profissionais da publicidade convincente. O jovem que hoje ler os romances de Hemingway descobrirá um amontoado informe de palavras: o sexo é a mera expressão animal de um pieguismo romântico canalizado para os genitais; o indivíduo é um vencido, muitas vezes automutilado, dissociado do pano de fundo grandioso da condição humana maior em que está inserido.

Por Quem os Sinos Dobram é a mais clara definição dessa insensibilidade aos supremos valores que a guerra civil prenunciava. A dilaceração entre democracia e fascismo, entre liberdade e estagnação social, transformadora do homem em mera mola morta numa engrenagem de elites privilegiadas, não é captada nem social nem politicamente. Pior ainda: o sacrifício de um indivíduo anárquico, embora imbuído de boas intenções e forrado de ideias heroicas, é inútil. Sua indignação contra os fascistas que estupraram a revolucionária Maria é uma explosão de ciúmes que eclode na explosão da ponte, como um Otelo que vê em Franco um Cássio ou um Iago execráveis.

O Sol Também se Levanta também reduz o estoicismo do jornalista castrado a um símbolo oco, da mesma forma que a angústia da excêntrica Lady Brett, cercada de maricas histéricos, reduz-se a uma ninfomaníaca "pitoresca", com seu sotaque britânico e sua geográfica inquietação de viver.

A mesma pobreza de valores, a mesma restrição vocabular tornam monótonos todos os seus relatos - a trágica retirada de Caporetto em Adeus às Armas é metamorfoseada em arroubos amorosos do soldado americano e sua enfermeira inglesa numa dupla derrota: da descrição vigorosa do ato do amor, como o faria um D. H. Lawrence, e das implicações trágicas das batalhas para o futuro dos povos e a sobrevivência da democracia no mundo.

Seu jornalismo está impregnado de um tom falso, literário", assim como sua literatura está irremediavelmente infectada de um "jornalismo" estandardizado e de pólvora já umedecida pelos anos.

Talvez seu conto mais longo - O Velho e o Mar seja seu canto de cisne prematuro e fielmente autobiográfico. A alegoria do velho que derrota elementos bravios o mar, a tempestade, o frio para, no final, ser derrotado por um troféu grande demais para o seu barco, retrata, implacavelmente, o mito e o dilema de Hemingway.

Para chegar à costa ampla do romance suas forças foram insuficientes, seu talento foi todo devorado pela voracidade dos cações chamados a crítica literária, o tempo, os modismos, a farsa. As viagens contínuas, os safaris, as bebidas, as pescarias, as mulheres, as lutas, foram todos - fan-asmas que se interpuseram entre Hemingway e seu talento para escrever.

O tiro que ressoou em sua fazenda em Ketchum foi o golpe de misericórdia do gladiador que se considera vencido: o leitor sabe, agora, que os sinos dobravam, naquela manhã, num réquiem há muito adiado para o campeão que ele não fora, Hemingway, lhe big champ, derrotado por nocaute na peleja que travou entre a mente e o corpo.

E perdeu como encarnação clássica do grande artista sadio, como diagnosticara bem um crítico russo: aquela mente mórbida naquele corpo são. Nem grande boxeador, nem grande toureiro, nem grande caçador, amante, jornalista, pescador ou combatente lúcido da democracia, jazia agora Hemingway no solo: ele já estava como seu conto assim intitulado, Fora de Estação.

Reuso

Citação

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Por favor, cite este trabalho como:
Gilson Ribeiro, Leo. 2024. “Hemingway, o grande não passou de uma lenda? .” In A Literatura Norte-Americana, edited by Fernando Rey Puente, vol. 13. Textos Reunidos de Leo Gilson Ribeiro. Jornal da Tarde. https://doi.org/10.5281/zenodo.8368806.