William Faulkner. O mito, a arte, a ética.

Autor

Leo Gilson Ribeiro

Resumo
Correio da Manhã, 1965/04/04.

William Faulkner constitui, com Guimarães Rosa, o duo dos autores, de categoria universal, com que os Estados Unidos e o Brasil contribuíram para a literatura mundial. Parte de sua temática é também semelhante, na sua introspecção cósmica do Bem e do Mal, da raiz religiosa da vida humana, dos ideais de honra, de superação das vicissitudes da vida terrena, na sua utilização regional de personagens arquétipos de situações universais e eternas, na sua renovação da linguagem e sobretudo na profundidade da literatura criada no continente americano.

Os trechos da entrevista que o grande narrador americano concedeu a Jean Stein na revista italiana L'Europeo trazem uma nova luz ao denso, abissal autor de Absalom e The Sound and the Fury. Como o Rei Lear cujas palavras servem como título de O Brado e a Fúria ou como um protagonista de uma tragédia grega, sua obra está impregnada da violência de Édipo, da sede de vingança de Electra, da angústia abissal de Medéia, permeada porém de esplêndidas alegorias imbuídas de uma visão cristã da Redenção do ser humano. A contorcida humanidade que se reflete exponencialmente nos habitantes do condado imaginário do Sul dos Estados Unidos, aquele Yoknotapawpha mítico e fantástico, adquire atualmente uma nova atualidade nas manchetes dos jornais que falam do Alabama, do Mississippi e do Reverendo Martin Luther King. Identificando consciência e o imperativo moral no plano prático da convivência dos seres humanos, seja qual for a sua pigmentação, o magistral autor sulista encarna, na sua obra, na sua lucidez, na sua unicidade, a consciência norte-americana e a rebelião contra os elementos minoritários de uma barbárie branca o Ku Klux Klan e um fanatismo negro, os muçulmanos negros. O seu extraordinário depoimento sobre o escritor, sobre a arte de escrever e sobre o comportamento ético do indivíduo na nossa sociedade de massa, parece-nos captar grande parte do seu testemunho poético e humano.

Interrogado sobre o que pensava de si mesmo como escritor, Faulkner respondeu:

"Se eu não tivesse existido, alguém teria escrito os livros que eu escrevi. Como aconteceria com Hemingway, com Dostoiewsky e qualquer outro de nós. Isto se prova com o fato de que a paternidade das obras de Shakespeare poderia ser atribuída a outros. Mas na realidade o que conta é Hamlet, é Sonho de uma noite de verão e não quem os tenha escrito. O nome do artista não tem importância alguma.

A personalidade do artista é um fato muito importante para ele, os outros, os leitores, estão demasiado envolvidos pela obra que ele criou para se preocuparem com a sua personalidade.

Exprimindo sua opinião respeito dos escritores contemporâneos:

"Todos nós perdemos a batalha contra a perfeição. Faço esta afirmação porque tenho por costume medir os escritores, inclusive eu mesmo, pelo seu esplêndido fracasso na tentativa de alcançar o impossível. Creio que se eu pudesse escrever novamente meus livros escreveria muito melhor: esta confissão é o que posso dizer de melhor sobre mim mesmo e constitui a condição mais salutar para um artista. O que realiza o artista? Continua a trabalhar, a sofrer aflitivamente na sua busca, a crer que cada trabalho que esteja elaborando represente o máximo das suas possibilidades. Naturalmente não o é e isso é uma sorte, porque senão, se realmente o artista conseguisse conciliar o seu trabalho concreto com a imagem ideal que tem dele, só lhe restaria amarrar uma pedra ao pescoço e atirar-se ao mar. A perfeição é o suicídio para o artista.

O que julgo necessário para ser um bom romancista?

Noventa e nove por cento de talento, noventa e nove por cento de disciplina, noventa e nove por cento de aplicação. Além disso, um bom romancista não deve nunca estar satisfeito com o próprio trabalho. Nenhuma obra é boa a ponto de ele poder declarar-se satisfeito com ela.

É preciso sempre sonhar, olhar sempre mais para o alto do que atinge a vista. Não importa ser melhor do que os nossos contemporâneos ou dos que nos precederam. Devemos tentar ser melhores do que nós mesmos.

O artista é uma criatura possuída pelos demônios. Não sabe por que foi escolhido e geralmente está ocupado demais para fazer essa indagação. O artista é completamente amoral: Se ele roubar, enganar, trair, mas realizar sua obra, não será acusado de responsabilidade. A única responsabilidade do escritor é com a sua arte. É impiedoso se for um bom escritor. Leva um sonho no seu interior. Um sonho que o angustia, que o atormenta, um sonho do qual deve libertar-se: até então ele não terá paz. Portanto, para escrever o seu livro eliminará tudo, inclusive a honra, o orgulho, a segurança, a honestidade e a felicidade... O único ambiente de que necessita o artista é o que lhe oferecer um pouco de tranquilidade, de solidão e aqueles prazeres menores que se obtêm com poucas despesas. Quanto a mim, os únicos instrumentos de que preciso são a caneta, o papel, um pouco de tabaco, um pouco de comida e um pouco de whisky. Nem a liberdade econômica não é realmente necessária para um verdadeiro escritor: só a caneta e o papel. Não me consta que se tenha escrito nada de bom graças à riqueza ou às doações financeiras. De forma que, na minha opinião, um escritor não deveria nunca pedir ajuda a ninguém, aliás ele está ocupado demais para fazê-lo. Quem disser que não tem tempo suficiente para escrever ou não tem dinheiro não é um verdadeiro escritor. Esses pretextos meramente, escondem uma incapacidade, constituem um álibi. Na realidade, nada no mundo pode destruir um bom escritor, a única força capaz disso é a morte. Nada pode ser prejudicial a um verdadeiro escritor, nem mesmo, como se julga, escrever para o cinema. Mas se se trata de um escritor medíocre, então o problema é diferente. Mas não constitui um grande problema, nem interessante, porque o escritor medíocre já terá vendido a sua alma por uma casa com piscina. Eu pessoalmente já pensei numa solução final que provaria uma tese que me é muito cara: a de que o homem é indestrutível graças à sua vontade de ser livre. Mas sei que nunca eu seria um bom roteirista cinematográfico. O cinema não me estimula o suficiente. Quando escrevo um roteiro ou uma história para um filme não sinto aquela urgência que me dá, ao contrário, o meu verdadeiro meio expressivo.

Com relação ao Cristianismo, que muitos consideram como um dos temas centrais da minha obra, devo esclarecer o seguinte: o que é, fundamentalmente, o Cristianismo? É um código de comportamento individual, por meio do qual cada ser humano busca tornar-se um pouco melhor do que seria se seguisse somente os seus instintos. Sejam quais forem os símbolos cristãos, eles recordam ao homem que ele tem deveres para com os outros seres humanos quanto às alegorias, elas são os documentos com os quais o homem se defronta, se mede a si próprio e aprende a conhecer-se. A alegoria cristã não pode, sozinha, ensinar o homem a ser bom como os livros escolares lhe ensinam a matemática. Ela lhe mostra o caminho para descobrir-se a si mesmo, para evoluir e para elaborar o seu próprio código moral, consoante com a sua capacidade e as suas aspirações. Além disso, ela lhe fornece um exemplo incomparável de sofrimento, de sacrifício e de esperança. Os escritores sempre utilizaram as alegorias se não por outros motivos, pelo menos então porque as alegorias são extraordinariamente eficazes. Vejamos, por exemplo, os três personagens de Moby Dick que representam a trindade da consciência: o não conhecimento, o conhecimento sem problemas e o conhecimento problemático. A mesma trindade é repгеsentada em Uma Fábula pelo jovem oficial hebreu que diz: "Isto é terrível e eu o recuso", pelo general francês, que diz: "Isto é terrível, mas suportável" e pelo comandante do batalhão inglês, que diz: "É terrível. É preciso que eu faça alguma coisa."

Não saberia dizer até que ponto a minha obra seja baseada na minha experiência pessoal. Nunca considerei isso importante. Um escritor tem necessidade de três coisas apenas: experiência, observação e imaginação. Qualquer delas pode, num determinado momento, suprir a falta das outras. Um escritor deve tentar criar personagens críveis que se movam em ambientes e situações críveis. Obviamente, ele deve servir-se da sua experiência pessoal como um instrumento. Não inclui a inspiração entre as condições indispensáveis para o escritor porque não sei o que possa ser a inspiração: ouvi falar dela mas nunca a vi pessoalmente.

Os grandes escritores europeus meus contemporâneos? Thomas Mann e James Joyce. É preciso que nos aproximemos de Ulysses com a mesma fé que um pastor batista se aproxima do Velho Testamento. Não leio os escritores contemporâneos. Os livros que leio agora são os mesmos que eu lia e amava quando era jovem: o Velho Testamento, Dickens, Conrad, Cervantes, Balzac, Flaubert, Dostoievsky, Tolstói, Shakespeare, Estes autores eu leio todos os anos. De vez em quando leio Melville e alguns poеtas: Marlowe. Campion, Jonson, Herrick, Donne, Keats e Shelley.

Freud nunca li. embora se falasse muito sobre ele na minha época. Mas, nem Shakespeare o leu, nem, creio, o tenha lido Melville.

Creio que o romance durará enquanto houver pessoas que escrevam romances e um público que os leia. A menos que as revistas ilustradas e as histórias em quadrinhos não atrofiem, definitivamente, a capacidade de leitura. Neste caso, a literatura voltará à idade da pеdra.

Quanto aos que propalam que os meus personagens não sabem escolher entre o bem e o mal, devo precisar o seguinte: à vida não interessa nem o bem nem o mal. Don Quixote escolhia entre o bem e o mal, mas o fazia num estado como que, de sonho. Don Quixote era louco. Reentrava de novo na realidade só quando tinha que enfrentar os homens e a luta o absorvia tanto que não lhe restava tempo para distinguir o bem do mal. Já que os homens só existem dentro da própria vida, devem dedicar todo o tempo a serem vivos. A vida é movimento e na esfera do movimento se enquadram os estímulos que movem o homem: a ambição, o poder, o prazer. Por mais que um homem se dedique à moralidade, deve sempre levar em consideração o movimento global de que ele faz parte. Cedo ou tarde ele deverá escolher entre o bem e o mal porque assim o impõe a sua consciência moral. Caso contrário ela o impedirá de continuar a viver consigo mesmo. A consciência moral é a maldição que o homem deve aceitar dos deuses para que estes, em compensação, lhe deem o direito de sonhar. Já que o homem é mortal, o único modo de conseguir a imortalidade é deixar alguma coisa que seja imortal e que continue a participar eternamente do moto perpétuo global, pois o objetivo de todos os artistas é o de deter com meios artificiais o movimento da vida e fazê-lo perdurar, de modo que daqui a muitos séculos, quando o olhar de um estranho, no futuro, se pousar sobre a sua obra, ele a veja mover-se ainda.

E quanto à questão racial, a minha posição é a seguinte, repetindo o que já disse antes: se nós, americanos, quisermos sobreviver, deveremos decidir de uma vez por todas, sermos americanos. Devemos apresentar ao mundo uma frente única, homogênea, independentemente da cor branca ou negra, vermelha ou verde de quem forma essa fisionomia una e coesa.

Reuso

Citação

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Por favor, cite este trabalho como:
Gilson Ribeiro, Leo. 2024. “William Faulkner. O mito, a arte, a ética. .” In A Literatura Norte-Americana, edited by Fernando Rey Puente, vol. 13. Textos Reunidos de Leo Gilson Ribeiro. Correio da Manhã. https://doi.org/10.5281/zenodo.8368806.