Ironia letrada e brados humanistas. Entre bocejos.
Quando a consciência norte-americana dói, um romance tem o efeito analgésico de uma aspirina: baixa a febre e ludibria os sintomas da epilepsia ética que de vez em quando sacode os escritores norte-americanos.
Em meio à revisão crítica dos padrões da plutocracia dos Estados Unidos há radiologistas tão diversos quanto Faulkner, com seu protestante sentimento de culpa do Sul pelo racismo desumanizante que deforma e derrota esse tipo de American way of life e Saul Bellow, um dos mais lúcidos detectores do malaise américain: a noção judaica de um Paraíso perdido, de uma pureza original que antecedeu os metrôs, a poluição, a Máfia, o big business e os escroques disfarçados de grandes capitães da indústria.
Saul Bellow vai além da percepção do vazio estético e moral dos tycoons examinados por Scott Fitzgerald e tipificados pela esterilidade humana do Babbit de Sinclair Lewis. Baseado numa insistente visão aristocrática do indivíduo perdido no emaranhado urbano da megalópole, todos os seus livros misturam a conclusão naturalista do socialista Dreiser com a milenar concepção judaica da perversão humana dos preceitos divinos. Em A Vítima, Herzog, Henderson, O Rei da Chuva, Bellow mescla dados heterogêneos de um vacilante otimismo, de farsa e lamento para clamar por um ser humano integro, uno, não dissociado das estruturas sociais que o amarfanham e vitimam.
Pouco deste vibrante brado humanista permanece diluído, nas páginas obesas de seu último romance publicado no Brasil, O Legado de Humboldt. Ao contrário: como na entrada do "Inferno" de Dante este livro poderia ter como advertência logo no início: "Deixai toda a esperança de compreender-me, ó vós que entrais, se não possuís uma cultura tão vasta que abarque a literatura, a psicologia, a filosofia, a ética, a estética, a antropologia e mil outras disciplinas." Como é fácil comprovar, meramente folheando estas páginas forradas de citações, a enumeração é soporífera e pressupõe um conhecimento de autores tão diversos quanto o poeta romântico Novalis, personagens do romance de Proust, Em Busca do Tempo Perdido, ensaios de Santayana sobre a beleza, teorias de socialismo utópico de Saint-Simon, a angústia existencial exposta por Kierkegaard, o tédio vislumbrado por Baudelaire, a pintura e a poesia místicas de San Juan de la Cruz e El Greco etc. etc.
Nitidamente, Saul Bellow perde o controle do seu material depois das 200 páginas iniciais. Torna-se repetitivo, meândrico, conseguindo a média de um bocejo por página do leitor paciente.
Os personagens centrais, o escritor de sucesso Citrine e o poeta incompetente na prática de ganhar dinheiro, Humboldt, estimulam no começo a leitura. É a velha nênia literária de Bellow que ressoa reconhecível: em algum ponto do domínio da vida humana pela tecnologia avassaladora, o Wall Street Journal se tinge da melancolia do progresso: a cisão clássica entre o coração, de passos lerdos, e o cérebro, em busca de mudanças a qualquer custo, desemboca na esquizofrenia típica de São Paulo como de Nova York ou Chicago: a riqueza não é sinônimo de bem-estar espiritual, ser fica obliterado pela fúria de ter, os milhões de pessoas com o mais alto rendimento per capita do mundo são cartões perfurados da IBM a ingerir pílulas contra a ansiedade, a armar-se contra o crime organizado, a viver um dia-a-dia violento e violentado, desprovido de beleza, de sentido, de transcendência. Aí Saul Bellow imprime sua marca registrada, a ironia letrada, as frases-bazuca como "a insônia o tornou mais culto" ou "Uma vez que você leu A Psicopatologia da Vida Cotidiana você sabe que a vida cotidiana é a psicopatologia"; "Lincoln foi o mais importante Maníaco-Depressivo da América"; na década de fugaz entusiasmo pelo comunismo dos intelectuais norte-americanos "Nova York sonhava em abandonar a América do Norte e juntar-se à União Soviética", os tentos dos astros do football cedendo à superficial glorificação afoita e fanática de Rosa Luxemburgo e de Lênin.
Citrine, o anti-herói que busca o Sucesso com maiúscula é insensível ao verme que se esconde no interior do pomo de ouro, não se importa se o mundo dos negócios é a maneira mais rápida de petrificar a alma: a Broadway, Hollywood, o renome literário são os rituais de iniciação à vida adulta a vida do dinheiro, do triunfo monetário e, se necessário, mercenário também, quando os poetas tiveram voz no panteão dos milionários do gado ou do petróleo do Texas e desde quando os Rockefellers foram mecenas de contemporâneos Leonardos da Vinci ou Michelângelos esmagados pela máquina de transformar talentos em hamburguers deglutíveis pela máquima industrial?
A figura patética de Humboldt e sua morte como um indigente qualquer, fulminado por um ataque cardíaco que o derruba sobre latas de lixo, um gênio incompreendido e deslocado contrasta vividamente com as ambições do arrivista. Humboldt prega inutilmente, a uma plateia auto ensurdecida pelo desinteresse, os sentimentos humanos contra os ídolos de plástico, cita Goethe e a república ideal contra a sociedade dos produtos industriais regidos pela obsolescência embutida no lucro, quer dar "um rosto humano" ao Capitalismo caótico e inescrupuloso. "Desejamos mais do que nunca a vivacidade radiante do amor sem limites e cada vez mais os ídolos estéreis opõem-se a isso... Nos Estados Unidos, incidentalmente, esse tipo de coisa dá às pessoas um ar de estrangeiro".
Com fúria esmagadora, Saul Bellow, que conhece há décadas os meios literários das revistas intelectualizadas como a Partisan Review, a Kenyon Review, as universidades de elite, as fofocas e baixezas das panelinhas literárias, satiriza todos os aspectos da cultura americana: a corrida aos adiantamentos concedidos pelas editoras a autores de livros ainda não escritos, a maratona em torno de postos de ensino nas universidades de status como Princeton, Harvard ou Yale, as sinecuras das bolsas de estudos das Fundações Ford, Guggenheim ou Fulbright. Inesquecível é o episódio do professor perito em obter doações inúteis e que parte para Damasco para dar um curso sobre o esotérico novelista Henry James a uma dúzia de árabes sonolentos e aturdidos estudantes de inglês, como se no Brasil, no sertão baiano de Xique-Xique o Goethe Institut desse, para meia dúzia de espantados alunos um curso abstruso sobre a Fenomenologia do espírito, de Hegel, em alemão.
O mesmo sarcasmo furibundo serve de munição para pintar, com ácido sulfúrico, a paisagem desolada da cidade moderna, nessa Cubatão rica e mais moderna que é Chicago e que tem pontos de gritante semelhança com a São Paulo atual:
"Torres altas como uma artilharia poluidora lançavam, silenciosamente, ao céu de domingo, lindas nuvens de fumaça. O cheiro azedo das refinarias de gás entrava pelos pulmões como um esporão. A que respirávamos era marrom como uma sopa de cebola, petroleiros voltados para o mar estavam parados nos canais, o vento gritava, as nuvens imensas eram brancas. Ao longe, bangalós enfileirados pareciam um necrotério em perspectiva. Andando pelas ruas ensombradas, os vivos iam à igreja".
Humboldt percebe com voz solitária os males de perversão dos valores culturais e perversão dos valores humanos triturados pelo conceito do lucro, dos juros de mora, e aposta na candidatura de Stevenson, o intelectual idealista, contra o militar medíocre, o general Eisenhower. Se vencessem os inteligentes contra os filistinos, nas reuniões ministeriais. Os generais do Pentágono citariam Tucídides, o ministro da Educação recitaria poemas de Yeats e trechos do Ulisses de Joyce, ele transformaria Wahsington numa Weimar requintadíssima da qual ele, ocupando um cargo governamental importante, seria o Goethe indiscutível.
Dentro da tradição literária, este volumoso romance é o que os alemães chamam de Erziehungsroman, isto é: um processo de aprendizado ético do personagem principal - Citrine, através de vicissitudes, neste caso, hilariantes, grotescas e patéticas. Aos poucos ele aprende um dos temas fundamentais para o ser se sobreviver na cidadela de dinheirocracia: "Fiquei sabendo que o que a gente precisa, numa grande cidade americana, é de uma entranhada faixa de desafeição, uma montanha crítica de indiferença". A seu redor, os bairros dos poloneses, dos lituanos, primeiros imigrantes de Chicago, desmoronam, com a invasão de porto-riquenhos, a decadência física, os cheiros pútridos. o aumento do índice de criminalidade da máfia branca ou de cor acompanhando a Marcha Fúnebre do desmoronamento da civilização europeia com os sequestros aéreos, as bombas, as greves, o terrorismo, de Milão à Irlanda. Sem dados de referências estáveis, a própria personalidade humana se deteriora como os bairros e a economia nacionais, as paisagens urbanas são de papelão como os estúdios de filmagens de Hollywood: armar, desarmar, armar de novo, a impermanência é o critério único, a memória é descartável como uma lata de cerveja usada, o eu tão físsil quanto qualquer partícula atômica.
Sua velha e imutável litania é um exasperante grito contra a imaturidade e a futilidade dos Estados Unidos, uma potência que chafurda na opulência criminosa, indiferente à fumaça que emerge dos fornos crematórios da Gestapo e da KGB, um mundo de abundância ilhado num universo de escassez, fome e desesperança abatida pelos regimes ditatoriais, a superpopulação, a vida massacrada e reduzida à sobrevivência meramente digestiva de milhões de pessoas: a América era um experimento-fracassado de Deus. Do outro lado, a Rússia soviética tampouco acenava com alternativa: era o triunfo do Tédio Planejado. Morto Trotsky, sepultada sua ideia dinâmica da revolução permanente, só restavam os escombros do grande sonho assassinado da Revolução de Outubro: "Ao se encerrar esta curta e brilhante fase, o que veio a seguir A mais chata das sociedades já aparecidas na História. Relaxamento, mesquinharia, estupidez, bens bloqueados, tediosos edifícios, tedioso desconforto, supervisão tediosa, uma imprensa estúpida, educação estúpida, burocracia enfadonha, trabalho forçado, perpétua presença da polícia, presença da punição, tediosos congressos do partido etc. Permanente era a anulação do interesse".
O Tédio e a capacidade de impor o tédio uniforme a todos os cidadãos é talvez a substância essencial do próprio Poder político, econômico, social, de "temperar o tédio profundo com terror e morte", salpicar de angústia cotidiana o sufocamento do êxtase e da esperança, argumenta Saul Bellow, neste que é provavelmente o seu livro mais pessimista e mais descrente do experimento humano: a civilização está paralisada pela morosidade da estupidez que impede a floração da inteligência e o advento de valores humanos como os que existiam possivelmente na longínqua Atenas da era de Sófocles, de Péricles, de Sócrates. Entre o big business e o arquipélago Gulag soviético que margem de significado pode ter a vida humana na era atual? A felicidade ficara de fora dos programas do Partido Comunista da União Soviética assim como dos jogos de futebol, dos bares de coelhinhas seminuas do Clube Playboy. A casa de campo perto de Moscou para os intelectuais e cientistas obedientes ao Kremlin ou a casa dos subúrbios onde se trocavam parceiros sexuais como os esquimós, eram formas massacrantes de materialismo que só podiam desembocar na angústia e no vazio.
Sem perder a retidão nem das premissas nem do diagnóstico certeiro e ferido, Saul Bellow, no entanto, já disse tudo isso de maneira menos confusa, menos longa, menos didática, em livros anteriores. A opressão do homem pelo homem, que não é meramente econômica e social, já foi descrita em páginas muito mais sucintas e de persuasão menos arrastada. Ele próprio contradiz sua teoria de que a literatura se contrai para adquirir maior impacto. Na era da televisão do rádio, do cinema, Tolstói não escreveria romances menos longos? Com a exceção de Proust e suas quase quatro mil páginas de A la Recherche du Temps Perdu, a literatura vem se cingindo à fórmula do menos comunica mais: das novelas longas de Dostoievski aos contos de Tchekov e Katharine Mansfield a concentração tornou-se uma mutação da literatura aderente ao ritmo dos tempos atuais.
Quem, no entanto, dispuser de fôlego, cultura e paciência para prosseguir além da metade deste livro, percorrerá o itinerário da derrocada pessoal de Citrine com o legado ambíguo que Humboldt lhe deixa como herança além-túmulo. Lá está um Saul Bellow menos brilhante, mais perdido com personagens secundários, mais reiterativo e que meramente exemplifica com uma derrota pessoal o que já demonstrara convincente e indelevelmente ser um fracasso coletivo no meio do romance. Do meio para o fim, a mediocridade surpreende o leitor acostumado com a agilidade mental dos livros marcantes e profundos surgidos antes. É uma mediocridade que condiz com a mediocridade cataléptica do Prêmio Nobel que embalsama, em forma de moldura, na capa desta edição brasileira, o Retrato do Artista quando já levemente gagá. O que só acentua a saudade do Artista Quando Jovem, do destemido moço de Dangling Man, do kafkiano sequestro de uma personalidade nobre por outra inferior em The Victim.
Se a Editora Nova Fronteira quer revelar o autor norte-americano sob seus aspectos mais vitais, por que não preferir uma nova edição de Mr. Sammler's Planet? Neste romance de 1970, portanto anterior a O Legado de Humboldt de três anos, Bellow antevê, inventiva e ousadamente, uma Nova York minada pelo caos, com Mr. Sammler, sobrevivente tanto do requinte do meio literário de Bloomsbury onde pontificava Virginia Woolf como do campo de concentração de Auschwitz, contemplando com o único olho que os nazistas não lhe arrancaram a vaidade humana e a autodestruição do ridículo homo sapiens em meio a viagens à Lua e à poluição total da alma pelo egoísmo e pela indiferença: o homem como Super-homem e palhaço do espaço sideral levando o vírus da morte espiritual para as mais distantes galáxias.
Reuso
Citação
@incollection{gilson_ribeiro2023,
author = {Gilson Ribeiro, Leo},
editor = {Rey Puente, Fernando},
title = {Ironia letrada e brados humanistas. Entre bocejos.},
booktitle = {A Literatura Norte-Americana},
series = {Textos Reunidos de Leo Gilson Ribeiro},
volume = {13},
date = {2024},
url = {https://www.leogilsonribeiro.com.br/volume-13/18-saul-bellow/00-ironia-letrada-e-brados-humanistas-entre-bocejos.html},
doi = {10.5281/zenodo.8368806},
langid = {pt-BR},
abstract = {Jornal da Tarde, 1977/11/26.}
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